Bella
Eu estava retornando para casa após uma tarde maravilhosa com minhas amigas na praia. O sol se pôs lentamente no horizonte, tingindo o céu de tons de laranja e vermelho enquanto a brisa do mar acariciava meu rosto. A areia ainda grudava nos meus pés e pernas, uma lembrança física das horas de diversão sob o sol.
Caminhei pela porta de entrada, sentindo a sensação acolhedora de lar que sempre me envolvia ao chegar em casa. A casa de estilo mediterrâneo em Taormina era o nosso refúgio desde que nos mudamos de Palermo. Era um lugar de paz, onde eu podia me afastar das preocupações e dos segredos do passado.
Enquanto subia as escadas que levavam ao meu quarto, ouvi a voz da minha avó ecoar pela casa.
― Bella! ― Ela gritou, chamando por mim. ― Onde você estava?
Sua voz soava urgente, e isso me fez parar no último degrau da escada. Por que ela estava gritando daquele jeito? Senti um arrepio de preocupação ao percorrer a minha espinha enquanto eu me virava e descia as escadas em direção à sala de estar.
Minha avó estava ali, uma figura imponente e enérgica, com seus cabelos prateados e olhos cheios de expressão. Ela me encarou com um olhar penetrante quando me aproximei.
― Onde você estava, Bella? ― ela perguntou, a voz ainda carregada de urgência. ― Eu estava preocupada.
Fiquei um pouco surpresa com a intensidade de suas palavras. Ontem ela também ficou assim, preocupada, onde estava, com quem estava. Depois de sairmos de Palermo ficou assim. E tem das coisas que ela falou dos meus pais que me deixou bastante intrigada e querer ir atrás da família Mattarazzo. Por enquanto vejo isso depois.
― Vovó, sair mais cedo da escola e sair com minhas amigas na praia, só isso. ― avisei, estava começando a ficar sem paciência com isso. Estou com vinte anos, não pode mais me tratar quando tinha meus quinze anos. ― Licença que vou para o meu quarto, estou cansada, quero deitar um… ― ela me corta.
― Voce não vai deitar. Com essa demora estamos atrasadas. Vai se arrumar. ― ela disse, me fitando. Ergo a sobrancelha não entendendo aquilo. Notei que minha avó está arrumada.
― Como assim me arrumar? ― indago, com os braços cruzados olhando para ela. ― Para onde é que vou?
― Vamos para igreja, ou já esqueceu? ― ela expôs, com a voz suave. ― Vai logo se arrumar, se não vamos perder o culto.
"Está zoando? Não acredito que aquilo que a senhora disse ontem é verdade?" Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Minha avó tinha insistido que eu a acompanhasse à igreja, e eu estava em estado de choque. Naquela manhã, depois de uma noite agitada, eu tinha esperanças de que ela reconsiderasse, mas estava claro que ela estava determinada a cumprir sua decisão.
Ela olhou para mim com seriedade, seus olhos expressando uma determinação que eu nunca tinha visto nela antes. Dona Rita Fiore era uma mulher de fé, mas nunca havia sido tão insistente sobre minha participação na igreja antes.
― Bella, isso não é um pedido, é uma decisão. ― ela respondeu, sua voz soando firme. ― A igreja é o melhor lugar para você agora.
Eu sabia que a morte dos meus pais ainda a assombrava, e minha busca por respostas só estava piorando sua preocupação. Mas, mesmo assim, a ideia de frequentar a igreja regularmente era algo que eu não tinha considerado antes.
― Vovó, eu entendo que a senhora esteja preocupada, mas isso não é o que eu preciso agora. ― eu disse, minha voz soando firme. ― Eu preciso de respostas, de entender o que aconteceu com meus pais.
Ela suspirou profundamente, seu olhar se suavizando por um momento.
― Bella, querida, eu sei que você está em busca de respostas. ― ela disse com compaixão. ― Mas a igreja pode trazer conforto e orientação. Talvez, lá, você encontre o que está procurando.
Eu não sabia como argumentar contra sua fé. Minha avó sempre acreditou que a igreja era o refúgio para todos os problemas. No entanto, naquele momento, eu sentia que era um desvio da minha busca, um obstáculo entre mim e a verdade que eu tanto desejava. Eu estava determinada a descobrir o que realmente havia acontecido com meus pais, e ninguém, nem mesmo minha avó, poderia me impedir.
Minha avó estava decidida, e eu podia sentir que ela não estava disposta a ceder em sua decisão de me levar à igreja.
― Bella, não vou dizer de novo. Vai se arrumar, ou vou ter que me obrigar? ― Ela ordenou, sua voz soando firme.
Eu cruzei os braços, ainda relutante.
― Eu não vou pra igreja nenhuma, já disse.
Ela não perdeu tempo. Com uma determinação surpreendente para alguém de sua idade, minha avó me levou até o quarto. Sem cerimônia, ela pegou o primeiro vestido que viu e o jogou em minha direção.
―Vista-se, Bella. Vou estar lá embaixo esperando você se arrumar para irmos à igreja.
Senti uma mistura de frustração e resignação enquanto ela saía do quarto, deixando-me sozinha com o vestido nas mãos. Olhei para a peça de roupa com desânimo. Não era a forma como eu planejava passar o meu dia. Minha mente estava cheia de perguntas sobre a máfia, sobre o homem que minha avó conhecia, sobre meus pais, e eu estava determinada a encontrar respostas.
Vesti o vestido a contragosto, minha mente fervilhando de planos para escapar da igreja e continuar minha busca. Não importava o que minha avó dissesse ou fizesse, eu estava decidida a desvendar os segredos que me cercavam. E a igreja, pelo menos por enquanto, teria que esperar.