Capítulo 2

1419 Words
Depois da última aula, Laura e Bela me puxaram para o corredor, rindo como sempre, falando sobre séries, provas e pequenas fofocas da faculdade. Eu tentava acompanhar, respondendo com murmúrios e sorrisos leves, mas meu pensamento ainda estava parcialmente no carro, no trajeto da manhã. — Nina, você vai para casa agora? — perguntou Bela, ajeitando a mochila nas costas. — Vou para casa, sim. — respondi, simplificando. — Então vem lá em casa, precisamos terminar aquele trabalho de grupo. — disse Laura, empolgada. — Podemos dividir os capítulos e já adiantar umas coisas antes do prazo. Concordei com um aceno, sem perder tempo. Não porque estivesse ansiosa para passar tempo com elas, mas porque dividir o trabalho significava que poderia sentar e pelo menos ficar distraída de pensamentos indesejados. Caminhamos juntas até as casas de Bela e Laura, cada passo uma mistura de barulho da cidade e meus pensamentos vagando sem controle. Laura, como sempre, parecia radiante e falante. Bela, mais pragmática, falava sobre o trabalho, mas não conseguia deixar de rir das piadas de Laura. Eu permanecia silenciosa, absorvendo tudo, como se estivesse observando o mundo de fora. Quando finalmente entramos na sala da Bela, com o trabalho espalhado pelo chão e os cadernos abertos, Laura não conseguiu se conter. — E aí, Nina, você viu o motorista novo? — disse, com um sorriso maroto, sentando-se cruzando as pernas. Olhei para ela, confusa, sem saber exatamente a quem ela se referia. — Motorista novo? — perguntei, tentando soar indiferente. — Ah, não me diga que você ainda não percebeu! — Bela riu, apontando para mim. — O cara que te leva de carro! O Lucas! Meu corpo congelou por um instante. Eu não queria que meus pensamentos sobre ele fossem tão fáceis de notar, mas era inevitável. Laura continuou, sorrindo de forma travessa: — Gente, vocês não acham ele gato demais? Aquela postura, o jeito calmo… Não é só eu que reparei, né? Bela deu uma risadinha cúmplice, mexendo nos papéis do trabalho, mas sem conseguir esconder a própria curiosidade. Eu apenas arqueei uma sobrancelha e mantive o silêncio, fingindo que aquilo não me atingia. Mas por dentro, senti uma mistura de irritação e... algo que eu não queria nomear. Não era apenas o fato de ele ser atraente, mas a forma como minhas amigas tinham percebido algo que eu mesma ainda não queria admitir. — Bom, é só um motorista — murmurei, tentando me convencer de que não deveria me importar. Laura soltou um risinho de escárnio: — Só um motorista? Ah, por favor, Nina! A gente tá falando de um homem gato que dirige melhor que muito piloto de corrida que eu conheço! Bela riu, batendo palmas, e eu senti uma pontada de constrangimento. Não queria que eles soubessem que eu tinha reparado no sorriso dele, nos olhos atentos, no modo como segurava o volante. Não era justo admitir, mas eu não podia ignorar que havia algo ali que me chamava atenção. Sentei-me no chão, cruzando as pernas, tentando me concentrar nos papéis do trabalho. Mas minha mente continuava a traçar o rosto dele em detalhes: a mandíbula forte, os olhos escuros, o cabelo bem cortado. Aquilo me deixava inquieta, mas eu me recusava a admitir. Ele não significava nada além de um motorista. Nada além de alguém que me transportava de um ponto a outro. — Nina? — Laura me cutucou, chamando-me de volta à realidade. — Você tá aí? — Hm, tô. — respondi, com a voz mais baixa do que pretendia. — Vamos começar o trabalho. Enquanto organizávamos os papéis e discutíamos as tarefas, não pude evitar pensar no trajeto de volta para casa. Lucas estaria lá, provavelmente já esperando, calmo e silencioso, como sempre. *** O resto do dia na faculdade passou em uma mistura de aulas, anotações e intervalos curtos em que Laura e Bela tentavam me arrancar sorrisos e comentários. Eu respondia com breves acenos ou risadinhas contidas, mantendo a postura de sempre: presente fisicamente, mas emocionalmente distante. No último horário, fizemos uma pausa para o café da tarde. Sentadas no pequeno café da faculdade, Laura começou a falar sobre a ida ao shopping depois da aula. — Nina, vamos ao shopping, preciso comprar umas coisas para o trabalho de amanhã — disse ela animada. — E você precisa ver algumas roupas novas. — Hm… — murmurei, tomando um gole do meu café. — Pode ser. Bela me lançou um olhar cúmplice, como se dissesse “ela finalmente aceitou se divertir”. Eu tentei ignorar, mas por dentro me sentia mais leve. Não que eu quisesse admitir, mas sair da rotina de livros, provas e silêncio era algo que começava a me agradar. Quando a aula terminou, Laura, Bela e eu caminhamos até o estacionamento. E lá estava Lucas, encostado no carro, calmamente esperando. O sol da tarde iluminava o contorno do seu corpo enquanto ele conferia o retrovisor e ajustava o banco. Por um instante, minha respiração falhou. Eu não podia admitir, mas ele era… realmente atraente. Não de uma forma óbvia ou exagerada, apenas naturalmente. — Boa tarde, Nina. — disse ele, com aquele tom calmo que sempre me deixava inquieta. — Boa tarde. — respondi, evitando qualquer olhar direto. O trajeto até o shopping foi silencioso, como sempre. Ele dirigia com cuidado, mantendo o carro estável. Eu fiquei observando pelas janelas, mas de vez em quando meu olhar se desviava para ele. Tentava convencer-me de que não significava nada. Afinal, ele era apenas meu motorista. Nada mais. No shopping, Laura e Bela me arrastaram para lojas, conversando animadamente sobre roupas, acessórios e sapatos. Eu tentava prestar atenção, mas meu cérebro continuava voltando para o trajeto e para Lucas. Ele não era invasivo, nem insistente. Apenas existia. E era impossível ignorar o quanto ele era atraente — o tipo de pessoa que não precisava falar nada para chamar atenção. Quando finalmente saímos do shopping, já no final da tarde, estava exausta, mas de uma forma boa. Laura e Bela se despediram com abraços e promessas de nos encontrarmos novamente para continuar o trabalho. Entrei no carro e encontrei Lucas aguardando. — Vamos? — ele perguntou, como se fosse apenas uma formalidade. — Sim. — respondi, rapidamente, sem levantar os olhos para ele. O caminho de volta para casa foi tranquilo. Eu olhava para fora, observando as ruas da cidade se enchendo de luzes do fim de tarde, mas não podia deixar de notar Lucas. O jeito como ele dirigia, os olhos atentos, o sorriso discreto que aparecia quando achava seguro. Aquilo me incomodava. Eu não queria sentir nada, e ainda assim, havia algo nele que me chamava atenção. Ao chegar em casa, fomos recebidos por Dona Célia, nossa ama. Ela tinha uma presença doce e acolhedora, sempre garantindo que a casa estivesse impecável e que o jantar estivesse pronto na hora certa. — Boa tarde, Nina, Gabriel! — disse ela com seu sorriso caloroso. — Já deixei tudo pronto para o jantar. Só lavem as mãos e venham para a mesa. Gabriel, sempre barulhento e animado, correu para o banheiro, rindo de alguma coisa que só ele entendia. Eu respirei fundo, sentindo o cheiro da comida que Dona Célia preparava com cuidado e capricho. O aroma de arroz, feijão, legumes refogados e frango assado enchia a cozinha, tornando o ambiente acolhedor. Sentei-me à mesa, cruzando as mãos sobre o colo, e observei Gabriel começar a falar sobre a aula e as atividades do dia. Eu respondia com palavras curtas, concentrada na comida e no silêncio confortável que Dona Célia proporcionava. Ela sempre tinha aquele jeito de cuidar da gente sem interferir demais, permitindo que a casa fosse um espaço seguro e familiar. Enquanto comíamos, minha mente vagava novamente para o trajeto de Lucas, para o jeito como ele segurava o volante, os olhos atentos pelo retrovisor e a postura calma que parecia desafiar qualquer barreira que eu tentasse colocar entre nós. Não era amor, não ainda. Mas era algo. Algo que eu ainda não queria reconhecer. O jantar terminou, e Dona Célia recolheu os pratos com eficiência, sorrindo para nós. Gabriel foi estudar para a prova de amanhã, e eu subi para o meu quarto, sentindo a mistura de cansaço e inquietação. Deitei na cama, fechando os olhos por alguns minutos, mas o rosto de Lucas invadiu minha mente, não era um pensamento consciente, nem um desejo aberto, apenas uma percepção silenciosa: ele era atraente, interessante, e já estava começando a fazer parte da minha rotina.
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