Capítulo 4

1085 Words
A casa estava estranhamente silenciosa naquela tarde. Não era um silêncio desconfortável, mas um daqueles que parecem se estender pelas paredes como uma camada fina de poeira. Gabriel estava no quarto jogando videogame, e Dona Célia organizava alguma coisa na cozinha, provavelmente preparando o jantar. Eu estava sentada no sofá da sala com um dos livros da faculdade aberto no colo, mas não estava realmente lendo. Meus olhos passavam pelas páginas sem absorver nada. Minha mente estava dispersa, vagando por pensamentos soltos. Era sexta-feira. O que significava duas coisas importantes. Primeiro: não haveria aulas no dia seguinte. Segundo: meu pai deveria voltar hoje de viagem. Ele sempre avisava quando voltaria, mas nunca com muita precisão. Às vezes chegava de manhã, às vezes à noite, e às vezes simplesmente mandava uma mensagem dizendo que precisava ficar mais alguns dias. Eu já estava acostumada com isso. Ainda assim, havia sempre uma pequena expectativa quando ele dizia que voltaria. Não porque eu precisasse de algo específico. Mas porque, apesar de tudo, ele ainda era meu pai. E quando estava em casa… as coisas pareciam um pouco mais completas. Fechei o livro e deixei-o sobre a mesa de centro. Meu olhar se perdeu na janela da sala, observando o céu começando a ganhar tons mais escuros do final da tarde. Foi então que ouvi o barulho da porta sendo destrancada. Levantei a cabeça imediatamente. — Cheguei! — a voz grave e familiar ecoou pela casa. Gabriel apareceu no corredor como um foguete. — PAI! Ele praticamente se jogou nos braços de Eduardo Mendes Carvalho, que m*l havia entrado direito pela porta. Meu pai riu, segurando Gabriel com força. — Ei, garoto! Você cresceu uns três centímetros desde a última vez que te vi ou é impressão minha? — Não é impressão! — Gabriel respondeu orgulhoso. Fiquei observando os dois por alguns segundos antes de me levantar. Meu pai me viu e abriu um sorriso mais suave. — Nina. Caminhei até ele, e ele me puxou para um abraço apertado. Por mais que eu tivesse aprendido a viver com sua ausência constante, aquele abraço ainda tinha um efeito estranho em mim. Era familiar. Seguro. Quase como se, por um momento, tudo estivesse exatamente onde deveria estar. — Como foi a viagem? — perguntei quando nos afastamos. — Longa. Cansativa. Cheia de reuniões chatas — ele respondeu, tirando o paletó. Então levantou uma das sobrancelhas, com um pequeno sorriso. — Mas eu trouxe coisas para vocês. Gabriel soltou um grito de felicidade. — EU SABIA! Meu pai entrou na sala com duas malas e uma bolsa menor. Dona Célia apareceu na porta da cozinha. — Senhor Eduardo! Que bom que voltou. — Dona Célia! Essa casa ainda está de pé graças à senhora. Ela riu, enxugando as mãos no avental. — O jantar está quase pronto. — Perfeito. Meu pai então abriu a bolsa menor sobre a mesa. — Primeiro, os presentes. Gabriel praticamente pulou ao lado dele. — Esse é para você — disse meu pai, entregando uma caixa. Gabriel rasgou o embrulho em segundos. — UM HEADSET NOVO?! Ele parecia prestes a ter um ataque de felicidade. — Para jogar com seus amigos sem incomodar a casa inteira — disse meu pai. — PAI, VOCÊ É O MELHOR! Meu pai riu. Então pegou outra caixa. — E esse é para você, Nina. Peguei o embrulho com curiosidade. Não era muito grande. Abri com mais calma que Gabriel. Dentro havia um livro de capa dura, elegante. — Primeira edição — disse meu pai. — Achei numa livraria em Lisboa. Passei os dedos pela capa. Ele sabia que eu gostava de livros. Sempre sabia. — Obrigada, pai. Ele sorriu. — Sabia que você ia gostar. Gabriel ainda estava admirando o headset quando meu pai bateu palmas de leve. — Certo. — Agora temos um problema. — Que problema? — perguntou Gabriel. — Estou morrendo de fome. — O jantar está quase pronto — disse Dona Célia da cozinha. — Então perfeito. — Porque hoje vamos fazer algo que não fazemos há muito tempo. Gabriel e eu olhamos para ele. — O quê? Meu pai abriu um sorriso. — Noite de cinema. Gabriel arregalou os olhos. — SÉRIO?! — Muito sério. Ele pegou o controle da televisão. — Vocês escolhem o filme. — Eu faço a pipoca. — E ninguém mexe em celular. Gabriel levantou os braços como se tivesse vencido na loteria. — MELHOR DIA DA VIDA! Eu não consegui evitar um pequeno sorriso. Momentos assim eram raros. Mas quando aconteciam… pareciam importantes. Como pequenas pausas na correria da vida. Dona Célia trouxe o jantar pouco depois: arroz, carne grelhada, legumes e salada. Comemos juntos à mesa. Meu pai fez perguntas sobre a faculdade. — Como estão as aulas? — Normais. — Algum professor difícil? — Vários. Gabriel contou histórias da escola. Meu pai ouviu tudo com atenção genuína. Era curioso como ele conseguia estar tão ausente e, ao mesmo tempo, quando voltava, agir como se nada tivesse mudado. Depois do jantar, Gabriel praticamente arrastou meu pai para a sala. — CINEMA! Meu pai pegou um cobertor do sofá. — Certo. — Agora vamos ver… Ele começou a navegar pelos filmes. — Nada de filme triste — disse Gabriel. — Concordo — falei. — Então comédia? — Ou aventura — sugeriu Gabriel. Depois de alguns minutos, escolhemos um filme. Gabriel se jogou no sofá. Meu pai sentou no meio. Eu me acomodei ao lado. Dona Célia trouxe uma tigela enorme de pipoca. — Aproveitem. — Obrigado, Dona Célia — disse meu pai. As luzes foram apagadas. O filme começou. E por um tempo… Era só nós três. Rindo de cenas bobas. Comentando partes absurdas. Gabriel jogando pipoca no ar e tentando pegar com a boca. Meu pai reclamando que ele ia sujar o sofá. Eu assistindo tudo aquilo com uma sensação estranha no peito. Porque momentos assim eram simples. Mas também raros. E talvez por isso parecessem tão especiais. No meio do filme, meu pai comentou casualmente: — Aliás… — Acho que amanhã vou conhecer o tal motorista de vocês. Meu corpo ficou imóvel por um segundo. — Lucas, não é? Olhei para a televisão, tentando parecer indiferente. — É. Gabriel falou antes que eu pudesse. — Ele é legal. Meu pai assentiu. — Bom saber. Eu não disse nada. Mas algo dentro de mim ficou inquieto. Porque de repente… A ideia de Lucas e meu pai no mesmo espaço parecia estranhamente importante. E eu ainda não sabia explicar o porquê.
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