O silêncio me fez pensar que o cara ríspido do outro lado me deixou só. Novamente respirei fundo, achando-me deprimente.
— Não queria passar o resto da noite sozinha. — opinou. — Entendo.
— Por que veio?
— Meu irmão me acha deprimente e solitário.
Seria loucura dizer que estava gostando da conversa de ódio que estávamos tendo? Até parecíamos a mesma pessoa com situações diferentes e outro sexo.
— Não somos solitários. É uma opção. É como dizem: melhor sozinho do que m*l acompanhado.
Por um minuto pensei no que estava acontecendo. Não imaginei que viria aqui, nem que estaria sentada naquela poltrona i****a, conversando com um estranho. E não estava sendo r**m. Algo inesperado.
— Por que roubaram a sua ideia? — questionou a voz do homem que ainda não me disse seu nome. — A propósito, sou Joseph. É estranho conversar com alguém que não sei como se chama.
— Samantha. — Dei um sorriso quase envergonhado. — Bem... Isso acontece com mais frequência do que eu gostaria. A verdade é que sou a única naquela empresa que tem o nível de eficiência elevado. Por isso me contrataram.
— Não faz sentido você ser a melhor e ser roubada dessa forma.
Uma pergunta que eu me fazia sempre era: “Por que eu tenho que passar por isso, e eles não?”
— A única coisa que sei é que ser mulher em uma empresa majoritariamente constituída por homens é difícil. — lamentei.
— Não pensa em sair de lá e procurar outro lugar?
— Tenho algumas opções, porém teria que sair de Nova York. E não é o que quero neste momento. Mas, e você? O que faz da vida?
Sua resposta não veio rapidamente. Não achei que estivesse sendo intrometida, já que tinha falado bastante sobre o meu dilema.
— Administro empresas. Um trabalho cansativo.
— Então, é um dos homens que se sentam na mais alta cadeira, assim como aqueles que me ferram todos os dias? — perguntei em um tom de graça.
— Não sou esse tipo de pessoa, apesar de estar em uma boa situação. — defendeu-se. — Na verdade, trabalho para diminuir essa questão onde administro. O que acontece dentro das empresas hoje em dia é o reflexo da criação e dos valores ensinados a esses homens. Se desvalorizam o trabalho de uma mulher só por ser mulher, não são líderes que merecem reconhecimento.
Seu comentário me trouxe uma alegria digna de colocar um sorriso no meu rosto. O que, novamente, impressionou-me.
— Fico feliz, Joseph. — comentei ainda sorrindo. — Você me surpreende. Acreditei que odiaria conversar com alguém neste lugar.
Apesar de eu não o conhecer e não desejar nada com ele, não achava que diria isso para agradar alguém que não tinha interesse algum em flertar.
— Posso dizer o mesmo, mas ainda continuo com o meu pensamento anterior: não vim aqui atrás da falsa esperança de um relacionamento.
— Posso dizer o mesmo. — concordei. — Seria louco imaginar que pessoas que não podem se ver ou se tocar, podem despertar interesse umas nas outras, porém acho válida a experiência. O problema, para mim, é como levar isso para fora destas salas.
— O problema, para mim, é como saber se devemos confiar no que o outro diz, se m*l posso vê-lo. — disse duramente. — Lá fora conhecemos pessoas, convivemos com elas e confiamos nelas, até o momento em que nos traem, nos deixando com questionamentos. Devemos mesmo confiar em todos? E como saber se podemos confiar? O que essa experiência me traz não é a oportunidade de conhecer alguém compatível comigo, e sim a seguinte dúvida: se não posso confiar nem nos meus amigos mais íntimos, como posso depositar tal responsabilidade em quem nunca vi na vida?
Senti, em sua voz e em suas palavras, que sua amargura vinha de decepções anteriores. Eu mesma sabia como era esse conflito.
— Pessoas são decepcionantes, Joseph. Não importa se você as conhece ou se acabou de conhecê-las. Em algum momento elas vão mostrar uma atitude que você nunca imaginou que teriam. Afinal, se aquele alguém que você achou que te amava, pode te abandonar, como pensar que quem nem te conhece ou te ama não fará o mesmo?
De novo, o silêncio tomou conta da sala escura. Era algo irritante notar a nossa semelhança até nas dúvidas. Ele era um desconhecido que, mesmo não me vendo, parecia se sentir como eu.
— É impressão minha ou nós dois fomos postos neste lugar para testarmos os nossos limites emocionais?
Rimos. O efeito sonoro foi baixo, no entanto nítido aos nossos ouvidos.
Eu queria odiar nossa conversa só para chegar em casa e dizer à Hoper o quanto a odiei, contudo, em menos de meia hora, já me senti compreendida.
— Quando falaram que encontraríamos compatibilidade, não estavam mentindo. — afirmei.
— Mas não muda o fato de continuarmos odiando isso.
— Não mesmo!
— Então... Também passou por desilusões amorosas? É uma tola pergunta, já que parece que sim.
Geralmente, eu não conversava com as pessoas. No trabalho, falava sobre projetos e ideias, e com a Hoper lidava com algumas questões emocionais e do dia a dia. Todavia, até mesmo ela não sabia de tudo pelo que eu tinha passado.
Ouvir a pergunta dele me levou àquela situação de dúvida que sempre encontrava quando conhecia uma pessoa. Dessa vez, eu estava sendo questionada sobre a raiz do problema.
— O que posso dizer é que nunca estive em um relacionamento, mas que já fui derrubada no fundo do poço sempre que eu achava que teria algo: uma família. — lamentei, lembrando-me de todas as vezes em que entrava pela porta de uma casa bonita, repleta de desejos e sonhos. O que me eram tirados em menos de um mês.
— Não tem uma família?
A agonia em meu peito crescia a todo momento, alertando-me sobre os maus pensamentos que sempre me deixavam para baixo. Eu tinha que fugir desse caminho, ou libertaria a menina chorosa que costumava trancar no quarto mais escuro do meu peito.
— Não, não tenho. E gostaria de passar essa rodada de perguntas. — comuniquei nervosa.
— Ok. Me desculpe. — Com o silêncio de novo entre nós, minha cabeça i****a voltou ao passado, recordando-me de coisas que eu não queria lembrar. — Então, o que faz no seu tempo livre? — Sua pergunta me fez retornar à realidade, porém me deixou confusa.
— Quer saber mais sobre mim? — questionei surpresa.
— Bem... Estamos aqui. Falar sobre o passado não vai nos trazer bons pensamentos, e ir embora só nos prenderá a esses momentos. Então, achei uma boa ideia nos distrairmos com perguntas monótonas que eu faria se realmente quisesse conhecer uma mulher em um encontro.
— Nunca estive em um encontro. — falei meu pensamento em voz alta, com um pouco de preocupação.
— Sério? — A incredulidade em seu tom de voz me divertiu. — Você, realmente, não sai com pessoas para beber em algum bar, nem para noites casuais?
— Meus encontros casuais não são encontros. — Deixei claro. — Na verdade, as vezes em que fiquei com alguém foram em festas universitárias, e eram acontecimentos tão banais, que eu me esquecia deles no outro dia.
— É seu modo de proteção contra babacas?
— Posso dizer que é a minha forma de burlar a vida, que nunca foi legal comigo.
— Faço isso não indo a encontros e sendo um cara legal.
— No início, você estava sendo ríspido e arrogante, mas até que é um cara legal.
— Não gosto de ser grosso com as pessoas. Sinceramente, eu não era o homem que sou hoje. Mas, como você disse, a vida também não foi boa comigo e me tornei o que mais detesto.
A variação de humor na nossa conversa estava se tornando um gráfico triste e confuso.
— No meu tempo livre, gosto de assistir a alguma comédia, já que minha vida não é a mais alegre, e também de irritar a minha colega de quarto, que está sempre me apontando os meus defeitos emocionais. Ainda, em alguns dias, vou a um orfanato que sempre frequento, animar e ensinar as crianças a tocarem piano.
— É um apego emocional do seu passado?
Eu me lembrei dos dias em que ia àquele lugar. Apesar de isso fazer eu me recordar dos momentos ruins, ver as crianças brincando e sorrindo me alegrava.
— Nunca fui adotada ou escolhida. Sei como é se sentir sozinha, mesmo no meio de tantas crianças.
— Gosta de crianças? — Pigarreia. — Quero dizer... Pretende ter filhos? — Com essa última pergunta, ele não pareceu o mesmo homem que fez a anterior.
— Gosto muito, porém não acho que terei um filho, já que não sei o que é ser mãe.
Mãe! Essa é uma palavra forte e vazia para mim.
Joseph, apesar de eu não o conhecer, não achava que fosse um homem odiável. Ele tinha seus motivos para ser tão arrogante e eu sabia bem como era tentar se proteger das pessoas. Era um tipo de medo especifico: medo de se apegar e depois perder algo ou ser traído.
Ele não precisou dizer em palavras pelo que passou, para que eu soubesse que foi traído por quem um dia amou. Eu não passei por algo assim, entretanto as decepções que tive, também me marcaram.
Conversamos por um bom tempo. Os temas viam e iam em meio ao nosso passado que, mesmo não citados, eram entendidos por ambos.
Quando olhei para o relógio já tinha se passado uma hora, e o que me surpreendeu foi não querer parar de conversar com ele. Era raro encontrar alguém que me entendesse tanto.
A despedida não foi um alívio, e eu não sabia por quê. Desejei voltar e conversar com ele em outro dia.