Capítulo 30 : Ciúmes

1386 Words
Erick Eu sempre soube controlar tudo. Números. Pessoas. Riscos. Sentimentos… principalmente sentimentos. Eles eram variáveis perigosas. Imprevisíveis. Fracos. Eu aprendi cedo a não depender deles. Mas naquela noite, sentado no banco traseiro do carro enquanto subíamos novamente a Rocinha, eu percebi uma coisa que me incomodou mais do que qualquer ameaça, qualquer explosão, qualquer aviso anônimo: Eu não estava no controle. — Fala de novo — pedi, a voz baixa. Marcelo olhou para o celular na mão, como se quisesse ter certeza antes de repetir. — Nosso contato viu ela com o Kido. Meu maxilar travou. — Onde? — No campo. Claro. Território dele. Território inimigo. — Sozinhos? Marcelo hesitou por um segundo. — Os homens dele estavam por perto… mas os dois conversaram a sós. Senti algo apertar no peito. Não era medo. Não era preocupação. Era outra coisa. Mais crua. Mais feia. — Quanto tempo? — Uns vinte minutos. Vinte minutos. Tempo suficiente para muita coisa. Tempo suficiente para a confiança ser construída. Tempo suficiente para as alianças serem feitas. Tempo suficiente para… Pare. Fechei os olhos por um segundo. Mas não adiantou. Porque a imagem já estava formada na minha cabeça. Ariane. Em pé diante dele. O homem que agora comandava a Rocinha. O homem que podia oferecer a ela algo que eu nunca conseguiria. Pertencimento. Raiz. História. — Erick — disse Marcelo com cuidado — a gente ainda não sabe o conteúdo da conversa. Abri os olhos devagar. — Não precisa. Ele franziu a testa. — Como assim? — Eu sei exatamente o tipo de jogo que ele faz. Marcelo não respondeu. E talvez ele estivesse certo em não responder. Porque a verdade é que… eu não sabia. Não completamente. E isso me irritava ainda mais. O carro parou em um ponto mais baixo do morro, onde continuar com veículo chamaria atenção demais. Descemos. O ar estava pesado, quente, carregado com o mesmo silêncio estranho da noite anterior. Mas dessa vez… eu não estava apenas alerta. Eu estava tenso. Cada músculo do meu corpo parecia pronto para reagir a qualquer coisa. Subimos à primeira viela. Depois outra. Os olhares começaram. Sempre os olhares. Mas dessa vez havia algo diferente neles. Curiosidade. E algo mais. Como se soubessem algo que eu ainda não sabia. — Isso está estranho — murmurou Marcelo. Eu não respondi. Porque minha cabeça estava em outro lugar. Em uma única pergunta que não parava de se repetir: O que ele disse para ela? Viramos uma esquina. E então eu vi. Ariane estava descendo a escadaria, sozinha. Passos firmes. Olhar distante. Como se estivesse perdida nos próprios pensamentos. Por um segundo, apenas observei. E foi nesse segundo que algo dentro de mim se partiu. Porque havia algo diferente nela. Algo que eu não reconhecia. Como se aquela conversa tivesse mexido com alguma coisa profunda. — Ariane — chamei. Ela parou. Levantou os olhos. E quando me viu… Houve surpresa. Mas também… cautela. Aquilo me atingiu direto. — Erick? Subi os últimos degraus até ficar na frente dela. — Onde você estava? A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia. Ela franziu a testa imediatamente. — Oi pra você também. Ignorei. — Você estava com ele. O silêncio caiu entre nós. Pesado. — Quem te disse isso? — perguntou ela. — Não importa. — Importa sim. — Eu sei que você estava com o Kido. Ela cruzou os braços. Defensiva. — E daí? E daí. Aquelas duas palavras foram o suficiente. — E daí? — repeti, incrédulo. — Qual é o problema? O problema. Eu dei uma pequena risada sem humor. — Você está perguntando, é sério? — Estou. — Você foi falar com o homem que está ameaçando tudo o que a gente está construindo! — Eu fui falar com alguém que faz parte da minha realidade. A resposta veio rápida. Firme. E aquilo me irritou ainda mais. — E eu não faço? — Você está tentando fazer. A frase me atingiu. — Tentando? — Você não nasceu aqui, Erick. — E isso invalida tudo? — Não. Ela respirou fundo. — Mas muda muita coisa. Meu peito estava apertado. — O que ele te disse? Ela hesitou. E foi nesse pequeno segundo de silêncio… Que o ciúme deixou de ser algo abstrato. E virou algo real. — Nada que te interesse. Pronto. Ali. Foi ali que eu perdi o controle. — Nada que me interesse? Minha voz saiu mais alta. Algumas pessoas começaram a olhar. Mas eu não me importei. — Você está envolvida em uma guerra e acha que o que ele fala não me interessa? — Não quando você chega assim. — Assim como? — Como se tivesse direito de cobrar alguma coisa! As palavras dela cortaram. — Eu tenho direito sim! — Não tem! O silêncio caiu de novo. Mais pesado. Mais perigoso. — Não tenho? — perguntei, mais baixo agora. Ela me olhou. Direto. — Não. Aquilo doeu mais do que qualquer ameaça que eu já tinha recebido. — Eu estou arriscando tudo por você. — Eu não pedi isso. — Não pediu? Dei um passo mais perto. — Então o que você quer, Ariane? Ela não respondeu imediatamente. E quando respondeu… Foi pior. — Eu quero poder escolher. A frase ficou entre nós. Simples. Mas devastadora. — Escolher o quê? — perguntei. Ela sustentou meu olhar. — Meu caminho. — E ele faz parte disso? Silêncio. A resposta estava naquele silêncio. E eu odiei aquilo. — Ele está usando você. — Você também pode estar. A resposta veio rápida. E certeira. — Eu não estou. — Todo mundo está, Erick! — Eu não! Minha voz ecoou pela viela. Ela se aproximou. Olhos queimando. — Então por que isso te incomoda tanto? Eu não respondi. Porque a verdade era feia demais para sair em voz alta. Mas ela viu. Nos meus olhos. — Você está com ciúmes. A palavra caiu como uma sentença. Eu ri. — Isso é ridículo. — Não é. — Eu não fico com ciúmes. — Todo mundo fica. — Eu não sou todo mundo! O silêncio voltou. Mas agora havia algo diferente nele. Uma tensão mais íntima. Mais perigosa. Ela deu um passo mais perto. Tão perto que eu podia sentir a respiração dela. — Ele disse que sempre foi apaixonado por mim. O mundo parou. Literalmente. Por um segundo inteiro, eu não consegui reagir. — O quê? — Desde criança. A imagem que eu tinha tentado evitar agora era real. Sólida. Viva. — E você? — perguntei. Minha voz saiu mais baixa do que eu queria. Ela hesitou. E aquele segundo de hesitação foi suficiente para destruir qualquer ilusão de controle que eu ainda tinha. — Eu não sei — disse ela. Pronto. Acabou. Algo dentro de mim quebrou de vez. — Claro que não sabe. Ela franziu a testa. — O que isso quer dizer? — Quer dizer que você está considerando. — Eu estou pensando. — Sobre ele. — Sobre tudo! Mas eu já não estava ouvindo direito. Porque naquele momento… Não era mais lógica. Não era mais estratégia. Era emoção. Crua. Incontrolável. — Eu não vou perder você pra esse cara. As palavras saíram antes que eu pudesse impedir. E no instante em que saíram… Eu soube que tinha passado do limite. O rosto dela mudou. — Perder? A voz dela ficou fria. — Eu não sou algo que você possui, Erick. Silêncio. Pesado. Irreversível. Eu passei a mão pelo rosto, tentando recuperar o controle. Mas já era tarde. — Não foi isso que eu quis dizer. — Foi sim. Ela deu um passo para trás. — E é exatamente isso que eu não vou permitir. Aquelas palavras doeram. Porque, pela primeira vez… Eu percebi que o maior risco naquela guerra não era Kido. Nem Zeca. Era eu mesmo. E a forma como eu estava começando a agir. Ela me olhou por mais um segundo. E então disse, mais baixo: — Se você quer ficar do meu lado… O coração bateu forte. — Então aprende a não tentar me controlar. E virou as costas. Descendo a viela. Sem olhar para trás. Eu fiquei ali. Parado. Sentindo algo que eu não sentia há muito tempo. Não era raiva. Não era medo. Era algo pior. A sensação de que, pela primeira vez… Eu podia perder algo que realmente importava.
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