capítulo 2

1176 Words
Duas horas depois, meu carro parava em frente ao hospital. Não levei escolta. Apenas Lorenzo. Quanto menos pessoas soubessem daquilo, melhor. Coloquei um boné escuro e óculos para não chamar atenção. Não era medo. Era estratégia. Meu rosto não podia ser reconhecido. Entramos. O cheiro de álcool e medicamentos invadiu minhas narinas. Hospitais nunca me agradaram. Havia dor demais entre aquelas paredes. Lorenzo caminhava ao meu lado. — O quarto é no terceiro andar. Apenas assenti. Entramos no elevador. Cada andar que subia parecia demorar uma eternidade. Quando a porta se abriu, uma enfermeira nos recebeu. — Os senhores são parentes da paciente? Lorenzo respondeu antes que eu dissesse qualquer coisa. — Estamos tentando confirmar a identidade dela. A mulher suspirou. — Coitada... Ninguém apareceu por ela durante esses quatro anos. Só uma senhora do bairro vem visitá-la às vezes. É uma guerreira. Mesmo em coma, continua resistindo. Meu coração apertou ainda mais. Seguimos pelo corredor. Então ela parou diante de uma porta. — É aqui. Por alguns segundos, minhas pernas simplesmente não responderam. Nunca tive medo de entrar em um tiroteio. Nunca temi encarar outro chefe da máfia. Mas abrir aquela porta... Aquilo me assustava. Respirei fundo. Empurrei a maçaneta. O quarto estava silencioso. Os aparelhos faziam um som contínuo. E, deitada na cama... Estava ela. Meu mundo parou. Os cabelos estavam um pouco maiores. O rosto era mais pálido. Havia uma pequena cicatriz perto da testa. Mas eu reconheceria aquela mulher em qualquer lugar do mundo. — Lupita... Minha voz saiu quase como um sussurro. Senti minhas pernas perderem a força. Aproximei-me da cama lentamente. Minhas mãos tremiam. Eu não tremia. Nunca. Mas naquele momento... Eu m*l conseguia respirar. Toquei delicadamente sua mão. Estava fria. Fechei os olhos por um instante. — Eu te procurei... — murmurei. — Durante nove anos eu procurei você. Minha garganta queimava. — Onde você estava esse tempo todo? Nenhuma resposta. Apenas o som dos aparelhos. Passei o polegar sobre sua mão. — Se você podia me ouvir esse tempo todo... me perdoa. A porta do quarto se abriu. Uma senhora simples entrou carregando uma sacola com frutas. Quando me viu ao lado da cama, parou imediatamente. — Quem é o senhor? Olhei para ela. — Eu conheço a Lupita. A mulher arregalou os olhos. — Então... o senhor é a primeira pessoa que aparece dizendo conhecer essa menina em quatro anos. Meu coração disparou. — A senhora sabe quem atirou nela? Ela abaixou a cabeça. — Não. — E o filho dela? A senhora sorriu com carinho. — É um menino lindo. Inteligente, educado... vive perguntando quando a mamãe vai acordar. Fechei os olhos por um segundo. Meu peito pareceu rasgar. Se aquele menino fosse meu... Ele passou oito anos esperando pela mãe. E nove anos sem saber que tinha um pai procurando desesperadamente pela mulher que amava. Apertei a mão de Lupita com cuidado. — Eu vou voltar. Aproximei meu rosto do dela. — E vou tirar você daqui. Eu prometo. Soltei sua mão devagar e saí do quarto. Lorenzo e meus homens me esperavam do lado de fora. Sem dizer uma palavra, entreguei o papel com o endereço. — Vamos. Lorenzo leu rapidamente. Seu semblante mudou. — Chefe... esse endereço fica dentro de uma facção. Olhei para ele sem demonstrar qualquer emoção. — Que se dane a facção. Fechei o sobretudo. — Se alguém resolver ficar no meu caminho... vai se arrepender. Entramos nos carros. Durante todo o percurso, uma única pergunta martelava minha cabeça. E se aquele menino fosse meu? Quando chegamos ao morro, dezenas de homens armados ocupavam as vielas. Fuzis. Pistolas. Olhares desconfiados. Desci do carro calmamente. Uma das mãos permaneceu no bolso do sobretudo. Os cabelos pretos caíam até a altura das orelhas. As tatuagens no pescoço e nas mãos ficavam parcialmente aparentes. Meu olhar percorreu cada homem armado. O silêncio tomou conta da rua. Até que um deles arregalou os olhos. — Caralho... Outro virou rapidamente. — É o chefe da máfia italiana... Em questão de segundos, os homens abriram caminho. Ninguém levantou uma arma. Ninguém teve coragem de me enfrentar. Subi a viela em silêncio, seguido por Lorenzo e alguns dos meus homens. Os demais permaneceram atentos mais abaixo. Parei diante de uma casa simples. Bati na porta. Segundos depois, uma voz infantil respondeu do outro lado. — Já vou! Meu coração disparou. A porta se abriu. Um garotinho apareceu sorrindo. — Oi, senhor. Em que posso ajudar? Naquele instante... O mundo parou. Meus olhos marejaram. O menino... Era a minha imagem. Os mesmos cabelos pretos e lisos. Os mesmos olhos escuros. O mesmo formato do rosto. Mas o sorriso... O sorriso era exatamente o de Lupita. Atrás de mim, ouvi Lorenzo prender a respiração. — Chefe... Outro homem completou, quase num sussurro: — Essa criança é igualzinha ao senhor. Engoli em seco. Demorei alguns segundos para conseguir falar. — A senhora que cuida de você... está em casa? — Está sim. O menino sorriu e deu passagem. — Vovó! Uma senhora apareceu logo em seguida, secando as mãos em um pano de prato. — Pois não...? Ela parou ao me ver. Ficou alguns segundos em silêncio. Respirei fundo. — Eu sou alguém que ama muito a Lupita. Minha voz falhou pela primeira vez em muitos anos. — Eu procurei por ela durante nove anos. Os olhos da senhora se encheram de lágrimas. Olhei novamente para o garoto. Depois para ela. — Quem é o pai dessa criança? Ela abaixou a cabeça lentamente. — Ela nunca me contou, senhor. Fechei os punhos. — Nunca? Ela balançou a cabeça. — Antes de desaparecer, a Lupita deixou apenas uma caixinha de madeira, trancada com um cadeado. Ela pediu que eu entregasse ao menino quando ele aprendesse a ler. Meu coração acelerou. — Tem certeza? — Tenho. Olhei para o garoto. A senhora sorriu para ele. — Meu querido, vai buscar a caixinha no seu quarto, por favor. — Claro, vovó. Ele saiu correndo pelo corredor. Assim que desapareceu, a senhora voltou a me olhar. — Entrem, por favor. Entramos na pequena sala. Lorenzo e mais dois homens permaneceram ao meu lado, enquanto os outros ficaram do lado de fora da casa. O ambiente era simples, mas extremamente limpo. Sobre um móvel havia várias fotografias. Em todas elas, o menino aparecia sorrindo. E, em algumas... Lupita estava deitada na cama do hospital, sendo fotografada ao lado dele, ainda inconsciente. A senhora percebeu meu olhar. — Eu levava o menino para visitá-la todos os meses. Ele sempre dizia que a mãe precisava ouvir a voz dele para encontrar o caminho de volta. Fechei os olhos por um instante. Aquela criança nunca deixou de acreditar que a mãe acordaria. Naquele momento, ouvi os passinhos dele voltando pelo corredor. Ele apareceu segurando uma pequena caixa de madeira escura, com um cadeado antigo. Abraçou a caixa contra o peito e sorriu. — Achei, vovó. Meus olhos ficaram presos naquela caixa. Eu tinha a estranha sensação de que, ali dentro... Estavam as respostas que procurei durante nove anos.
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