Anelise Narrando:
Boston.
Dias depois.
Boston acorda com névoa fina cobrindo os telhados e os vidros dos arranha-céus como véus embaçados. Mas eu acordo com o coração leve, pela primeira vez desde que pisei nessa cidade.
Talvez tenha sido o beijo, talvez o jantar.
Ou talvez o simples fato de estar vivendo aquilo que por tantos anos só existiu em recortes de revista colados na parede do meu quarto na França.
Hoje é meu primeiro dia oficial na sede da Angel’s Company. Tomo banho cedo, prendo o cabelo em um r**o de cavalo elegante e visto um conjunto de alfaiataria creme, justo na medida certa. Saltos médios, batom claro, perfume discreto. Quero parecer profissional, mas sem perder o brilho que, segundo Sthefano, me faz única.
Às nove em ponto, entro no edifício.
O saguão de mármore claro e detalhes em bronze parece mais uma galeria de arte do que uma agência de moda. Há quadros enormes de modelos estampando campanhas internacionais, vitrines com troféus de premiações e uma recepção onde tudo reluz.
A recepcionista me reconhece imediatamente.
— Senhorita Anelise, bom dia! O senhor Maddox deixou ordens para que eu a acompanhe até o 27º andar. É o departamento executivo e criativo.
Assinto, um pouco surpresa por saber que ele já cuidou disso também. Mas claro… é Sthefano.
No elevador espelhado, observo meu reflexo ao lado da recepcionista. Pareço segura. Mas por dentro, minhas mãos suam levemente.
O andar onde descemos é silencioso, acarpetado e com janelas enormes. Pessoas passam apressadas segurando pastas, roupas em cabides, tablets e croquis. Há uma energia no ar, algo como tensão, mas também expectativa.
É aqui que tudo acontece.
Sou apresentada a duas coordenadoras, uma assistente de casting e um estilista francês que me observa como se eu fosse um molde de vestido em movimento.
Mas é ela quem me marca.
— Oi, você deve ser a francesa nova, né? — Diz uma voz animada ao meu lado. Quando viro, vejo uma mulher de cabelo ruivo intenso, sardas no rosto e um sorriso fácil.
— Sou. Anelise. — Estendo a mão.
— Eu sou Claire, sua vizinha de mesa agora. E seu alerta pessoal de café r**m da máquina. — ela pisca, divertida.
Dou uma risada verdadeira pela primeira vez no dia.
— Obrigada pelo aviso. Eu definitivamente preciso de alguém assim por aqui.
Claire me mostra o andar, me apresenta a mais algumas pessoas e senta comigo para revisar o cronograma da semana.
— Você tá no topo da lista de prioridade. O Sthefano quer que você comece com uma campanha nova que tá sendo preparada só pra você.
— Uma campanha só minha?
— Sim. Dizem que é um editorial pra uma marca nova de perfume que ele está lançando em parceria com uma empresa francesa. — Ela abaixa a voz. — É raro ele fazer isso com modelos novas. Mas, bem… você parece ser uma exceção em muitos sentidos.
Há um tom curioso na voz dela, mas não é malicioso. Apenas intrigado.
— Não sei por quanto tempo vou ser exceção… — Brinco, tentando esconder o rubor.
Claire me observa por um instante, depois sorri com leveza.
— Se precisar de ajuda, ou quiser fugir de reuniões chatas, me chama. Sou boa em inventar desculpas para escapadas estratégicas.
Gosto dela de cara. Há algo em Claire que me lembra minhas amigas da adolescência, sinceridade sem esforço e zero competição. Uma raridade nesse meio.
Na hora do almoço, recebo uma mensagem no meu pager.
“Mesa reservada para você no Terraço Angel, 12h30. – S.”
Não preciso perguntar quem mandou.
Claire, espiando por cima do monitor, levanta uma sobrancelha.
— Ele já começou com as mensagens?
— Como assim?
— Nada… só observe. Sthefano gosta de marcar território com flores, almoços e convites elegantes. Mas também gosta de saber onde cada uma das peças dele está no tabuleiro.
— Peças?
— Metáfora! Por enquanto.
O restaurante no terraço é como um cenário de filme europeu. Guardanapos de linho, garçons silenciosos, pratos servidos como arte.
Sthefano já está à minha espera quando chego. Levanta quando me vê e beija minha mão.
— Está tudo do seu agrado?
— O prédio, o andar, a recepção, o café com gosto de poeira... sim, está ótimo. — Sorrio, e ele ri.
— Você vai se acostumar rápido. Seu nome já está sendo comentado por aqui. A sala de criação está impressionada com suas fotos da Itália.
— E isso é bom?
— Isso é o começo. — Ele me olha intensamente. — Estou orgulhoso, Anelise.
Conversamos durante o almoço. Ele quer saber sobre minha infância, meu bairro, minha comida favorita. São perguntas simples, mas feitas de forma tão focada que me sinto exposta. Ou cuidada. Ainda não sei qual dos dois.
Antes de ir embora, ele segura minha mão por alguns segundos a mais.
— Estou aqui, sempre. Não hesite em vir até mim, por qualquer motivo. Boston pode ser uma cidade fria… mas quero que ela seja quente para você.
Na volta para o andar executivo, passo por Claire.
— Como foi?
— Ele é gentil, atencioso e prestativo.
Ela sorri, mas há um brilho diferente nos olhos.
— Espero que continue assim.
Horas depois.
Naquela noite, deitada no apartamento, olho pela janela a cidade iluminada. Boston me parece mais viva agora, menos distante.
Do outro lado do corredor, sei que Claire está lá, lendo algum livro de moda dos anos 70, como ela mencionou.
E Sthefano… provavelmente está em algum restaurante caro ou fechando contratos, mas ele ainda habita minha mente. O beijo, o olhar, as palavras que ele sussurra como quem dita promessas.
Mas por hoje, me permito apenas sentir. O primeiro dia passou e eu estou aqui, e tudo, até agora, parece... perfeito demais.
Talvez bom demais. Mas eu ainda não quero desconfiar. Ainda não.
Dias depois.
O estúdio principal da Angel’s Company é maior do que qualquer outro em que já trabalhei. O chão é branco e liso como porcelana, as paredes são móveis, adaptáveis a qualquer cenário, e o teto está coberto por luzes articuladas, filtros e painéis refletivos que parecem saídos de uma nave espacial.
Claire caminha comigo até o camarim, equilibrando dois cafés e um rolo de papéis com instruções do dia.
— Hoje é grande, estrela. É o primeiro ensaio oficial da campanha do perfume, o criador da fragrância está vindo assistir, e Sthefano vai dar uma passada no set.
— Ele sempre aparece assim?
— Quase sempre. Gosta de ver tudo de perto… especialmente o que envolve você. — Ela pisca e me entrega o café.
— Claire… — Começo, meio rindo, meio preocupada.
— Ei, não me leve a m*l. Ele é charmoso, mas também é estrategista. Não existe gentileza sem motivo no mundo da moda.
Assinto, mesmo não querendo pensar muito nisso agora. Estou nervosa. O tipo de nervosa que faz o estômago embrulhar e as mãos tremerem levemente.
O figurino do dia é ousado, mas elegante: um vestido vermelho de cetim colado ao corpo, com um f***a lateral que sobe mais do que deveria, e um decote desenhado para parecer obra de arte. A maquiagem é dramática, batom vinho, delineado marcado, sombra dourada nas pálpebras. Me transformam em outra pessoa. Uma versão minha mais madura, mais sedutora, mais... letal.
No set, o fotógrafo um francês chamado Marc, me cumprimenta com entusiasmo.
— Anelise, ma chérie, você é o diamante do editorial. Hoje, você me dá o que quiser, sim? Olhar de pecado, sorriso de promessa.
Rio, relaxando um pouco com o exagero teatral dele. As luzes se acendem, a música começa e eu viro outra.
O clique da câmera é como uma batida no peito. A cada disparo, mudo a pose, o olhar, o gesto das mãos. O vestido se move comigo como uma extensão do meu corpo. Me entrego à personagem. Me torno ela.
O perfume, o tal da campanha, tem notas amadeiradas e sensuais. Passam na minha pele com um pincel fino, um borrifo atrás do pescoço. Outro no pulso. O aroma sobe enquanto a câmera captura cada curva, cada sombra.
Sthefano chega no meio da sessão e o ambiente muda sutilmente. Pessoas se ajeitam, a tensão cresce, os sorrisos se esticam. Mas eu não mudo. Continuo ali, diante da lente, sentindo os olhos dele sobre mim e eles queimam mais do que o flash.
Quando a última foto é tirada, Marc aplaude com palmas rápidas e emocionadas.
— Perfeita! Exatamente como imaginei. Você é uma deusa.
Agradeço, ofegante, com a maquiagem começando a pesar no rosto e os pés doendo nos saltos.
Claire me entrega uma água gelada e murmura:
— Sthefano está te esperando no camarim.
— O que ele quer?
Ela dá de ombros, mas seus olhos dizem mais do que seus lábios.
— Vai lá. Mas se ele te convidar pra algo… pensa bem antes de dizer sim.
No camarim, Sthefano está encostado na bancada de mármore, segurando um envelope escuro e uma taça de vinho tinto. Ainda veste terno, mas o paletó está pendurado na cadeira e a manga da camisa dobrada até o antebraço.
Ele sorri quando me vê. Um sorriso preguiçoso, mas quente.
— Você roubou a cena.
— Eu só estava fazendo meu trabalho.
— E ainda assim fez melhor que todas.
Ele se aproxima devagar. Estende o envelope.
— Aqui está o convite oficial.
— Convite para?
— Jantar. Hoje à noite. Na minha casa.
Frio e direto. Como tudo nele.
— Não precisa trazer nada. Só você. E… talvez aquele vestido preto que usou no nosso primeiro jantar.
— Aquele?
— Ele tem um efeito devastador em mim.
Meus olhos encontram os dele. Há algo nele que me desarma, um magnetismo antigo, perigoso, mas sedutor.
— Claire vai torcer o nariz quando souber. — Digo, meio rindo.
— Claire não entende o que eu vejo em você.
— E o que você vê?
Ele se aproxima mais. Seu perfume me envolve.
— Uma mulher que ainda não sabe o poder que tem… mas que, aos poucos, está despertando. E eu… quero estar por perto quando isso acontecer.
Horas depois.
Às oito da noite, o carro está me esperando na frente do prédio. O mesmo motorista de sempre, o mesmo silêncio elegante. O bairro muda conforme avançamos, as ruas se tornam mais largas, mais arborizadas, mais luxuosas.
A mansão de Sthefano é de tirar o fôlego.
Portões de ferro forjado, jardim com pequenas luzes enterradas no chão, uma fachada de pedra iluminada por refletores suaves. É o tipo de lugar que só se vê em filmes. Ele me recebe na porta, sem gravata, com um copo na mão e um sorriso de quem já sabe que ganhou a aposta.
— Bem-vinda à minha casa, Anelise.
Entro.
E não sei… se estou prestes a ser adorada.
Ou devorada.