VICTOR / VK NARRANDO
Saí do quarto da Maya com o peito estufado, a sensação de dever cumprido. Ver aquela pequena sorrindo com a boneca nova que eu trouxe lá do asfalto era o único bagulho que conseguia acalmar meus nervos depois de um dia de guerra na gestão do morro. A paz ali dentro era cara.
A Helena tava lá, terminando de limpar a cozinha. Linda, mas inútil. Sinto um ódio que se mistura com uma fome dela que não passa, não importa quantas vezes eu a coloque debaixo de mim. Entrei no nosso quarto e não precisei falar nada. A ordem aqui em casa é curta; eu não sou homem de repetir palavra e ela tá careca de saber disso. Não deu dois minutos, ela entrou.
Ver aquele vestido escorregando pelo corpo dela ainda me acerta como um soco no estômago, igualzinho há cinco anos atrás. A Helena sempre foi meu troféu, a joia da coroa que eu conquistei na base do cano e do sangue. Joguei ela na cama e tomei o que era meu por direito.
Ela ficou lá, do jeito de sempre: estática, fria que nem um cadáver. Não gemeu, não abraçou, não devolveu a p***a do beijo.
— Sempre tão caladinha — murmurei no ouvido dela, sentindo o aperto que me deixa maluco. — Mas é minha. Toda minha.
Gozei sentindo o peso do mundo saindo das minhas costas. Saí de dentro dela, puxei o corpo dela pra junto do meu e fiquei ali, quase apagando com o peso dela no meu peito. Mas o suor incomodava.
— Vem. Pro banho — ordenei, puxando ela pelo braço sem muita paciência.
Debaixo da água quente, eu mesmo fiz o serviço. Passei a esponja pelo corpo dela, lavei as costas, as pernas, os seios... como se tivesse dando manutenção numa arma valiosa. E a Helena? Nem um pio. A água batia no rosto dela e a garota nem piscava.
Aquela mudez me sobe o sangue. Dá vontade de sacudir ela até que ela grite, que me xingue, que faça qualquer coisa que não seja esse teatro de boneca de pano. Mas me contive. Sequei ela, levei pra cama e deitamos. Como em toda noite nesses últimos anos, ela virou de costas assim que sentiu o lençol. Fiquei ali, só vigiando o contorno dos ombros dela no escuro.
Eu sei que ela me odeia. Sei que aquele fogo de quando era novinha virou cinza faz tempo. Mas ela nunca vai sair daqui. De onde ela ia tirar coragem pra me enfrentar?
Ela é minha desde que botei os olhos naquela garota de saia rodada subindo a ladeira do morro. Eu decidi ali que ela ia ser a fiel do dono. Mas ela fazia jogo duro, e a mãe dela — aquela velha desgraçada — ficava botando pilha, inflamando a cabeça da menina contra mim.
Até que minha paciência estourou.
Subi a ladeira doidão de pó e de ódio. Chutei a porta e resolvi o problema do meu jeito. O sangue da velha no chão foi o preço que eu paguei pra ter a Helena só pra mim. Trouxe ela pelos cabelos, debaixo de choro e grito. No começo, ela apanhou. Apanhou muito pra aprender quem manda, pra entender que o meu não é absoluto e o meu sim é a única lei que existe aqui dentro.
Um mês depois, ela engravidou. p***a, eu fiquei feliz pra c*****o. Achei que o filho ia amolecer aquele coração de gelo, que ela ia entender o meu lado. Eu queria um herdeiro, um moleque pra segurar o fuzil quando eu cansasse dessa vida, mas veio a Maya. Eu amo aquela garotinha mais que tudo, trato como uma rainha, mas ainda falta o meu menino.
Eu tento. Toda noite eu tento plantar a semente nela. Já levei a Helena nos melhores médicos do asfalto, paguei fortuna em consulta particular. O doutor diz que ela tá perfeita, que tá tudo certo.
Então qual é a farsa?
Por que o ventre dela fechou pra mim?
Eu não entendo essa trava, mas não sou homem de desistir. Se precisar f***r ela dez vezes por dia, eu vou f***r. Uma hora esse menino vem.
Apertei o corpo dela contra o meu, sentindo o cheiro do shampoo. Ela pode não gostar de mim, pode ficar nesse silêncio que me mata, mas uma coisa é certa: A Helena nasceu pra ser minha e vai morrer sendo minha. Ninguém tira o que eu conquistei na guerra.
Fechei os olhos sentindo o calor dela. Ela sabe. Eu sou dono de tudo. Inclusive da alma que ela tenta esconder de mim.