Erick
Eu sempre soube controlar tudo.
Números. Pessoas. Riscos.
Sentimentos… principalmente sentimentos.
Eles eram variáveis perigosas. Imprevisíveis. Fracos.
Eu aprendi cedo a não depender deles.
Mas naquela noite, sentado no banco traseiro do carro enquanto subíamos novamente a Rocinha, eu percebi uma coisa que me incomodou mais do que qualquer ameaça, qualquer explosão, qualquer aviso anônimo:
Eu não estava no controle.
— Fala de novo — pedi, a voz baixa.
Marcelo olhou para o celular na mão, como se quisesse ter certeza antes de repetir.
— Nosso contato viu ela com o Kido.
Meu maxilar travou.
— Onde?
— No campo.
Claro.
Território dele.
Território inimigo.
— Sozinhos?
Marcelo hesitou por um segundo.
— Os homens dele estavam por perto… mas os dois conversaram a sós.
Senti algo apertar no peito.
Não era medo.
Não era preocupação.
Era outra coisa.
Mais crua.
Mais feia.
— Quanto tempo?
— Uns vinte minutos.
Vinte minutos.
Tempo suficiente para muita coisa.
Tempo suficiente para a confiança ser construída.
Tempo suficiente para as alianças serem feitas.
Tempo suficiente para…
Pare.
Fechei os olhos por um segundo.
Mas não adiantou.
Porque a imagem já estava formada na minha cabeça.
Ariane.
Em pé diante dele.
O homem que agora comandava a Rocinha.
O homem que podia oferecer a ela algo que eu nunca conseguiria.
Pertencimento.
Raiz.
História.
— Erick — disse Marcelo com cuidado — a gente ainda não sabe o conteúdo da conversa.
Abri os olhos devagar.
— Não precisa.
Ele franziu a testa.
— Como assim?
— Eu sei exatamente o tipo de jogo que ele faz.
Marcelo não respondeu.
E talvez ele estivesse certo em não responder.
Porque a verdade é que… eu não sabia.
Não completamente.
E isso me irritava ainda mais.
O carro parou em um ponto mais baixo do morro, onde continuar com veículo chamaria atenção demais.
Descemos.
O ar estava pesado, quente, carregado com o mesmo silêncio estranho da noite anterior.
Mas dessa vez… eu não estava apenas alerta.
Eu estava tenso.
Cada músculo do meu corpo parecia pronto para reagir a qualquer coisa.
Subimos à primeira viela.
Depois outra.
Os olhares começaram.
Sempre os olhares.
Mas dessa vez havia algo diferente neles.
Curiosidade.
E algo mais.
Como se soubessem algo que eu ainda não sabia.
— Isso está estranho — murmurou Marcelo.
Eu não respondi.
Porque minha cabeça estava em outro lugar.
Em uma única pergunta que não parava de se repetir:
O que ele disse para ela?
Viramos uma esquina.
E então eu vi.
Ariane estava descendo a escadaria, sozinha.
Passos firmes.
Olhar distante.
Como se estivesse perdida nos próprios pensamentos.
Por um segundo, apenas observei.
E foi nesse segundo que algo dentro de mim se partiu.
Porque havia algo diferente nela.
Algo que eu não reconhecia.
Como se aquela conversa tivesse mexido com alguma coisa profunda.
— Ariane — chamei.
Ela parou.
Levantou os olhos.
E quando me viu…
Houve surpresa.
Mas também… cautela.
Aquilo me atingiu direto.
— Erick?
Subi os últimos degraus até ficar na frente dela.
— Onde você estava?
A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia.
Ela franziu a testa imediatamente.
— Oi pra você também.
Ignorei.
— Você estava com ele.
O silêncio caiu entre nós.
Pesado.
— Quem te disse isso? — perguntou ela.
— Não importa.
— Importa sim.
— Eu sei que você estava com o Kido.
Ela cruzou os braços.
Defensiva.
— E daí?
E daí.
Aquelas duas palavras foram o suficiente.
— E daí? — repeti, incrédulo.
— Qual é o problema?
O problema.
Eu dei uma pequena risada sem humor.
— Você está perguntando, é sério?
— Estou.
— Você foi falar com o homem que está ameaçando tudo o que a gente está construindo!
— Eu fui falar com alguém que faz parte da minha realidade.
A resposta veio rápida.
Firme.
E aquilo me irritou ainda mais.
— E eu não faço?
— Você está tentando fazer.
A frase me atingiu.
— Tentando?
— Você não nasceu aqui, Erick.
— E isso invalida tudo?
— Não.
Ela respirou fundo.
— Mas muda muita coisa.
Meu peito estava apertado.
— O que ele te disse?
Ela hesitou.
E foi nesse pequeno segundo de silêncio…
Que o ciúme deixou de ser algo abstrato.
E virou algo real.
— Nada que te interesse.
Pronto.
Ali.
Foi ali que eu perdi o controle.
— Nada que me interesse?
Minha voz saiu mais alta.
Algumas pessoas começaram a olhar.
Mas eu não me importei.
— Você está envolvida em uma guerra e acha que o que ele fala não me interessa?
— Não quando você chega assim.
— Assim como?
— Como se tivesse direito de cobrar alguma coisa!
As palavras dela cortaram.
— Eu tenho direito sim!
— Não tem!
O silêncio caiu de novo.
Mais pesado.
Mais perigoso.
— Não tenho? — perguntei, mais baixo agora.
Ela me olhou.
Direto.
— Não.
Aquilo doeu mais do que qualquer ameaça que eu já tinha recebido.
— Eu estou arriscando tudo por você.
— Eu não pedi isso.
— Não pediu?
Dei um passo mais perto.
— Então o que você quer, Ariane?
Ela não respondeu imediatamente.
E quando respondeu…
Foi pior.
— Eu quero poder escolher.
A frase ficou entre nós.
Simples.
Mas devastadora.
— Escolher o quê? — perguntei.
Ela sustentou meu olhar.
— Meu caminho.
— E ele faz parte disso?
Silêncio.
A resposta estava naquele silêncio.
E eu odiei aquilo.
— Ele está usando você.
— Você também pode estar.
A resposta veio rápida.
E certeira.
— Eu não estou.
— Todo mundo está, Erick!
— Eu não!
Minha voz ecoou pela viela.
Ela se aproximou.
Olhos queimando.
— Então por que isso te incomoda tanto?
Eu não respondi.
Porque a verdade era feia demais para sair em voz alta.
Mas ela viu.
Nos meus olhos.
— Você está com ciúmes.
A palavra caiu como uma sentença.
Eu ri.
— Isso é ridículo.
— Não é.
— Eu não fico com ciúmes.
— Todo mundo fica.
— Eu não sou todo mundo!
O silêncio voltou.
Mas agora havia algo diferente nele.
Uma tensão mais íntima.
Mais perigosa.
Ela deu um passo mais perto.
Tão perto que eu podia sentir a respiração dela.
— Ele disse que sempre foi apaixonado por mim.
O mundo parou.
Literalmente.
Por um segundo inteiro, eu não consegui reagir.
— O quê?
— Desde criança.
A imagem que eu tinha tentado evitar agora era real.
Sólida.
Viva.
— E você? — perguntei.
Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
Ela hesitou.
E aquele segundo de hesitação foi suficiente para destruir qualquer ilusão de controle que eu ainda tinha.
— Eu não sei — disse ela.
Pronto.
Acabou.
Algo dentro de mim quebrou de vez.
— Claro que não sabe.
Ela franziu a testa.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que você está considerando.
— Eu estou pensando.
— Sobre ele.
— Sobre tudo!
Mas eu já não estava ouvindo direito.
Porque naquele momento…
Não era mais lógica.
Não era mais estratégia.
Era emoção.
Crua.
Incontrolável.
— Eu não vou perder você pra esse cara.
As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.
E no instante em que saíram…
Eu soube que tinha passado do limite.
O rosto dela mudou.
— Perder?
A voz dela ficou fria.
— Eu não sou algo que você possui, Erick.
Silêncio.
Pesado.
Irreversível.
Eu passei a mão pelo rosto, tentando recuperar o controle.
Mas já era tarde.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi sim.
Ela deu um passo para trás.
— E é exatamente isso que eu não vou permitir.
Aquelas palavras doeram.
Porque, pela primeira vez…
Eu percebi que o maior risco naquela guerra não era Kido.
Nem Zeca.
Era eu mesmo.
E a forma como eu estava começando a agir.
Ela me olhou por mais um segundo.
E então disse, mais baixo:
— Se você quer ficar do meu lado…
O coração bateu forte.
— Então aprende a não tentar me controlar.
E virou as costas.
Descendo a viela.
Sem olhar para trás.
Eu fiquei ali.
Parado.
Sentindo algo que eu não sentia há muito tempo.
Não era raiva.
Não era medo.
Era algo pior.
A sensação de que, pela primeira vez…
Eu podia perder algo que realmente importava.