Ariane
A música não era apenas uma melodia; era um veredito. Eu a escrevi em uma noite de insônia, enquanto o cheiro de chuva e esgoto subia pelas frestas do meu barraco na Rocinha, misturando-se ao eco distante dos bailes e ao silêncio tenso das vielas vigiadas. A letra saiu como um vômito, um expurgo de tudo o que eu vinha guardando: a revolta contra a Ares Corp, o medo de ser vendida como mercadoria em um projeto de revitalização fachada, e o ódio, aquele ódio quente e viciante, que eu sentia por Erick Lobo.
Eu não esperava que o mundo ouvisse. Mas o mundo, hoje em dia, tem ouvidos digitais famintos.
O "beat" era simples, pesado, batendo no peito como um coração enfurecido. No refrão, eu citava o "Projeto Sombra" e as mãos sujas de quem assina cheques enquanto o sangue escorre no asfalto. Em menos de doze horas, a faixa "Sombras de Mármore" tinha se tornado o hino das redes sociais. E, na Rocinha, as paredes começaram a sussurrar de volta.
Caminhei pela Via Álea sentindo o peso do meu celular no bolso. Ele vibrava incessantemente com notificações, mas eu não ousava olhar. Cada bip era um lembrete de que eu tinha chutado um ninho de vespas. E as vespas daqui não usam apenas redes sociais; elas usam fuzis e ternos de três mil dólares.
— Ariane! — O grito veio de um beco lateral. Era Tico, um dos moleques que faziam o corre para a rádio comunitária. Ele estava pálido. — Tu tá doida, garota? A música chegou no alto do morro. E dizem que chegou lá no asfalto também, na mão do Lobo.
Senti um calafrio subir pela minha espinha, mas mantive o queixo erguido. A arrogância era a única armadura que eu possuía.
— A verdade incomoda, Tico. Se eles estão ouvindo, é porque o som é bom.
— O som é uma sentença de morte, Ari — ele sussurrou, desaparecendo na escuridão antes que alguém o visse comigo.
Eu continuei andando, mas o ar parecia mais denso. A cada passo, sentia que os olhos me seguiam. Não eram os olhos de admiração dos meus vizinhos, mas o olhar frio dos "radinhos" posicionados estrategicamente. Eu tinha cruzado uma linha. Ao expor os detalhes do projeto de Erick, eu não apenas ataquei o bilionário; eu expus as negociações que os donos do morro faziam por debaixo dos panos.
A traição é a moeda de troca favorita no Rio de Janeiro.
Quando cheguei perto da curva que dava para a minha casa, um brilho metálico cortou a penumbra. Um carro preto, blindado, com vidros tão escuros que pareciam buracos negros, estava parado exatamente na minha porta. O contraste daquele luxo obsceno com as paredes de tijolo aparente era uma agressão visual.
Meu coração martelou contra as costelas. Pensei em correr, mas para onde? Ali era o meu lar, e se eu fugisse agora, a música morreria comigo.
A porta traseira se abriu. O cheiro de couro novo e um perfume caro, amadeirado e intimidador, invadiu o ar úmido da favela. Erick Lobo desceu do carro como se o mundo lhe pertencesse, ignorando o fato de que estava cercado por perigo. Ele usava um casaco escuro, o rosto esculpido em gelo e fúria.
— Você tem um talento excepcional para a autodestruição, Ariane — ele disse, a voz baixa, vibrando em uma frequência que me fazia querer bater nele e puxá-lo para perto ao mesmo tempo.
— E você tem um talento excepcional para invadir espaços onde não é bem-vindo, Erick. O asfalto ficou pequeno para o seu ego?
Ele deu um passo à frente, fechando a distância entre nós. A tensão era elétrica, um fio esticado prestes a arrebentar. Eu podia ver o brilho de mágoa e traição nos olhos dele, o que me confundiu. Ele achava que eu o tinha traído?
— Aquela letra... Aqueles detalhes sobre a infraestrutura e a alocação de fundos... — ele sibilou, segurando meu braço com uma força que não machucava, mas que deixava claro que ele não me soltaria. — Como você conseguiu aquilo? Quem te deu o memorando?
— Eu não preciso de esmolas de informação, Erick. Eu vejo o que acontece aqui. Eu sinto o cheiro da corrupção antes mesmo de vocês assinarem os contratos.
— Não minta para mim! — O grito dele ecoou, e eu vi o brilho das armas dos seguranças dele e, mais longe, o movimento dos homens do morro nos telhados. Estávamos em um campo minado. — Aquele projeto era a minha redenção. Era o que ia me ligar a você, ao meu passado. E você transformou isso em um alvo. Você colocou a sua vida e a minha em perigo por uma música?
— Eu coloquei a verdade no mundo! Se a sua redenção depende de segredos e ratos de escritório, ela não vale nada.
Erick riu, um som amargo e sem humor. Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu. Eu podia sentir o calor da pele dele, o desejo reprimido misturado à vontade de me destruir. Era esse o nosso romance: uma guerra de atrito onde ninguém saía ileso.
— Os caras lá de cima — ele apontou para o topo do morro — acham que você sabe demais. E os meus sócios, no asfalto, acham que você é uma ameaça ao lucro. Você não é mais apenas uma cantora de comunidade, Ariane. Você é uma variável que eles querem eliminar.
— E você? O que você quer? — desafiei, sentindo uma lágrima teimosa arder nos meus olhos.
— Eu quero salvar a sua pele, por mais que eu queira te deixar para os lobos. Mas a música viralizou, Ariane. Agora não há volta.
Nesse momento, o som de uma motocicleta cortou o silêncio. Dois homens passaram disparando para o alto, um aviso claro de que o tempo de conversa tinha acabado. Erick me puxou para trás dele, as costas largas servindo de escudo.
A adrenalina inundou meu sistema. A música que eu criei para libertar meu povo tinha se tornado a corda que tentava me enforcar. Mas, enquanto olhava para o perfil rígido de Erick, percebi que o jogo era muito mais profundo. Alguém tinha usado a minha voz para atacar o império dele. Alguém queria que nós nos destruíssemos.
— Entra no carro. Agora — ele ordenou.
— Eu não vou embora com você. Minha vida está aqui.
— Sua vida não vale um centavo se você ficar aqui fora hoje. Você quer ser uma mártir ou quer descobrir quem realmente vazou aqueles documentos para você "se inspirar"?
Eu hesitei. O ódio por ele ainda queimava, mas a dúvida era um veneno mais eficaz. Alguém tinha facilitado o meu acesso àquelas informações. Alguém queria esse confronto.
Olhei para a minha viela, para a escuridão que sempre foi meu refúgio e que agora parecia uma boca aberta pronta para me engolir. Depois, olhei para o homem que representava tudo o que eu combatia, mas que era o único que parecia entender a gravidade do abismo onde caímos.
— Se isso for uma armadilha, Erick, eu juro que a próxima música será sobre o seu funeral.
Ele me olhou de soslaio, um lampejo de admiração cruzando seu rosto sombrio.
— Eu não esperaria nada menos de você, Ariane.
Entrei no carro, o batimento cardíaco acompanhando o ritmo da minha própria música que ainda tocava em algum barraco próximo. A guerra tinha começado, e a minha voz era o gatilho. Agora, restava saber se a melodia terminaria em redenção ou em um rastro de sangue entre o asfalto e o morro.