Capítulo 04: Confiança.

1694 Words
Anelise Narrando: Boston. 4 dias depois. Boston me recebe com um céu de outono e ventos cortantes que fazem minhas mãos congelarem, mesmo dentro do casaco. Saio do aeroporto com os olhos atentos e o coração acelerado, como se estivesse pisando pela primeira vez em um sonho que levou anos para se materializar. O motorista da Angel’s Company me espera logo após a alfândega. Ele segura uma plaquinha com meu nome, vestido impecavelmente com um sobretudo escuro e luvas de couro. Me chama de "miss" com um inglês polido, e oferece um sorriso contido antes de pegar minhas malas. Dentro do carro, observo a cidade pela janela como uma criança encantada. Boston parece elegante e silenciosa, com edifícios de arquitetura clássica, árvores douradas pelo outono e ruas largas que exalam uma calma quase estratégica. Não tem o caos de Milão, nem o charme ruidoso. Boston é diferente, séria, reservada e quase aristocrática. Não trocamos muitas palavras até chegarmos ao meu destino. O carro para diante de um prédio moderno, de fachada espelhada e portaria de vidro. A vista da calçada já impressiona: colunas brancas, entrada de mármore polido, jardineiras floridas mesmo com o clima frio. — Bem-vinda ao seu novo lar, senhorita Anelise. — Diz o motorista, abrindo a porta para mim com delicadeza. Faço um aceno, ainda embriagada pela atmosfera surreal do momento. No saguão, uma recepcionista gentil me entrega as chaves e um cartão magnético. — Apartamento 2101. Andar alto. Vista privilegiada! — Ela sorri. — Foi o próprio senhor Maddox quem escolheu. Subo no elevador de vidro sozinha. A música ambiente toca algo instrumental, e meu reflexo me encara nas paredes espelhadas. A mala grande está ao meu lado, e minha mochila, apertada contra o peito, carrega o essencial: passaporte, dinheiro, documentos… e o bilhete que minha mãe deixou no envelope da despedida, escrito com letra trêmula e cheio de amor. Quando as portas do elevador se abrem, meu coração dispara. A chave gira suave na fechadura e entro devagar. O apartamento está impecavelmente limpo e iluminado pela luz natural que invade através das janelas amplas. O chão de madeira brilha, e uma enorme sala se abre diante de mim, com móveis minimalistas e sofisticados em tons de bege e dourado. Dou alguns passos, ainda em silêncio. Então o cheiro me atinge primeiro. Rosas. No centro da sala, sobre uma mesinha de vidro, um buquê colossal de rosas vermelhas repousa em um vaso de cristal. São dezenas. Talvez até uma centena. O vermelho é tão profundo que quase parece aveludado, como se cada flor tivesse sido esculpida à mão. Pisco, atordoada. Caminho até elas como se não acreditasse que é comigo. Preso a uma das hastes, está um envelope preto. Reconheço na hora a caligrafia de Sthefano. Minhas mãos tremem levemente enquanto abro o papel grosso e elegante. “ Anelise, Boston já está mais bonita desde que você pousou. Hoje à noite, quero te mostrar a cidade do meu jeito. Vista algo que te faça sentir poderosa, como você é. Um carro vai te buscar às 20h. Estou ansioso para ver você. – S.” Seguro o cartão por alguns segundos, sentindo o coração bater como se estivesse em uma passarela, pronto para o próximo clique. Deixo as malas de lado, esqueço o cansaço do voo e vou explorar o apartamento. O quarto principal tem uma cama king size com cabeceira de veludo e lençóis alvos, já arrumados. Há uma penteadeira ao lado da janela, com espelho redondo e luzes circulares, como se ele soubesse que eu precisaria disso. O closet ainda está vazio, mas espaçoso e acolhedor. Já posso me imaginar aqui. Organizadora de sonhos, finalmente com um lar para chamar de meu. No banheiro, toalhas brancas dobradas com perfeição e uma pequena bandeja com frascos de perfume francês. Tudo tem o toque sutil de quem pensou em cada detalhe. Tudo tem o toque dele. Volto para a sala e passo os dedos pelas pétalas macias das rosas. Fecho os olhos por um instante. É assim que começa? Com cuidado, com elegância, com flores que perfumam o ar antes mesmo de abrirem por completo? Sorrio sozinha, meio tímida, meio eufórica. Olho o relógio na parede. São quase quatro da tarde. Tenho pouco mais de quatro horas para decidir o que vestir, arrumar o cabelo, esconder as olheiras da viagem. Vou até a mala, abro o zíper e puxo um vestido preto de veludo com mangas longas e decote delicado. Ele já me acompanhou em outras noites importantes… mas nenhuma como essa. Hoje é o início de algo. De uma nova vida, um novo país. E, talvez… de um sentimento que eu ainda não sei nomear. Boston não parece mais tão fria. Sthefano… parece cada vez mais quente. E eu estou prestes a descobrir que às vezes, o calor que envolve também é o que mais queima. Mas por ora, só há rosas, um bilhete e a promessa de um jantar. E isso me basta. O relógio marca 19h48 quando termino de prender o cabelo em um coque baixo e solto alguns fios na lateral do rosto. O vestido de veludo preto envolvia meu corpo como se tivesse sido feito sob medida, não era revelador, mas ainda assim provocante, com um decote que sugere mais do que mostra. Na penteadeira, passo o batom vermelho que agora parece parte de mim. Um toque de perfume atrás das orelhas, salto alto, um casaco leve por cima e estou pronta. Ou pelo menos é o que tento convencer meu reflexo no espelho. Por dentro, meu estômago dança como se estivesse prestes a entrar na passarela mais importante da vida. Às 20h em ponto, o interfone toca. — Senhorita Anelise, o carro está à sua espera. Respiro fundo, pego a clutch preta com o essencial e desço. Minutos depois. O carro preto desliza pelas ruas de Boston com suavidade. O motorista, o mesmo de antes, não fala muito e eu agradeço o silêncio. Aproveito o trajeto para observar a cidade iluminada, é diferente à noite, mais misteriosa e mais charmosa. Parar diante do restaurante escolhido por Sthefano é como entrar em um filme antigo. A fachada é discreta, sem placas chamativas. As portas de madeira escura se abrem com o toque de um manobrista de terno, e por dentro, o lugar parece um segredo bem guardado. Lustres de cristal, paredes cobertas por painéis de madeira e música clássica tocando baixinho. O som de taças tilintando e conversas abafadas preenche o ambiente com elegância. E então, eu o vejo. Sthefano está encostado em uma das colunas, o terno preto impecável, camisa branca sem gravata, um botão aberto. Ele sorri quando me vê. Mas não é um sorriso qualquer. É como se todo o mundo ao redor tivesse deixado de existir. — Você veio. — Diz, com a voz grave e baixa. — Claro que vim. Você achou que eu perderia uma oportunidade de jantar com meu novo “chefe”? — Brinco, tentando soar mais confiante do que estou. Ele estende a mão, e eu a aceito. Seus dedos tocam os meus com firmeza e calor. Ele me guia até a mesa como se fôssemos um casal antigo, acostumado a dividir jantares caros. O garçom nos serve vinho tinto e desaparece com eficiência. — Você está… absolutamente deslumbrante. — Sthefano diz, sem disfarçar o olhar que percorre meu rosto, depois meu colo. Sorrio, sentindo minhas bochechas aquecerem. — E você continua bom em escolher restaurantes. — Eu escolhi por você. Esse lugar é reservado, elegante… e com vinhos que combinam com sua intensidade. — Intensidade? — Sim. Você é uma mulher intensa, Anelise. A forma como entra num ambiente… como olha… como se move. Eu percebi isso desde o primeiro instante em Milão. Pisco devagar, tentando absorver o que ele está dizendo sem mergulhar demais. Mas é difícil. Sthefano fala como quem lê os pensamentos. Durante o jantar, ele conta histórias de Boston, da empresa, dos desfiles que organizou em Nova York, de campanhas em Paris. Ele cita nomes importantes, marcas que vi em revistas e sonhei em representar. E o tempo inteiro, ele não desvia o olhar de mim. Como se eu fosse o único ponto fixo naquele mundo girando. — Você sabe o que eu vi em você, Anelise? — Ele pergunta, enquanto o prato principal é retirado. — Além da beleza, claro. — O quê? — Fome, ambição e isso… é raro em alguém tão jovem. Você tem algo que nem sabe que tem ainda. Mas eu vejo. As palavras dele me tocam num lugar vulnerável. Onde ninguém antes tocou. — Você me faz acreditar nisso. — Confesso. Ele se inclina sobre a mesa, os olhos presos aos meus. — Porque é verdade. E se você confiar em mim… vou te levar mais longe do que imagina. O silêncio que se segue não é desconfortável. É denso. Como se algo estivesse se formando ali, entre um gole de vinho e outro. Quando nos levantamos para sair, ele segura minha mão. O ar lá fora está frio, mas não me importo. Do lado de fora, a cidade respira em silêncio. Sthefano me acompanha até o carro, abre a porta, mas antes que eu entre, ele segura meu braço com delicadeza. — Anelise. Viro o rosto, e ele se aproxima. — Você confia em mim? A pergunta me pega de surpresa. — Confio. — Então… me permita uma coisa. Não espero o que vem a seguir. Seus dedos tocam meu rosto e qoutra mão repousa na minha cintura. E então, ele me beija. Devagar e com precisão. Como se soubesse exatamente o tempo certo, o ângulo certo, o ritmo exato. Não é apressado, não é inocente. É como um selo. Quando ele se afasta, ainda me mantém perto, o nariz roçando o meu. — Agora sim. — Ele sussurra — Posso começar a mostrar o mundo para você. Entro no carro em silêncio, o coração disparado. Levo os dedos aos lábios, ainda quentes. Não sei se estou flutuando… ou começando a cair. Mas no fundo, uma parte de mim já sabe: Essa história não vai ser simples. E mesmo assim… eu não quero parar.
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