O dia seguinte começou com o sol ainda tímido no céu. O despertador tocou e eu me levantei devagar, ainda sentindo o peso da rotina. Meu pai estava em viagem novamente, como sempre, e Gabriel ainda dormia profundamente. Respirei fundo, tentando espantar a sensação de solidão que insistia em me acompanhar todas as manhãs.
Desci até a garagem e encontrei Lucas, já ali, como sempre, com a postura calma e séria que me irritava e, ao mesmo tempo, me fazia prestar atenção. Ele levantou a mão para cumprimentar.
— Bom dia, Nina. — disse, sorrindo de forma discreta.
Fingi não ouvir. Mantive o olhar no carro, ajustando a mochila. Não era que eu quisesse ser grosseira; era que ainda não queria me envolver, ainda não queria dar espaço para qualquer sentimento que pudesse me distrair da minha rotina. Lucas apenas sorriu, como se tivesse esperado minha indiferença, e entrou no carro.
O trajeto começou silencioso, o motor quase sussurrando enquanto eu olhava pela janela. Mas não conseguia parar de notar detalhes: o jeito que ele segurava o volante, a firmeza nos braços, os olhos atentos pelo retrovisor. Algo dentro de mim reagia, uma sensação que eu não queria nomear. Não era interesse, não ainda. Era apenas… percepção. Reconhecimento de que ele era atraente e… perigoso para minha disciplina emocional.
Ao chegar à faculdade, Laura e Bela já estavam esperando. Como sempre, correram para me puxar para a conversa.
— Então, Nina! Como foi o trajeto hoje? — Laura perguntou, sorrindo.
— Normal. — respondi, curta.
— Normal? — Bela riu, cruzando os braços. — Nossa, você é impossível! Gente, aquele Lucas é muito gato. Não vai me dizer que você não reparou?
Eu apenas arqueei a sobrancelha e olhei para os lados, fingindo indiferença. Mas não pude deixar de perceber o quanto minhas amigas estavam certas. Ele era atraente, não havia como negar. Mas eu não iria admitir, nem para elas, nem para mim mesma.
As aulas passaram devagar, com minhas amigas tentando me puxar para conversas, risadas e pequenas distrações. Eu respondia, mas permanecia fechada, concentrada em manter meu controle. Mesmo assim, por dentro, cada pequeno detalhe do trajeto da manhã ainda pairava na minha mente: a serenidade de Lucas, o sorriso discreto, o modo como ele parecia sempre atento a tudo.
Quando o último horário acabou, Laura sugeriu irmos ao shopping para terminar algumas compras. Eu aceitei com um murmúrio, mais por hábito do que por vontade real de socializar. Ao sairmos para o estacionamento, lá estava Lucas, parado ao lado do carro, o corpo relaxado, mas firme.
— Vamos? — ele perguntou, e eu apenas assenti.
O caminho até o shopping foi silencioso. Eu ficava olhando para fora, mas de vez em quando meus olhos se desviavam para ele. Ele não falava, não precisava falar. Havia algo no jeito que ele dirigia, no cuidado com o carro, que me deixava inquieta e, ao mesmo tempo, estranhamente confortável. Era irritante. Eu não queria sentir nada, mas não podia ignorar o efeito silencioso que ele causava.
No shopping, Laura e Bela correram para as lojas, conversando e rindo, enquanto eu tentava me concentrar nas roupas e objetos ao redor. Mas minha mente continuava voltando para Lucas, para a presença dele no carro, para o modo como ele parecia… perfeito sem esforço. Não era amor, ainda não. Era apenas a percepção silenciosa de algo que estava começando a me puxar para fora da minha bolha de isolamento.
Após algumas horas, voltamos para casa, e Lucas nos trouxe de volta sem falar muito, apenas dirigindo calmamente. Ao chegar, Dona Célia já havia preparado o jantar. Gabriel me recebeu com abraços e perguntas sobre a tarde, enquanto eu me sentava à mesa, tentando organizar meus pensamentos.
O jantar passou em uma mistura de risadas leves de Gabriel, pequenas conversas com Dona Célia e meus pensamentos voltando para Lucas. Ele não estava presente fisicamente, mas sua imagem invadia minha mente de forma insistente: o jeito como dirigia, os olhos atentos, a calma. Uma parte de mim já começava a perceber que não seria fácil ignorá-lo por muito tempo.
***
O jantar terminou com Gabriel reclamando de que o arroz estava um pouco salgado, e Dona Célia rindo das observações do meu irmão, mesmo enquanto recolhia os pratos com eficiência e cuidado. Eu apenas observei, sentindo o conforto da casa, o aroma de comida caseira e a segurança que aquele ambiente sempre me proporcionava. Mesmo com a ausência do meu pai, que viajava constantemente, havia algo reconfortante naquele cotidiano que permanecia previsível.
Depois de lavar as mãos e me sentar na sala, Gabriel começou a falar sobre o que aprendera na escola, sobre os amigos e as tarefas que precisava terminar. Ele falava rápido, entusiasmado, e eu respondia com breves acenos ou murmúrios, ouvindo mais do que participando. Havia um certo prazer silencioso em apenas observá-lo: o jeito como ele gesticulava, a forma como se empolgava com detalhes que para mim pareciam triviais. Era uma das poucas vezes em que me permitia sentir algo genuíno, sem barreiras, sem medo de parecer vulnerável.
Enquanto Gabriel terminava de contar uma história sobre um amigo que havia se metido em confusão na escola, minha mente divagava para o trajeto de volta do shopping. Lucas estava ali, silencioso, mas presente. Cada detalhe dele parecia gravado na minha memória: a postura reta, a firmeza nos braços, os olhos atentos, o modo como ajustava o volante com naturalidade. Eu não queria pensar nele, não queria permitir que qualquer sensação se formasse, mas era impossível ignorar. Havia algo nele que me chamava atenção, de forma silenciosa e insistente.
— Nina, você está aí? — Gabriel perguntou, interrompendo meus pensamentos.
— Hm, tô. — murmurei, sem olhar diretamente para ele.
Ele franziu a testa, percebendo meu silêncio, mas apenas deu de ombros e voltou a se concentrar em seu caderno de exercícios. Eu suspirei, sentindo o peso da rotina que ainda precisava encarar: trabalhos da faculdade, provas, compromissos e a sensação constante de que algo estava mudando em mim, embora eu ainda não pudesse definir o quê.
Mais tarde, depois que Gabriel foi estudar, eu me sentei no sofá, envolta pelo silêncio da casa. Dona Célia estava na cozinha, provavelmente organizando a louça ou preparando algo para amanhã. Eu deixei minha mente vagar, observando o teto, as paredes, o relógio. Cada tique-taque parecia lembrar que o tempo estava passando e que a presença de Lucas no meu dia, mesmo que silenciosa e controlada, estava começando a se tornar significativa.
Não era amor, não ainda. Era apenas a percepção de algo diferente, algo que mexia com minhas certezas e minha necessidade de controle. Ele era atraente, sim, mas não era só isso. Era o modo como existia, como se encaixava na minha rotina sem esforço, sem exigir atenção, mas ainda assim tornando-se impossível de ignorar. E isso me incomodava.
No dia seguinte, a rotina recomeçou. O despertador tocou cedo, e mais uma vez me levantei sozinha. Gabriel ainda dormia, e meu pai continuava em viagem. Desci até a garagem, e lá estava Lucas, encostado no carro, como sempre. A visão dele era… perturbadoramente tranquila, e eu tentei, mais uma vez, manter meu rosto sério.
— Bom dia, Nina. — Ele disse, com aquele sorriso discreto que parecia atravessar qualquer barreira.
— Bom dia. — respondi, breve, evitando contato visual.
O trajeto de carro foi silencioso, como sempre. Mas dessa vez, eu notei pequenos detalhes que antes passavam despercebidos: a forma como ele respirava calmamente, o leve movimento do ombro ao ajustar o banco, a atenção aos detalhes da estrada. Cada gesto, aparentemente simples, parecia carregar um tipo de elegância que eu não estava acostumada a observar. E, por mais que tentasse me convencer de que era irrelevante, meu cérebro não deixava de registrar cada detalhe.
Ao chegar à faculdade, minhas amigas já me esperavam, animadas como sempre. Laura correu até mim, puxando minha mochila, e começou a conversar sobre o trabalho, enquanto Bela comentava sobre a roupa que queria comprar no final de semana. Eu respondia de forma curta, ainda imersa nos pensamentos sobre o trajeto e Lucas.
— E aí, Nina? — disse Laura, inclinando-se para mais perto. — Então, o motorista novo, hein? Você não acha ele… bom, gostoso?
Olhei para ela, surpresa, e respirei fundo. Não queria admitir nada, mas sabia que não podia negar. Lucas era atraente, sim, mas eu não estava pronta para permitir que qualquer sentimento surgisse.
— Hm… — murmurei, desviando o olhar para os papéis do trabalho. — Ele é só o motorista.
Bela riu baixinho, cruzando os braços. — Só o motorista, é? Ah, por favor! Ele tem presença, Nina! Aquele jeito calmo, o sorriso discreto… Não me diga que você não reparou.
Eu arqueei uma sobrancelha, tentando manter meu controle. Não queria que elas percebessem qualquer tipo de distração da minha parte. E, no fundo, não queria admitir para mim mesma que cada trajeto no carro estava se tornando… diferente.
O dia passou com aulas, intervalos curtos e conversas discretas com colegas. Cada vez que eu saía para o estacionamento, lá estava Lucas, silencioso, firme, sempre atento. Eu tentava ignorar, mas era impossível não reparar no modo como ele se movia, como mantinha o controle do carro e da situação. Ele não precisava falar nada para se tornar inesquecível.
À tarde, Laura e Bela sugeriram uma nova ida ao shopping. Eu relutante, aceitei, mais por hábito do que por vontade. Caminhamos juntas pelas lojas, observando roupas, acessórios e objetos diversos, enquanto eu tentava manter a atenção no que era supérfluo. Mas, inevitavelmente, meus pensamentos voltavam para o trajeto de volta, para o silêncio de Lucas, para a presença dele que parecia tão calma e firme, mas ao mesmo tempo tão inquietante para mim.
Quando finalmente retornamos para casa, a rotina se repetiu: Lucas nos trouxe, Dona Célia já havia preparado o jantar, Gabriel reclamava de pequenas coisas com humor, e eu me sentava em silêncio, absorvendo o conforto da casa. Mas mesmo ali, na segurança do meu lar, não conseguia afastar os pensamentos sobre Lucas. Não era amor, não ainda. Era apenas percepção, curiosidade, e uma sensação incômoda que não podia ignorar: ele estava entrando na minha rotina, silenciosamente, sem esforço, e eu ainda não sabia como reagir a isso.
Enquanto subia para o meu quarto, após o jantar, percebi que estava exausta, mas de uma forma diferente. O cansaço não vinha apenas do dia cheio, das aulas ou do trabalho. Era o peso de tentar manter meu controle, de resistir a algo que eu ainda não queria admitir. Fechei os olhos na cama, respirando fundo, tentando afastar a imagem dele. Mas Lucas, com sua presença calma e irresistível, já havia se tornado uma parte inevitável da minha rotina.
E, mesmo que eu não quisesse admitir, sabia que a estrada que me levava até ele, todos os dias, estava apenas começando.