Capítulo 01: Flashes.

1566 Words
Anelise Narrando: Milão. Início dos Anos 90. O cheiro de laquê e tecido novo preenchia o ar como uma nuvem espessa, quase sufocante. Bastidores de desfile nunca eram lugares de calma, eram um caos organizado, feito de gritos apressados, costureiras correndo de um lado para o outro com agulhas na boca, maquiadores borrando batons enquanto tentavam dar conta de rostos que pareciam multiplicar a cada segundo. E ali, bem no meio de tudo aquilo, estava eu. O vestido vermelho colava ao meu corpo como uma segunda pele. Um modelo justo, com decote profundo e uma f***a que beirava a ousadia. Minhas pernas tremiam, mas não era por medo. Era pela descarga de adrenalina que me percorria da cabeça aos pés, como acontecia toda vez que eu estava prestes a entrar na passarela. O assistente de produção fez um sinal. Eu era a próxima. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo, tentando me concentrar no som da música, no ritmo, nos passos que eu tinha ensaiado tantas vezes na frente do espelho do meu apartamento minúsculo. "Foco, Anelise. Caminhe como se o mundo inteiro fosse seu." Quando abri os olhos, vi meu reflexo em uma das placas de metal ao lado do palco. Jovem, com o rosto perfeitamente maquiado, os cabelos presos em um coque alto, o batom vermelho combinando com o vestido. Por fora, eu era a personificação da confiança. Por dentro… bem, por dentro eu ainda era só uma garota tentando provar seu valor. A música mudou. Era a minha deixa e dei o primeiro passo. A luz dos refletores me cegou por um instante, mas logo os aplausos começaram, abafados pela trilha sonora eletrônica que pulsava nas caixas de som. Caminhei com a cabeça erguida, os quadris balançando no ritmo certo, o olhar fixo no ponto de fuga à frente, como me ensinaram. Mas foi na metade da passarela que meus olhos se desviaram, sem querer. E então eu o vi. Sentado na primeira fila, terno escuro, camisa impecavelmente branca, o nó da gravata afrouxado de um jeito calculado. Os cabelos castanhos penteados para trás, os olhos cor de mel me seguindo com atenção. Ele não sorria, apenas me observava como se já me conhecesse… como se me analisasse. O olhar dele me atravessou feito lâmina quente. Por um breve segundo, perdi o ritmo. Minhas pernas hesitaram, mas recuperei o passo antes que qualquer um percebesse. Ou, pelo menos, foi o que pensei na hora. Cruzei o final da passarela com o coração acelerado, o rosto ainda erguido, mas com a mente completamente fora de controle. Atrás das cortinas, encostei na parede mais próxima, tentando regular a respiração. — Tudo bem? — Perguntou uma das meninas, entregando-me um copo de água. Assenti, sorrindo como se fosse só cansaço. Mas não era. Não demorou para a produção liberar as modelos. Eu ainda teria outro look mais tarde, mas por enquanto, estávamos livres. Corri para o camarim, troquei de roupa, limpei a maquiagem, mas aquele olhar… aquele olhar ainda queimava em mim. Duas horas depois, eu estava numa festa privê em um hotel cinco estrelas de Milão, com a cabeça girando entre taças de champanhe e músicas pop dos anos 90. As luzes eram baixas, os risos altos, e todos ao meu redor pareciam flutuar em uma bolha de glamour e promessas. Foi lá que ele se aproximou. — Permita-me pagar a próxima taça. — A voz dele era grave, com um sotaque italiano arrastado, carregado de charme. Virei-me devagar, com um sorriso ensaiado no rosto. Ele estava ainda mais bonito de perto. A pele bronzeada, o perfume amadeirado, o jeito de quem estava acostumado a ter tudo o que queria… e de quem sabia muito bem como conseguir. — Não costumo aceitar bebidas de desconhecidos. — Respondi, brincando. — Então vamos resolver isso. Me chamo Sthefano. Sthefano Maddox. — Estendeu a mão. Apertei, sentindo a firmeza dos dedos dele, a forma como ele demorou um segundo a mais do que o necessário antes de soltar. — Anelise. — Eu sei. — Ele sorriu, com um brilho perigoso nos olhos. — Você roubou a noite hoje na passarela. Eu deveria ter recuado. Deveria ter percebido os sinais, os alertas silenciosos que a vida nos dá quando estamos prestes a cometer um erro. Mas eu estava no auge da minha juventude… sedenta por atenção, por reconhecimento, por aquele tipo de paixão que faz o chão sumir sob os pés. Conversamos por horas naquela noite. Ele me contou sobre os negócios, sobre as viagens, sobre os hotéis de luxo e os carros importados. E eu… eu contei sobre minha infância simples, sobre os castings frustrados, sobre o medo de ser só mais um rosto bonito que o mundo esqueceria em poucos anos. Ele me ouviu com uma atenção que me pareceu sincera. No fim da noite, quando me acompanhou até o táxi, encostou os lábios no meu ouvido e sussurrou: — Você merece ser tratada como uma rainha, Anelise. Eu sorri. Boba, encantadae entregue. Quando me deitei naquela noite, sozinha no quarto de hotel alugado pela agência, fiquei encarando o teto, repetindo aquelas palavras como um mantra. "Rainha." Aos 22 anos, eu realmente acreditei que aquele homem seria meu conto de fadas. m*l sabia eu… que ele seria o começo da pior cicatriz da minha vida. O relógio no criado-mudo piscava 02:37 da manhã quando finalmente consegui me deitar. Ainda estava com os cílios carregados de rímel e a pele grudenta de maquiagem, mas eu não tinha forças para me levantar e tirar nada daquilo. A cidade lá fora parecia viva, mesmo àquela hora. As buzinas distantes, o som abafado de alguma festa em outra esquina, e aquele cheiro de Milão que eu já começava a reconhecer: uma mistura de asfalto quente e perfume caro. Fiquei olhando o teto, com os pés para fora do cobertor, sentindo a brisa gelada do ar-condicionado. Os pensamentos giravam como as luzes da festa de algumas horas atrás. Eu ainda podia sentir o olhar dele, as palavras, o jeito como a voz dele deslizou pelo meu pescoço quando me chamou de rainha. Uma parte de mim queria rir da minha própria ingenuidade. A outra… a outra só queria fechar os olhos e sonhar com o que poderia vir depois. O celular, aquele modelo de flip antigo que a agência tinha me dado, vibrou em cima da mesinha. Olhei o visor, e meu coração se aqueceu de imediato: "Mamãe". Sorri antes mesmo de atender. — Alô? — Minha voz saiu baixa, meio rouca. — Anelise! — O grito do outro lado da linha me fez afastar o telefone da orelha por um segundo. — Você tá bem? Tá acordada? Eu vi! Eu vi, meu Deus do céu, eu te vi na televisão! Fechei os olhos, sorrindo ainda mais. — Mãe… são quase três da manhã aqui. — E são dez da noite aqui! Quem disse que eu ia conseguir dormir depois de te ver naquele vestido vermelho? Meu Deus, filha… você estava um arraso! — O tom dela era uma mistura de emoção e orgulho, como se eu tivesse acabado de ganhar um Oscar. — Exagerada como sempre… — Murmurei, mas o sorriso não deixava meu rosto. — Exagerada? Eu quase caí do sofá! Liguei pra sua tia, mandei mensagem pra vizinha… até o padeiro da esquina vai saber amanhã que minha filha foi a estrela de um desfile em Milão! Soltei uma risada leve, deixando o corpo afundar mais no colchão. Por um momento, todo o peso das cobranças, da solidão das viagens, dos castings, dos "nãos"… tudo isso pareceu se dissolver na voz da minha mãe. Ela continuava falando, como se estivesse num fôlego só: — Eu sabia, Anelise… eu sabia que você ia conseguir! Lembra quando você desfilava no quintal com os lençóis da casa? Eu dizia: “Essa menina nasceu pra brilhar!” E olha só… Milão! Que orgulho da minha menina! Mordi o lábio inferior, segurando a emoção. — Também sinto sua falta, mãe. — Ah, meu anjo… eu também sinto a sua. Mas agora é seu momento! Aproveite tudo! Faça contatos! Tire fotos! — Ela baixou o tom da voz, como se contasse um segredo. — E, quem sabe… encontre um italiano bonito? Hein? Eles são uns galãs… Ri outra vez, o rosto ficando quente. "Se você soubesse…" — Quem sabe, mãe… quem sabe. — Só me prometa uma coisa: cuide do seu coração. Tá me ouvindo? Não confie fácil. Esses homens de novela aí são muito bonitos, mas a gente nunca sabe o que tem por trás de um sorriso, viu? Aquelas palavras ficaram presas no ar, como um aviso que o futuro insistia em me dar… mas que, naquela noite, eu estava longe de ouvir de verdade. — Pode deixar… — Respondi, ainda sorrindo, ainda leve… ainda cega. Conversamos por mais alguns minutos, até ela começar a bocejar do outro lado da linha, prometendo que ia cortar a matéria do jornal no dia seguinte e guardar como recordação. Quando desliguei, fiquei ali, com o celular ainda na mão, encarando o teto escuro do quarto. Milão parecia cheia de promessas, minha carreira estava deslanchando, meu nome começava a circular nas rodas certas e agora… tinha um homem misterioso que me chamava de rainha. Adormeci com o coração cheio de esperança… sem saber que aquela era a calmaria antes da maior tempestade da minha vida.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD