capítulo 1
Meu nome é Vander Leban.
Chefe da máfia italiana.
Poucas pessoas conhecem o meu rosto. A maioria só conhece o meu nome... e isso basta para fazer homens armados tremerem.
Cruel.
Carrasco.
Implacável.
Sem piedade.
Era assim que o mundo me definia. E, durante muitos anos, eu fiz questão de alimentar essa reputação.
Aos trinta e três anos, construí um império. Poder, dinheiro, respeito e medo. Eu tinha tudo o que um homem poderia desejar.
Ou pelo menos era isso que eu acreditava.
Até conhecê-la.
Foi durante uma reunião entre as famílias mafiosas.
Ela entrou discretamente, como se não tivesse ideia da beleza que carregava. Cabelos impecáveis, olhar firme e um sorriso capaz de desmontar qualquer homem.
Lupita Alvarez.
Naquele instante, o tempo pareceu parar.
Passei a reunião inteira fingindo prestar atenção nos negócios, mas meus olhos insistiam em voltar para ela.
Naquela noite, nossos caminhos finalmente se cruzaram.
Conversamos.
Rimos.
E tivemos uma única noite juntos.
Uma única noite...
Mas foi suficiente para mudar algo dentro de mim que eu julgava morto havia muitos anos.
Pela primeira vez, não enxerguei uma mulher apenas como companhia.
Eu a enxerguei como futuro.
No dia seguinte, ela desapareceu.
Sem uma ligação.
Sem uma mensagem.
Sem deixar qualquer rastro.
Eu procurei em todos os lugares.
Paguei investigadores.
Movimentei homens em vários países.
Revirei cidades inteiras.
Nada.
Lupita Alvarez parecia nunca ter existido.
Nove anos se passaram.
Nove anos procurando a única mulher que conseguiu atravessar a muralha que eu construí ao redor do meu coração.
Nove anos sem encontrar uma única pista concreta.
Até que, certa noite, enquanto eu estava na companhia de uma mulher que costumava chamar apenas para aliviar a solidão, ela comentou um assunto que fez meu mundo parar.
— Você sabia que, perto de onde eu moro, uma moça foi baleada há quatro anos? Ela tá em coma até hoje. Coitada... E o pior é que ela tinha um filhinho pequeno. O menino acabou sendo criado por algumas pessoas do bairro, porque a mãe nunca mais acordou.
Meu coração apertou de um jeito estranho.
Uma sensação que eu não soube explicar tomou conta de mim.
Lupita?
Será...
Será que aquela mulher podia ser ela?
Mas, se fosse...
Ela tinha um filho?
Meu filho?
Por que ela nunca me procurou?
Ela descobriu a gravidez e resolveu desaparecer?
Tentou me encontrar e não conseguiu?
Ou alguém fez isso com ela?
Quanto mais eu pensava, mais perguntas apareciam.
Naquela noite, eu tomei uma decisão.
Eu não descansaria enquanto não descobrisse quem era a mulher naquele leito de hospital.
Porque, se existisse a menor possibilidade de ela ser Lupita Alvarez...
Eu iria encontrá-la.
Nem que precisasse virar o mundo de cabeça para baixo mais uma vez.
Na manhã seguinte, eu já estava no meu escritório.
Nem consegui dormir.
Aquela história não saía da minha cabeça.
Era impossível.
Nove anos sem nenhuma pista...
E, de repente, uma mulher me dizia que existia alguém em coma havia quatro anos, baleada, com um filho pequeno.
Eu precisava descobrir.
— Entra.
A porta se abriu.
Lorenzo, meu braço direito, entrou em silêncio.
— O senhor mandou me chamar?
Empurrei uma pasta para o lado e encarei meu homem de confiança.
— Quero que descubra tudo sobre uma mulher.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Nome?
— Não sei.
— Idade?
— Não sei.
— Hospital?
— Também não sei.
Ele respirou fundo.
— Então o que eu sei?
Levantei da cadeira e caminhei até a janela.
— Há quatro anos, uma mulher foi baleada perto da comunidade onde mora uma garota chamada Bianca. Ela entrou em coma e nunca mais acordou. Ela tinha um filho pequeno, que está sendo criado por moradores do bairro.
Lorenzo permaneceu em silêncio.
— Quero nome, hospital, prontuário, quem paga as despesas médicas, quem visita essa mulher... Quero tudo.
— Entendido.
Virei para ele.
— E mais uma coisa...
— Sim, chefe.
— Faça isso sem chamar atenção. Se alguém estiver escondendo essa mulher, eu não quero que descubram que estamos investigando.
— Pode deixar.
Ele saiu imediatamente.
Voltei a olhar pela janela.
Eu nunca fui um homem de acreditar em destino.
Mas aquela coincidência...
Era grande demais.
Passei os dias seguintes trabalhando como sempre.
Reuniões.
Negociações.
Cobranças.
Ordens.
Homens entravam e saíam da minha sala o tempo inteiro.
Por fora, eu continuava sendo o mesmo Vander Leban que todos temiam.
Por dentro...
Minha cabeça estava presa em uma única mulher.
Lupita.
Toda vez que fechava os olhos, lembrava do sorriso dela.
Da forma como ela me olhava.
Da última noite que passamos juntos.
E da promessa silenciosa que fiz a mim mesmo quando ela desapareceu.
Eu nunca desistiria de encontrá-la.
Três dias depois, Lorenzo voltou.
Bastou olhar para o rosto dele para perceber que havia descoberto alguma coisa.
— Fala.
Ele colocou uma pasta sobre minha mesa.
— Encontramos a mulher.
Meu coração acelerou.
— Ela realmente está em coma há quatro anos.
Olhei fixamente para ele.
— Continua.
— Foi baleada durante um confronto entre criminosos. A bala atingiu a cabeça. Desde então, nunca recuperou a consciência.
Senti meu estômago se fechar.
— E o menino?
— Está vivo. Hoje tem oito anos. É criado por uma senhora do bairro e por alguns vizinhos que se revezam para cuidar dele.
Passei a mão no rosto.
— Nome da mulher?
Lorenzo abaixou os olhos para a pasta.
— Ainda não conseguimos confirmar. Os registros são extremamente confusos. Parece que ela deu entrada no hospital sem documentos.
Meu peito apertou.
Sem documentos.
Era exatamente o tipo de detalhe que fazia minhas esperanças crescerem.
— Quero ir até lá.
Lorenzo me encarou.
— Pessoalmente?
— Hoje.
Se aquela mulher fosse mesmo Lupita...
Depois de nove anos...
Eu finalmente pisaria diante dela outra vez.