CAPÍTULO 1
HELENA NARRANDO
O som da chave girando na fechadura era o sinal para o meu coração disparar. Para qualquer outra mulher, poderia ser o som do marido chegando em casa; para mim, era o som da minha contagem regressiva.
Terminei de colocar os pratos na mesa com as mãos trêmulas. Antes de me virar, puxei a gola alta do vestido, garantindo que a marca roxa no meu pescoço, a "lembrança" da última terça-feira, estivesse bem escondida. O cheiro do tempero que ele gostava preenchia a cozinha, mas, para mim, aquele aroma tinha cheiro de medo e sufocamento.
— Papai! — O grito alegre de Maya quebrou o silêncio pesado da casa.
Eu a vi correr pelo corredor, os cachinhos balançando. Victor, o homem que mantinha o morro sob seu punho de ferro e a mim sob sua vigilância constante, abriu um sorriso. Era um sorriso que nunca alcançava os olhos quando ele me olhava, mas que brilhava com uma ternura quase real para a nossa filha.
Ele a pegou no colo, girando-a no ar. Por um segundo, se alguém olhasse pela fresta da janela, veria a imagem de uma família perfeita. Meu estômago revirou.
— Trouxe o que eu pedi, papai? — Maya perguntou, os olhinhos brilhando de expectativa.
— Claro, minha princesa. Tudo o que você quiser — ele respondeu com aquela voz mansa, tirando uma boneca nova da mochila.
Ele beijou a testa dela e a colocou no chão. Foi então que o seu olhar se voltou para mim. A luz de pai carinhoso apagou-se instantaneamente, substituída por uma frieza que parecia drenar todo o oxigênio da sala.
— O jantar está pronto — eu disse, minha voz m*l passando de um sussurro. Eu não conseguia encarar os olhos dele. Sabia que qualquer brilho de desafio ali seria o fim da minha paz.
Victor sentou-se no lugar de sempre. Ele ficou observando o prato por longos segundos. O silêncio era uma tortura física; eu podia ouvir o tic-tac do relógio na parede batendo junto com a minha têmpora.
— Está sem sal — ele disse, calmamente, sem sequer encostar no garfo.
— Eu...eu segui a receita que você me pediu, Victor. Tentei deixar exatamente como...
O estrondo do prato sendo empurrado contra a parede me fez saltar. Estilhaços de cerâmica e comida voaram pelo chão. Maya deu um pulo, o sorriso sumindo do rosto, mas Victor foi rápido. Ele colocou a mão sobre a cabeça dela, o toque suave contrastando com a violência do gesto anterior.
— Vá para o seu quarto brincar com a boneca nova, Maya. O papai precisa conversar com a mamãe sobre as regras desta casa — ele disse, com uma calma que me dava mais náuseas do que qualquer grito.
Olhei para a minha filha, implorando em pensamento para que ela saísse dali logo. Maya, já treinada por esses momentos que ele chamava de "conversas", obedeceu em silêncio, arrastando a boneca nova pelo chão.
Assim que a porta do quarto dela bateu, a mão de Victor fechou-se no meu braço. Ele me puxou para perto com uma força bruta, o cheiro de uísque e poder emanando dele.
— Quantas vezes eu tenho que te ensinar, Helena? — ele sibilou contra o meu ouvido.—Eu te dou tudo. Esta casa, segurança, o melhor para a nossa filha. E você não consegue nem acertar a porcaria de um jantar?
— Me desculpa, Victor... por favor, não foi por m*l.
— Desculpas não mudam o fato de que você é inútil sem mim — ele apertou meu braço até eu sentir que o osso poderia ceder. — Você não duraria um dia lá fora. Quem te protegeria? Quem cuidaria da Maya se você fosse embora? Ninguém. Você morreria na sarjeta em menos de uma hora.
Ele me soltou com um empurrão. Enquanto eu caía de joelhos para limpar os restos do jantar quebrado, ouvi o choro baixo da Maya vindo do quarto ao lado. Aquilo me atingiu mais do que qualquer golpe.
Victor subiu para o quarto com a arrogância de quem é dono do mundo. Eu fiquei ali, no chão frio, recolhendo os cacos da minha vida junto com os da porcelana. Olhei para a mochila de escola da Maya pendurada perto da porta.
Ele estava certo: eu poderia morrer na sarjeta. Mas se ficássemos ali, morreríamos lentamente, um pedaço de alma por dia. Eu não sabia o que me esperava fora desse morro, além das histórias de guerra que ele contava para me assustar. Mas pela primeira vez em anos, o medo do desconhecido parecia muito mais doce do que a certeza daquela cela de luxo.
Eu não estava apenas limpando o chão. A cada dia, planejava o nosso último rastro.
CONTINUA...