A manhã começou diferente.
Não foi o despertador. Não foi o silêncio da casa. Nem sequer foi o peso habitual de acordar para mais um dia igual aos outros.
Foi a presença do meu pai.
Havia algo em saber que ele estava em casa que mudava o ambiente. Não completamente, porque anos de ausência não desaparecem em um dia, mas o suficiente para tornar tudo... menos vazio.
Levantei-me mais cedo do que o habitual. Quando desci as escadas, já o encontrei na cozinha, de camisa social, mexendo no telemóvel enquanto tomava café.
— Bom dia — disse ele, sem levantar muito os olhos.
— Bom dia.
Dona Célia já havia preparado tudo: pão, frutas, café quente. Gabriel apareceu logo depois, ainda sonolento, arrastando os pés.
— Pai, hoje você não vai viajar, né?
— Não hoje — respondeu ele, finalmente guardando o telemóvel. — Vou ficar por aqui.
Gabriel sorriu como se tivesse ganhado algo importante.
Eu apenas sentei e comecei a comer em silêncio.
Mas por dentro… algo me incomodava.
Porque hoje, inevitavelmente, meu pai conheceria Lucas.
E eu não sabia exatamente por que isso me deixava inquieta.
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Desci até a garagem com meu pai ao meu lado.
E lá estava ele.
Lucas.
Encostado no carro, como sempre. Mas naquele momento, tudo parecia diferente. Talvez fosse a presença do meu pai. Talvez fosse o olhar mais atento dele. Ou talvez fosse apenas… eu.
— Bom dia — disse Lucas, com respeito.
— Bom dia — respondeu meu pai, analisando-o com um olhar rápido, mas calculado.
Eu fiquei em silêncio, observando discretamente a troca.
— Você é o Lucas? — perguntou meu pai.
— Sim, senhor.
— Eduardo Mendes.
Eles apertaram as mãos.
Firme.
Direto.
Mas havia algo ali. Algo sutil. Um tipo de avaliação silenciosa que homens fazem entre si.
— Cuida bem da minha filha? — perguntou meu pai, num tom leve… mas não totalmente leve.
Lucas não hesitou.
— Sempre.
Simples. Direto. Sem esforço.
Meu pai assentiu, satisfeito.
— Ótimo.
Entrei no carro sem dizer nada.
Mas meu coração… estava estranho.
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O trajeto até a faculdade foi mais silencioso que o normal.
Ou talvez fosse apenas a minha percepção.
Eu não olhei muito para o retrovisor, mas senti. Senti o olhar dele ali, atento como sempre. Senti a presença dele de uma forma mais… forte.
E isso me irritou.
Porque nada tinha mudado.
Ele continuava sendo só o motorista.
E eu precisava continuar sendo só a passageira.
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Na faculdade, Laura e Bela estavam ainda mais agitadas do que o normal.
— E aí?! — Laura praticamente pulou em cima de mim. — Seu pai voltou!
— Voltou.
— E ele conheceu o Lucas? — Bela perguntou, curiosa.
Eu respirei fundo.
— Conheceu.
As duas trocaram um olhar rápido.
— E aí? — Laura insistiu. — O que ele achou?
— Nada demais.
— Nina — Bela cruzou os braços. — Você é péssima mentindo.
Revirei os olhos.
— Ele só… aprovou.
Laura sorriu de lado.
— Claro que aprovou. O homem é praticamente perfeito.
— Laura — murmurei, seca.
Mas ela não parou.
— Sério, Nina, você precisa parar de fingir que não vê.
— Ver o quê?
— Que ele é gato.
Silêncio.
Eu sabia que não podia negar aquilo para sempre.
Mas também não ia dar o gosto de confirmar.
— Ele é… normal.
As duas começaram a rir.
— Normal?! — Laura quase engasgou. — Nina, você precisa de óculos novos.
— Eu já uso — respondi, fria.
Bela riu.
— Então troca de lente, porque você tá vendo errado.
Ignorei.
Mas por dentro…
Eu sabia.
Sabia exatamente o que elas estavam dizendo.
E isso me incomodava mais do que deveria.
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O resto do dia passou arrastado.
Não por causa das aulas.
Mas porque minha mente não colaborava.
Cada vez que eu pensava no trajeto de volta… sentia uma leve tensão no peito.
E isso era ridículo.
Era só um carro.
Só um motorista.
Só mais um dia.
Então por que parecia diferente?
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Quando finalmente saí da faculdade, lá estava ele.
Como sempre.
Encostado no carro.
Mas dessa vez… eu reparei mais.
No jeito como ele se posicionava. Relaxado, mas firme.
Na forma como a luz do fim de tarde batia no rosto dele.
No olhar.
Sempre atento.
Sempre calmo.
Irritantemente calmo.
— Boa tarde, Nina — disse ele.
— Boa tarde.
Entrei no carro.
E, por um segundo… nossos olhares se cruzaram pelo retrovisor.
Rápido.
Mas suficiente.
Algo ali não era mais completamente neutro.
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O carro começou a andar.
E o silêncio veio logo depois.
Mas não era o mesmo silêncio de antes.
Era mais… denso.
— Seu pai parece gente boa — disse Lucas, depois de alguns minutos.
Eu hesitei.
— Ele é.
— Ele se preocupa com você.
Olhei pela janela.
— Do jeito dele.
Lucas não respondeu de imediato.
— Às vezes esse “jeito” é o melhor que a pessoa consegue dar.
Aquilo me pegou desprevenida.
Franzi levemente a testa.
— Você tá defendendo ele?
— Não.
Pausa.
— Só estou dizendo que nem todo mundo sabe demonstrar.
Fiquei em silêncio.
Porque, de alguma forma… aquilo fazia sentido.
E eu não gostava quando fazia sentido.
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O resto do trajeto passou sem conversa.
Mas minha mente não parava.
Porque aquela pequena troca…
Não parecia mais uma conversa qualquer.
Parecia… pessoal.
E isso era perigoso.
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Quando cheguei em casa, meu pai estava na sala, ao telefone.
Gabriel fazia o dever de casa.
Dona Célia terminava o jantar.
Tudo normal.
Mas eu não estava.
Subi direto para o meu quarto.
Fechei a porta.
E me encostei nela por alguns segundos.
Respirei fundo.
O que estava acontecendo comigo?
Nada.
Absolutamente nada.
Eu só estava cansada.
Era só isso.
Mas quando me deitei na cama, a magem dele veio de novo, o olhar pelo retrovisor.
A voz calma.
A forma como falava sem esforço.
E aquilo… começou a me irritar de verdade.
Porque eu não queria pensar nele.
Mas estava pensando.
E isso significava que, de alguma forma…
Eu estava começando a perder o controle.
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Desci para o jantar mais tarde.
Meu pai estava mais descontraído, Gabriel falava sem parar, Dona Célia servia a comida com o cuidado de sempre.
— Nina — disse meu pai. — Amanhã vamos almoçar fora.
— Onde?
— Surpresa.
Gabriel comemorou.
Eu apenas assenti, mas, no fundo minha cabeça estava em outro lugar.
Naquela noite, deitada na cama, olhando para o teto, percebi algo que não consegui ignorar:
Lucas já não era apenas parte da minha rotina.
Ele estava começando a entrar nos meus pensamentos.
E isso, era exatamente o tipo de coisa que eu sempre evitei.