Anelise Narrando:
Milão.
Eu encaro o contrato há pelo menos quarenta minutos.
A pasta de couro está aberta sobre a cama do hotel, os papéis impecavelmente alinhados. O logotipo da Angel’s Company brilha sob a luz amarela do abajur. “Boston, Massachusetts – Agência Internacional de Moda e Publicidade”, está impresso no canto superior. Parece promissor, parece sofisticado e parece… tudo o que eu sempre quis.
Passo os dedos pelas letras, mas não assino ainda.
O quarto está silencioso, exceto pelo tic-tac irritante do relógio na parede e o ruído distante dos carros passando lá embaixo. As luzes de Milão piscam pela janela. Eu estou no oitavo andar, com a cidade inteira a meus pés, e ainda assim… me sinto flutuando, suspensa entre o agora e o que pode vir depois.
Boston.
Nunca pensei em ir para os Estados Unidos. Pelo menos não tão cedo. Sempre imaginei que Paris ou Londres seria o próximo passo. Mas aí surgiu Sthefano… com aquele sorriso seguro, aquele sotaque charmoso, aquela proposta embalada em promessas doces demais para serem ignoradas e eu sou jovem, ambiciosa e faminta.
Levanto da cama e vou até a sacada. O ar da noite milanesa é fresco e a brisa me arrepia os braços. Apoio as mãos na grade de ferro e olho a cidade abaixo. Luzes, motos, passos apressados nas calçadas… vidas acontecendo. Lá embaixo, tudo parece fácil e aqui em cima, cada escolha parece um abismo.
Mas então lembro das palavras dele.
"Quero te ver crescer, Anelise. Do meu lado. Quero garantir que ninguém apague seu brilho."
E isso… isso toca fundo. Porque a verdade é que eu passei a vida tentando brilhar para alguém. Para as agências, para os fotógrafos, para os olheiros e agora, um homem poderoso não só me vê… como me quer em sua empresa, em sua cidade, no mundo dele. Respiro fundo.
Volto para o quarto, pego a caneta e assino. Meu nome escorrega no papel como um sussurro e quando termino, fico olhando minha assinatura, nítida e fluida. Uma versão de mim que ainda não sabe tudo o que virá. Mas naquele instante, ela está feliz. Orgulhosa. Inocente, talvez. Mas feliz.
Pego o telefone do hotel e disco os números de cada. A ligação demora a conectar, mas quando ouço a voz da minha mãe dizendo “alô?” com aquele sotaque carregado de afeto, eu quase desabo.
— Mãe?
— Filha! Anelise! Meu Deus, que saudade! Como está aí? Tá tudo bem? Você comeu hoje?
Sorrio, sentando na beira da cama, como se tivesse doze anos de novo.
— Tô bem. Muito bem, na verdade e preciso te contar uma coisa…
Ela fica em silêncio por um segundo. Quando fala, a voz está cheia de curiosidade.
— Me assusta ou me orgulha?
— Acho que as duas coisas.
Dou uma risada leve e olho para o contrato assinado, ainda sobre o colchão.
— Eu fui convidada pra trabalhar com uma agência nova. Quer dizer, não é nova… é enorme, mas nova pra mim. A sede é em Boston. Nos Estados Unidos.
— Boston? — O grito dela atravessa a linha telefônica com a força de um vendaval. — Você tá brincando! EUA? Meu Deus, Anelise! Você aceitou?
— Assinei agora! Eles querem que eu vá em uma semana.
Silêncio. Mas eu conheço bem minha mãe. É o silêncio da emoção, não da dúvida.
— Anelise… isso é… isso é tudo o que você sonhou, meu amor. Você lembra quando você usava os lençóis como vestido e desfilava pela sala? Lembra quando a gente colava papel laminado nas sandálias pra parecer sapato de passarela?
— Lembro, mãe… — Minha voz falha um pouco. Morder o lábio não impede o nó na garganta. — E agora… eu tô indo. De verdade.
— Eu sabia. — Ela diz, firme. — Sempre soube que você ia ser grande demais pro nosso bairro. Só te peço uma coisa, filha…
— Claro.
— Cuide de você. Escute seu coração e se alguma coisa parecer errada… mesmo que pareça pequena, mesmo que venha com um buquê de flores… me promete que você vai ouvir sua intuição.
Fecho os olhos.
Minha mãe sempre foi intuitiva. Sempre teve essa sensibilidade para coisas que eu fingia não ver.
— Prometo.
— E esse empresário… esse tal de… como é o nome dele?
— Sthefano.
— Ele é mesmo quem está te ajudando com tudo?
— Sim. Ele é… incrível, mãe. Elegante, inteligente, atencioso e ele acredita em mim como ninguém nunca acreditou.
— Só… vá com calma. — Ela diz, em um tom doce, mas firme. — Às vezes, o brilho também cega.
Me encosto nos travesseiros, olhando para o teto do quarto. A frase dela me arrepia um pouco, mas não o suficiente para me deter.
— Tá bom, mãe. Eu vou ter cuidado… eu juro.
— Eu te amo, filha. Tô tão orgulhosa de você que não consigo nem falar direito e quando você chegar em Boston, me liga. Me escreve. Me manda cartão postal, qualquer coisa. Quero saber de tudo!
— Eu te amo também. Mais do que tudo.
Desligo e fico um tempo com o fone ainda colado ao ouvido, como se não quisesse soltar o último eco da voz dela.
Depois, levanto e guardo os papéis na pasta. Arrumo minhas malas mentalmente. Amanhã, Sthefano vai mandar um assistente buscar meu visto. Ele disse que já está cuidando de um apartamento pra mim, perto da sede da Angel’s. Tudo fácil. Tudo prático.
Tudo entregue.
Me olho no espelho. Meu reflexo parece mais confiante do que nunca.
Mas há uma sombra nos olhos. Uma pontinha de algo que se esconde por trás do brilho. Não é medo. Não ainda. É só o início e eu ainda não sei. Mas já estou caindo em tentação.
Dia seguinte.
Acordo com a luz do sol invadindo meu quarto de hotel pelas frestas da cortina. O céu de Milão está limpo, de um azul quase tímido, e as ruas lá embaixo já se enchem de passos, buzinas e conversas apressadas. Milão não espera ninguém. E hoje, pela primeira vez, eu também não espero mais.
Me espreguiço devagar, o lençol enroscado nas pernas, o relógio antigo de cabeceira marca 8h47, e minha cabeça ainda está meio nublada, como se não tivesse absorvido totalmente tudo o que aconteceu ontem. Mas aí olho para a pasta em cima da poltrona, a mesma onde deixei o contrato assinado e tudo volta com força.
Eu vou pra Boston. Em quatro dias.
Sento na cama com um suspiro, esfregando os olhos e tentando organizar mentalmente as tarefas. Preciso arrumar minhas coisas, confirmar meu visto, avisar a agência italiana, cancelar o quarto do hotel, comprar uma mala nova… e encontrar uma forma de não surtar com tudo isso. Levanto devagar, prendo o cabelo num coque alto e calço as pantufas finas que trouxe de casa. O chão do quarto está frio, o que me ajuda a despertar de vez. Abro o armário e começo a separar o que vai e o que fica. Faço pilhas: vestidos de desfile, roupas de ensaio, peças pessoais. Cada blusa parece guardar um momento, um casting frustrado, uma foto que deu certo, uma amizade que se dissolveu.
E então o telefone do quarto toca.
Me sobressalto levemente e corro para atender.
— Signorina Anelise? — A recepcionista diz, com seu italiano impecável e sotaque musical. — Há um motorista esperando por você na recepção. Ele deixou um presente em nome do senhor Maddox.
— Um… presente? — Repito, surpresa. — Pode pedir que ele suba, por favor?
Agradeço e desligo. Meu coração já começa a bater mais rápido e dois minutos depois, batem à porta.
Abro devagar e dou de cara com um homem alto, bem vestido, com um chapéu elegante e postura formal. Ele sorri de forma contida e me estende um arranjo.
— De Sthefano Maddox. — Diz apenas, com um sotaque britânico leve.
Aceito o buquê com cuidado. São rosas vermelhas e brancas intercaladas, envoltas por uma fita dourada, eram lindas e delicadas. Quase cinematográficas. Entre as flores, há um envelope preto com meu nome escrito à mão, em caligrafia firme e masculina.
— Obrigada. — Sussurro, ainda sem acreditar. Mas quando olho novamente para o corredor, ele já se foi. Rápido e silencioso, como tudo que cerca Sthefano.
Fecho a porta com o coração disparado. Sento-me na beirada da cama e abro o envelope.
Dentro, um pequeno cartão com fundo acetinado. As palavras são poucas, mas suficientes para acender algo dentro de mim:
“Para que você nunca esqueça que já é admirada, mesmo antes de cruzar o oceano.
Estou orgulhoso de você.
— S.”
Passo os dedos sobre a caligrafia. É limpa, elegante, e carrega aquele mesmo tom de sedução sutil que ele usa quando fala baixo perto do meu ouvido.
Levo o buquê até o banheiro e coloco as flores num copo alto de vidro. Fico um tempo olhando para elas, e inevitavelmente sorrio. Ninguém nunca me mandou flores antes. Nunca fui o tipo de garota dos gestos românticos, sempre fui a prática, a determinada, a que fazia as malas e seguia em frente.
Mas com Sthefano… tem sido diferente.
Ele me vê. Ou pelo menos é isso que eu sinto.
Volto para o quarto, ainda com o cartão na mão. Sento-me na janela e deixo que o vento brinque com os fios do meu cabelo solto. Milão parece mais bonita hoje, como se também estivesse se despedindo de mim. E por um instante, a insegurança dá lugar a algo que quase se parece com esperança.
Pego meu caderninho de anotações, aquele onde rabisquei sonhos no começo da viagem e escrevo ali, bem no topo da página:
“Boston. Nova fase. Nova chance. Talvez até… um novo amor.”
Fecho o caderno, pego o telefone e ligo para a recepção.
— Alô? Poderia chamar um táxi para mim, por favor?
Hoje, vou comprar malas novas. E talvez um vestido para o jantar de despedida que Sthefano prometeu organizar antes da minha viagem. Quero estar linda quando ele me vir de novo.
E parte de mim… quer muito mais do que um contrato.