Capítulo 32: O Lobo Cercado

1153 Words
Erick A primeira ligação veio antes das sete da manhã. Eu nem tinha dormido direito. A imagem da Ariane indo embora ainda estava presa na minha cabeça, repetindo como um erro que eu não conseguia corrigir. Cada palavra, cada reação… tudo fora do controle. E agora o mundo real cobrava o preço. O celular vibrou na mesa de cabeceira. Número do conselho. Ignorei. Ele tocou de novo. E de novo. Na quarta vez, atendi. — Fala. — Você enlouqueceu? — a voz do outro lado não perdeu tempo. Direto. Sem filtro. — Bom dia pra você também, Henrique. — Não tem bom dia, Erick. Sentei na cama, passando a mão pelo rosto. — O que aconteceu? Houve um silêncio curto. Aquele tipo de silêncio que vem antes de um impacto. — Saiu na imprensa. Meu estômago apertou. — O quê exatamente? — Fotos. Fechei os olhos. Claro. — Que fotos? — Você na Rocinha. Pronto. Ali estava. O início do problema. — Quem publicou? — Todo mundo. Levantei imediatamente. — Me manda. Desliguei antes que ele respondesse qualquer outra coisa. Peguei o celular. As notificações já estavam explodindo. Mensagens. Chamadas. Alertas. E-mails. Abri o primeiro link que apareceu. A manchete veio direto, sem dó: “BILIONÁRIO DA ARES CORP É VISTO EM ÁREA CONTROLADA POR FACÇÃO NO RIO.” Rolei a tela. Fotos minhas. Subindo a viela. Conversando com moradores. Entrando na comunidade. Saindo depois da explosão do carro. Aquilo não era só exposição. Era construção de narrativa. Outra matéria: “INVESTIDOR OU INTERMEDIADOR? PRESENÇA DE ERICK VASCONCELOS LEVANTA SUSPEITAS.” Outra: “O QUE UM EMPRESÁRIO DO LEBLON FAZ NO CORAÇÃO DA ROCINHA?” Soltei um riso baixo. Sem humor. — Eles não fazem ideia. Mas não importava. Porque a verdade nunca foi o que movia esse tipo de história. Era percepção. E a percepção agora era clara: Eu estava envolvido com o morro. E não de uma forma neutra. O celular tocou novamente. Marcelo. Atendi. — Já viu? — Já. — A situação não é boa. — Eu percebi. Levantei e caminhei até a janela. O Leblon estava acordando como sempre. Calmo. Bonito. Falso. — O conselho está em pânico — continuou Marcelo. — Deixa eles. — Erick… — Eu resolvo. — Não é só o conselho. — Então quem mais? Silêncio. — Investidores. Respirei fundo. Claro. Sempre o dinheiro. — Algum já recuou? — Ainda não oficialmente. — Mas? — Estão esperando sua posição. Virei de costas para a janela. — Eles vão esperar. — E o que você vai dizer? Pensei por um segundo. Mas a verdade era simples demais. — Nada. Marcelo ficou em silêncio. — Nada? — repetiu. — Eu não devo explicação pública por onde eu ando. — Quando isso afeta bilhões… deve sim. Fechei os olhos por um instante. Ele estava certo. Mas eu não queria admitir. — Vamos controlar a narrativa — disse ele. — Como? — Projeto social. — Investimento comunitário. — Expansão cultural. Soltei uma pequena risada. — Você quer transformar isso em marketing. — Eu quero evitar um colapso. A palavra ficou no ar. Colapso. Ares Corp. Meu império. Tudo o que eu construí. Por um segundo… Eu vi claramente o risco. E pela primeira vez em muito tempo… Hesitei. Mas então a imagem da Ariane voltou. A voz dela. “Eu quero poder escolher.” E algo dentro de mim se ajustou. — Não — falei. — Não? — Eu não vou transformar ela em campanha. O silêncio do outro lado ficou pesado. — Erick… isso não é sobre ela. — Agora é. — Você está misturando as coisas. — Eu estou enxergando as coisas. Desliguei antes que a discussão continuasse. Porque eu já sabia como aquilo terminaria. Pressão. Mais pressão. E mais pressão. Meu celular vibrou novamente. Dessa vez, mensagem. Número desconhecido. Abri. Uma foto. Meu carro destruído. Fogo alto. Chamas subindo. A imagem perfeita para assustar. Abaixo dela, uma frase: “Agora todo mundo sabe onde você pisa.” Meu maxilar travou. Outro aviso. Mas dessa vez… público. Quem quer que estivesse por trás disso não queria apenas me intimidar. Queria me expor. Me isolar. Me forçar a recuar. Sorri de leve. — Tarde demais. Joguei o celular na cama e caminhei até o armário. Peguei o paletó. Vesti. O reflexo no espelho me encarou. O mesmo homem de sempre. Controlado. Impecável. Mas os olhos… Os olhos estavam diferentes. Mais duros. Mais… vivos. O celular tocou novamente. Dessa vez, um nome que eu não esperava ver naquele momento. Ariane. Atendi imediatamente. — Você viu? — ela perguntou. Sem introdução. Sem cuidado. Direto. — Vi. — Está em todo lugar. — Eu sei. Silêncio por um segundo. — Isso é por minha causa? A pergunta veio baixa. E aquilo me atingiu. — Não. — Não mente pra mim. Fechei os olhos. — Isso é porque eu decidi entrar. — No morro. — Na sua realidade. Ela respirou fundo do outro lado. — Eles vão te destruir. — Já tentaram. — Não assim. Ela estava certa. Aquilo era diferente. Mais visível. Mais perigoso. — Você precisa se afastar — disse ela. A frase veio rápida. Automática. Como defesa. Sorri sem humor. — Engraçado. — O quê? — Você está falando isso. — Não é brincadeira, Erick. — Eu sei. — Então escuta. Houve um silêncio. E então eu disse algo que nem eu sabia que estava pronto para dizer. — Eu não vou sair. Do outro lado da linha, ela ficou quieta. — Por quê? Olhei novamente para meu reflexo. Para o homem que sempre escolheu o caminho mais seguro. Mais lógico. Mais calculado. E pela primeira vez… Eu não queria isso. — Porque eu escolhi ficar. A respiração dela mudou. — Isso pode custar tudo. — Eu sei. — Sua empresa. — Eu sei. — Sua reputação. — Eu sei. — Sua vida. Sorri de leve. — Eu sei. Silêncio. Longo. Intenso. Então ela disse, mais baixo: — Você é teimoso. — Você também. Um pequeno respiro. Quase um riso. Quase. Mas não completamente. — Erick… — Fala. — Isso não é só sobre você. — Eu sei. — Então para de agir como se fosse. A frase veio mais suave dessa vez. Mas ainda carregada. — Eu estou tentando não agir assim. — Então tenta melhor. Desligou. Fiquei olhando para o celular por alguns segundos. Depois coloquei no bolso. Respirei fundo. E caminhei até a porta. Porque lá fora… O mundo estava desmoronando um pouco. A imprensa. Os investidores. A pressão. E dentro do morro… Uma guerra silenciosa estava crescendo. Zeca. Kido. E Ariane no meio. E agora… Eu também. Abri a porta do apartamento. E antes de sair, uma última certeza se formou com clareza absoluta: Eu não era mais o homem que observava de longe. Eu tinha entrado no jogo. E, naquele momento… O lobo não estava apenas cercado. Ele estava pronto para morder de volta.
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