Anelise Narrando:
França.
Dois dias se passaram desde o desfile.
Passei as horas seguintes entre sessões de fotos, reuniões com a agência e mais uma sequência exaustiva de castings. Os produtores pareciam finalmente enxergar em mim algo além de um rosto bonito. Recebia olhares de respeito, cumprimentos mais demorados… até mesmo as outras modelos, antes tão fechadas, começaram a me tratar com uma curiosa mistura de inveja e admiração.
Naquela manhã de quarta-feira, saí cedo do hotel para um editorial ao ar livre, perto da Piazza del Duomo. O fotógrafo era francês, rabugento e exigente, mas o cenário… ah, o cenário compensava. O sol iluminava os detalhes góticos da catedral e os turistas paravam para nos assistir, como se aquilo tudo fosse um espetáculo gratuito.
Depois de horas posando, finalmente fui liberada.
Cansada e faminta, parei em uma cafeteria discreta em uma das ruas laterais. Pedi um café e um croissant, tirando os saltos altos e relaxando os pés doloridos dentro da sapatilha que eu carregava na bolsa. Peguei meu caderninho de anotações e comecei a rabiscar ideias para futuros looks, como sempre fazia.
Foi quando ouvi a voz.
— Não é possível que Milão esteja conspirando a meu favor… ou talvez seja só sorte.
Levantei os olhos devagar… e lá estava ele.
Sthefano.
Dessa vez sem o terno, mas com uma camisa branca de linho dobrada até os cotovelos, os primeiros botões abertos, revelando um toque de pele bronzeada e o colar de prata discreto no pescoço. O cabelo castanho estava desalinhado de um jeito proposital, como se ele tivesse saído de um editorial de revista.
— Coincidência ou perseguição? — Perguntei, com um sorriso brincalhão.
— Coincidência… por enquanto. — Ele sorriu de volta, inclinando a cabeça. — Posso?
Antes que eu pudesse responder, ele puxou a cadeira à minha frente e se sentou, como se já fosse um velho conhecido. Meu coração acelerou.
— Está linda… outra vez. — Ele disse, os olhos deslizando sobre mim de um jeito que me deixou simultaneamente lisonjeada e inquieta.
— E você é sempre assim… direto?
— Apenas quando algo chama muito a minha atenção. — Ele apoiou os cotovelos na mesa, aproximando o rosto do meu, diminuindo ainda mais a distância entre nós. — E você… Anelise… tem chamado a minha atenção desde aquela noite.
Olhei para o lado, sorrindo de forma nervosa. Peguei a xícara de café só para ocupar as mãos.
— Você é sempre assim… encantador com todas as mulheres ou…?
— Só com as que valem o esforço. — Ele respondeu sem hesitar.
A conversa seguiu fácil, leve. Falamos sobre a cidade, sobre moda, sobre os lugares que eu ainda precisava conhecer. Ele parecia saber exatamente o que dizer, no tom certo, no momento certo. Havia um magnetismo nele… um tipo de presença que fazia com que o resto do mundo parecesse menos interessante.
Quando terminei meu café, ele fez questão de pagar a conta, ignorando meus protestos.
— Considere um convite. — disse, sorrindo enquanto guardava a carteira. — Hoje à noite… jantar comigo. Quero te mostrar um restaurante que poucos turistas conhecem e o meu favorito quando estou em Milão.
Mordi o lábio, hesitando por um segundo. Minha agência não recomendava que saíssemos com desconhecidos… mas será que ele realmente era um desconhecido?
Nos poucos minutos juntos, ele já parecia saber mais de mim do que muitos colegas de trabalho.
— Tudo bem. — aceitei, tentando não demonstrar a ansiedade que subia no meu estômago. — Mas só um jantar.
Ele sorriu, como se já soubesse que aquele seria apenas o primeiro de muitos encontros.
Horas depois, quando o táxi me deixou na frente do restaurante, eu ainda me perguntava se estava fazendo a escolha certa.
O lugar era pequeno, com luzes baixas e decoração rústica, paredes de tijolos aparentes e velas nas mesas. Sthefano já me esperava, de pé, perto da entrada, como se tivesse ensaiado aquela cena. Durante o jantar, ele foi ainda mais atencioso. Escolheu os pratos por mim, disse que conhecia o chef, que saberia exatamente o que eu ia gostar.
— Confie em mim. — Disse com um sorriso. — Hoje, a única coisa que você precisa fazer é aproveitar.
E eu… confiei.
Comi o que ele pediu, bebi o vinho que ele escolheu. Ri das piadas, me encantei com as histórias de viagens, com os contatos importantes que ele parecia ter em todos os lugares.
No final da noite, quando ele insistiu em me levar de volta ao hotel, recusei com um sorriso tímido.
— Está tarde… e eu tenho um dia cheio amanhã.
— Claro. — Ele respondeu, mas antes de me deixar entrar no táxi, segurou meu queixo com delicadeza, forçando meu olhar a encontrar o dele. — Anelise… você vai me ver de novo. Isso é só o começo.
A promessa ficou suspensa entre nós enquanto o carro se afastava. Encostei a cabeça no vidro, sorrindo feito uma adolescente apaixonada. Na minha cabeça… era só um homem charmoso, interessado, cuidadoso. No fundo da minha alma… uma vozinha sussurrava que eu deveria ir com calma.
Mas, naquela noite, preferi ignorar. Porque, quando você está no auge dos seus sonhos, a última coisa que quer é ouvir a própria intuição.
Dois dias depois.
O sol de fim de tarde coloria as ruas de Milão com tons dourados, e eu andava apressada pelas calçadas, com a bolsa a tiracolo e os óculos escuros escondendo as olheiras que a rotina exaustiva começava a desenhar no meu rosto.
Eu tinha acabado de sair de uma reunião na agência. As propostas estavam surgindo: um catálogo na Espanha, um editorial em Paris… e talvez, se tudo desse certo, até uma capa de revista nos próximos meses. Era como se, de repente, o mundo todo tivesse resolvido olhar para mim.
Foi enquanto eu esperava o sinal abrir, com os fones de ouvido tocando uma música qualquer, que ouvi aquela voz outra vez.
— Achei que só encontraria você em eventos com holofotes… mas parece que tenho sorte mesmo nas calçadas de Milão.
Virei devagar, já sabendo quem era antes mesmo de olhar. Sthefano.
Encostado em um carro escuro, de braços cruzados, com aquele mesmo sorriso confiante. O vento bagunçava alguns fios do cabelo dele e, por um instante, parecia que tudo ao redor desacelerava.
— De novo? — Provoquei, tirando os fones. — Vai começar a parecer perseguição…
Ele deu de ombros, rindo de leve.
— Ou destino. Prefiro pensar assim.
Caminhou até mim com passos seguros, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, estendeu um pequeno envelope preto.
— Pra você.
— O que é isso?
— Um convite. — Ele sorriu, inclinando a cabeça. — Estou hospedado num hotel aqui perto. Hoje à noite, tem uma pequena reunião… só alguns amigos, empresários, gente que trabalha no mercado da moda. Acho que seria bom pra você fazer alguns contatos.
Minha razão gritou um tímido "cuidado", mas a vaidade… essa gritou mais alto.
Peguei o envelope, fingindo um desinteresse que eu definitivamente não sentia.
— Vou pensar.
— Faça mais do que pensar, Anelise. Apareça. — Ele disse, antes de entrar no carro e desaparecer pelas ruas estreitas.
Horas depois, ali estava eu. Vestido preto, salto alto, batom vermelho, aquele mesmo tom que parecia se tornar minha assinatura desde o desfile.
O evento não era bem uma festa… era algo mais íntimo, com pessoas importantes. Executivos, estilistas, diretores de agência. Sthefano se movimentava entre eles como se fosse o dono de tudo. Cumprimentava um, abraçava outro, trocava sorrisos e olhares como quem jogava um jogo que eu ainda nem sabia as regras.
Quando finalmente me viu, veio até mim com um olhar satisfeito.
— Sabia que você viria.
— Como pode ter tanta certeza assim das coisas? — Perguntei, pegando a taça de champanhe que ele me ofereceu.
— Porque quando eu quero algo… eu sempre dou um jeito de conseguir.
As palavras dele me fizeram sorrir, sem que eu percebesse o quanto aquilo já era um aviso.
Conversamos a noite toda. Sobre tudo. Sobre mim, sobre ele… e foi ali que descobri algo que mudaria o rumo de tudo.
— Você mora aqui em Milão? — Perguntei, em um dos poucos momentos em que ficamos a sós, em uma varanda lateral.
— Não. — Ele girou a taça na mão, olhando o vinho como se refletisse sobre a vida antes de responder. — Moro em Boston.
— Boston? — Meus olhos se arregalaram. — Nunca estive nos Estados Unidos.
— Pois deveria. — Ele sorriu, apoiando um braço na grade da varanda, inclinando-se um pouco mais perto. — Inclusive… é por isso que estou aqui em Milão. Estou selecionando novas modelos para a minha empresa.
— Sua empresa? — Repeti, surpresa.
Ele assentiu, orgulhoso.
— Angel’s Company. Agência de moda e publicidade. Já temos contratos com marcas grandes, desfiles internacionais, campanhas de revistas. Eu vim atrás de talentos… e acabei encontrando algo melhor do que esperava.
Senti o rosto esquentar.
— Está dizendo que…?
— Estou dizendo que quero você.
A forma como ele disse aquelas palavras… lenta, carregada de duplo sentido… fez meu coração disparar.
— Quero você desfilando para a minha agência. Fotografando para as nossas campanhas. Quero te levar para Boston, Anelise. Quero te ver crescer… do jeito que você merece.
Por um instante, a cidade inteira pareceu desaparecer ao nosso redor.
— Isso… é sério? — Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.
— Extremamente. — Ele respondeu, sem desviar o olhar. — Já conversei com algumas pessoas da sua agência. Se você quiser… podemos formalizar tudo nos próximos dias.
Meu coração pulava dentro do peito. Boston, uma nova vida, uma chance real de me tornar tudo o que sempre sonhei.
— Eu… preciso pensar. — Sussurrei, tentando parecer racional, mesmo com a cabeça girando.
Ele sorriu, como se já soubesse a minha resposta.
— Eu dou o tempo que você quiser… mas saiba de uma coisa, Anelise… — Ele se inclinou mais perto, os lábios quase tocando a minha orelha. — Eu não costumo perder quando coloco alguém na minha mira.
Naquela noite, deitada novamente no meu quarto de hotel, encarei o teto pela terceira vez em menos de uma semana. O convite, agora físico e simbólico, repousava em cima da mesinha. Minha mãe ficaria em êxtase. Minha carreira… teria o impulso que eu sempre sonhei. E meu coração… bom, esse já estava perigosamente envolvido, mesmo que eu não quisesse admitir.