Capítulo 31 : Duas Guerras

1044 Words
Ariane Descer aquela viela foi mais difícil do que enfrentar qualquer homem armado. Cada passo parecia ecoar dentro de mim. Não pelo que estava ao redor. Mas pelo que eu estava deixando para trás. As palavras do Erick ainda estavam frescas, cortando, repetindo, se misturando com tudo que eu já estava carregando antes mesmo de encontrar ele. “Eu não vou perder você.” Perder. Como se eu fosse algo. Como se eu fosse… de alguém. Respirei fundo, tentando afastar a raiva. Mas ela não vinha sozinha. Veio junto com outra coisa. Cansaço. Um cansaço profundo, daqueles que não é físico. Que começa no peito e se espalha pelo corpo inteiro. Subi os últimos degraus até chegar na frente de casa. A porta estava entreaberta. Luz acesa. O som baixo de uma rádio antiga tocando alguma música distante. Por um segundo, tudo pareceu normal. Quase seguro. Mas eu já sabia que normal não existia mais. Empurrei a porta. O barraco me recebeu com o cheiro familiar de café requentado e madeira úmida. O mesmo espaço pequeno, as mesmas paredes que já ouviram cada verso meu nascer. Mas agora… até ali parecia diferente. Joguei a mochila no chão. Passei as mãos pelo rosto. E tentei respirar. Só que a minha cabeça não parava. Kido. Erick. Zeca. Os três nomes se chocando como se fossem tiros dentro de mim. — Bonito — murmurei para mim mesma. — Agora são três guerras. Caminhei até a pequena janela e afastei a cortina. O morro estava vivo lá fora. Luzes acesas. Vozes ecoando. Motos subindo. A vida acontecendo como sempre. Mas eu sabia. Eu sentia. Nada ali era igual. Porque agora eu estava no meio. E todo mundo sabia disso. Sentei no chão, encostando as costas na parede fria. Fechei os olhos. E deixei as memórias virem. Meu tio. Zeca. A forma como ele olhou para mim na quadra. A calma. A frieza. As palavras calculadas. “Eu te criei.” Meu peito apertou. Porque ele não estava completamente errado. Ele esteve lá. Nos dias difíceis. Nas faltas. Nas noites em que eu não sabia se teria comida no dia seguinte. Mas também esteve lá agora. Mentindo. Manipulando. Tentando me transformar em algo que eu nunca quis ser. — Você me criou… — murmurei. — Mas não me possui. Abri os olhos devagar. E a imagem de Kido tomou o lugar das lembranças. O jeito que ele me olhou. Como se eu fosse… importante. Não como símbolo. Não como investimento. Mas como alguém que sempre esteve ali. — Sempre foi apaixonado por você. Meu coração apertou de novo. Mas dessa vez foi diferente. Mais confuso. Mais perigoso. Porque Kido não falava como alguém que queria me vender. Ele falava como alguém que queria me manter. E aquilo… também assustava. Porque, no fundo, não era tão diferente. Controle vem de várias formas. Umas são óbvias. Outras… se escondem atrás de sentimento. Passei a mão no rosto. Tentando organizar tudo. Mas então… Erick voltou. A forma como ele me olhou. A tensão na voz. A raiva. E algo mais. Algo que eu nunca tinha visto nele antes. Insegurança. Aquilo me pegou desprevenida. Porque Erick sempre foi certeza. Sempre foi controlado. Sempre foi o homem que parecia saber exatamente o que fazer em qualquer situação. E, de repente… Ele não sabia. E isso fez ele tentar me segurar. “Eu não vou perder você.” Soltei um suspiro pesado. — Vocês são todos iguais… Mas a frase morreu antes de terminar. Porque não era verdade. Eles não eram iguais. E era isso que tornava tudo pior. Zeca queria poder. Kido queria território… e talvez algo mais. Erick… Fechei os olhos por um segundo. Erick queria me proteger. Mas também queria me manter perto. E a linha entre proteger e controlar… Era fina demais. Levantei devagar. Caminhei até o pequeno espelho pendurado na parede. Olhei para mim mesma. Cabelo bagunçado. Olhos cansados. Mas ainda havia algo ali. Algo firme. Algo que não tinha sido quebrado ainda. — E você? — sussurrei para meu reflexo. — O que você quer? O silêncio respondeu primeiro. Mas então a resposta veio. Clara. Direta. Eu queria minha voz. Queria meu espaço. Queria meu caminho. Sem dono. Sem contrato invisível. Sem dívida emocional. Sem alguém dizendo o que eu deveria ser. Ri baixo. — Simples, né? Mas nada ali era simples. Porque querer liberdade no morro… Tem preço. E eu estava começando a entender qual era o meu. Um barulho do lado de fora chamou minha atenção. Passos. Mais de um. Me aproximei da porta devagar. Abri só o suficiente para olhar. Dois homens passaram pela viela. Não eram conhecidos. Eram novos. E isso, no morro, sempre significa alguma coisa. Observei eles desaparecerem na curva. Meu estômago apertou. — Kido… Ele estava reforçando presença. Marcando território. Garantindo controle. E eu estava exatamente no meio disso. Fechei a porta. Tranquei. Encostei a testa na madeira por um segundo. Respirei fundo. E foi ali que a verdade finalmente se organizou dentro de mim. Não eram três homens. Eram três forças. O morro. A família. O dinheiro. E cada uma delas queria um pedaço de mim. Mas nenhuma estava perguntando o que eu queria em troca. Abri os olhos. Endireitei o corpo. E caminhei até o caderno jogado no chão. Peguei. Sentei novamente. A caneta parecia mais pesada na minha mão. Mas ainda era minha. Abri na última página. E comecei a escrever. As palavras vieram lentas no começo. Mas depois… Vieram com força. “Três mãos puxando meu braço na subida, Uma quer meu sangue, outra quer minha vida, A terceira promete um caminho dourado, Mas todas esquecem quem tá do outro lado.” Parei. Respirei. E continuei. “Não sou troféu, nem moeda, nem chão, Não sou promessa na mão de um patrão, Se a guerra me chama, eu viro trovão, Porque quem nasce no morro não pede permissão.” A caneta parou. Meu coração batia forte. Mas dessa vez… Não era medo. Era certeza. Levantei o olhar. E pela primeira vez naquela noite… Eu soube exatamente onde estava. No meio da guerra. Sim. Mas não como peça. Como escolha. E se todo mundo queria lutar por mim… Então ia ter que aprender uma coisa: Eu também sabia lutar.
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