Ariane
O vidro blindado do SUV de Erick transformava o caos da Rocinha em um filme mudo e distante. Lá fora, o perigo gritava em cada esquina; aqui dentro, o silêncio era uma corda esticada no pescoço de nós dois. O cheiro dele, aquele perfume amadeirado que evocava poder e noites sem dormir, preenchia o espaço reduzido, misturando-se ao calor do meu próprio corpo e à adrenalina que ainda fazia minhas mãos tremerem.
Ele não olhava para mim. Mantinha os olhos fixos na estrada enquanto o motorista cortava o caminho em direção à Gávea, fugindo do cerco que minha música havia criado.
— Você vai ficar no meu apartamento por alguns dias. — A voz de Erick era um comando, não uma sugestão. — Vou dobrar a segurança. Ninguém entra, ninguém sai. Você vai sumir até eu limpar essa sujeira.
Eu ri, um som seco que arranhou minha garganta.
— Sumir? Você não entendeu nada, não é, Erick? Eu sou a voz do lugar de onde você fugiu. Se eu me calar agora, se eu me esconder em uma gaiola de ouro no asfalto, eu perco tudo o que eu sou. Eu não sou uma das suas ações que você retira do mercado quando o gráfico cai.
— Você é um alvo, Ariane! — Ele finalmente se virou, e a fúria em seus olhos era quase insuportável. — A letra daquela música... as informações que você usou... quem quer que tenha te entregar aquilo quer você morta para me atingir. Você não é um peão nesse jogo, você é o tabuleiro. E eu não vou deixar que te quebrem.
— Então me deixe lutar! — Gritei, avançando no espaço dele. — Me deixe encarar quem me deu o papel. Eu não pedi proteção, eu pedi justiça.
— Justiça não existe no mundo real, existe sobrevivência. E você vai sobreviver, mesmo que eu tenha que te trancar a sete chaves.
O carro parou bruscamente na garagem subterrânea de um prédio que exalava uma riqueza estéril. Erick desceu e, antes que eu pudesse protestar, ele me puxou pelo braço, conduzindo-me para o elevador privativo. O trajeto até a cobertura foi um borrão de luzes de painel e o som da nossa respiração pesada.
Quando a porta do elevador abriu direto na sala dele, o luxo me atingiu como um tapa. Mármore n***o, janelas do chão ao teto mostrando o Rio como se fosse um brinquedo, e o silêncio... um silêncio que me oprimia. Erick caminhou até a porta de entrada, digitou um código e o estalo da fechadura eletrônica ecoou como um tiro.
— Está trancada — ele disse, jogando as chaves sobre a mesa de vidro. — Você fica aqui. Sem celular, sem internet, sem música.
— Você enlouqueceu. — Eu caminhei até ele, o ódio borbulhando. — Você acha que pode me comprar com paredes bonitas? Eu prefiro o perigo do morro do que a covardia da sua proteção.
— Não é covardia, é posse! — Ele rugiu, encurtando a distância entre nós em dois passos largos.
Ele me prensou contra a parede fria. O contraste era violento: as costas geladas no mármore e o peito dele, uma fornalha de músculos e frustração, esmagando meus s***s. Meus batimentos cardíacos estavam no limite, uma batida de funk acelerada e perigosa.
— Você me odeia tanto assim, Ariane? — Ele sussurrou, a boca a milímetros da minha. A raiva dele estava se transformando em outra coisa, algo mais sombrio e faminto.
— Eu odeio o que você representa — respondi, embora minhas mãos, traidoras, estivessem agarrando a lapela do casaco dele. — Eu odeio como você acha que tudo tem um preço.
— Então me diz... qual o preço do seu silêncio agora?
Erick não esperou resposta. Ele atacou minha boca com uma fome que não tinha nada de civilizada. Era um beijo de guerra, de reivindicação. Eu tentei resistir por um segundo, mas o desejo acumulado de meses de brigas, de olhares atravessados e de uma tensão s****l que poderia incendiar a cidade, explodiu. Eu retribuí com a mesma violência, puxando o cabelo dele, sentindo o gosto metálico de um lábio cortado.
Ele me levantou com facilidade, minhas pernas se entrelaçaram na cintura dele enquanto ele me carregava para o quarto, sem nunca romper o contato das nossas bocas. O "preço" que eu estava pagando por aquela porta trancada era a entrega total.
Ele me jogou na cama de lençóis de seda n***a e se livrou do casaco e da camisa com movimentos frenéticos. A visão do corpo de Erick, marcado por uma disciplina rígida, era uma provocação. Eu me desfiz da minha blusa, sentindo o ar condicionado gelado na minha pele suada, mas o frio não chegava perto do fogo que ele acendia quando suas mãos grandes e ásperas encontraram minha cintura.
— Você é minha, Ariane. No morro ou no asfalto. Minha. — Ele sibilou contra meu pescoço, mordendo a pele sensível ali, deixando uma marca que gritaria o nome dele para quem quisesse ver.
— Eu não sou de ninguém — arquei, enquanto ele descia os beijos para os meus s***s, sua língua traçando o contorno da minha aréola com uma precisão torturante. — Mas hoje... hoje você pode tentar me convencer.
O encontro dos nossos corpos foi um choque de realidades. Quando ele entrou em mim, firme e profundo, eu soltei um grito que não era de dor, mas de uma libertação agonizante. Era o único momento em que não éramos bilionário e favelada, empresa e comunidade. Éramos apenas dois animais tentando encontrar sentido no meio do caos.
Erick se movia com uma intensidade rítmica, os olhos fixos nos meus, buscando minha alma enquanto me possuía. Cada estocada era um argumento, cada gemido meu era uma concessão. O suor colava nossos corpos, e o som da carne batendo contra a carne era a única música que importava agora. Eu arranhei suas costas, deixando sulcos vermelhos que provavam que eu ainda tinha garras, mesmo trancada.
Quando o ápice veio, foi devastador. Uma explosão de luz atrás das pálpebras, um espasmo que nos uniu em um nó cego de prazer e exaustão. Erick desabou sobre mim, o rosto escondido na curva do meu ombro, a respiração pesada soprando contra minha pele.
O silêncio voltou, mas agora estava carregado.
Minutos depois, ele se afastou, sentando-se na beira da cama. A vulnerabilidade do momento tinha passado; o Erick Lobo calculista estava de volta, embora o cabelo bagunçado e as marcas de unhas nas costas o denunciasse.
— Isso não muda nada — ele disse, sem olhar para trás. — Você continua trancada. E eu continuo indo atrás do rato que te usou.
Eu me sentei, puxando o lençol para cobrir o corpo que ainda vibrava. Olhei para a porta fechada e depois para o homem que acabara de me dar o céu enquanto me mantinha no inferno.
— Você acha que me prendeu, Erick. Mas minha voz já está lá fora. E o preço de me manter aqui vai ser mais alto do que você pode pagar.
Ele se levantou e caminhou até o armário, pegando um tablet.
— Quer ver o preço? — Ele virou a tela para mim. Era um vídeo de segurança da Ares Corp. — Esse é o homem que vazou o memorando. E você não vai acreditar em quem o pagou para chegar até você.
A imagem estava borrada, mas o perfil era inconfundível. Meu sangue gelou. A traição não vinha de um estranho, mas de alguém que compartilhava o mesmo chão que eu na Rocinha. O jogo não era apenas sobre dinheiro; era sobre nos destruir de dentro para fora.