Erick
O brilho azulado do tablet refletia nos olhos de Ariane, e eu vi o exato momento em que a alma dela estraçalhou. A expressão de choque, os lábios entreabertos que ainda guardavam o gosto do meu beijo, e o tremor que começou nas pontas dos dedos e subiu por aqueles braços que, minutos atrás, me apertavam com uma urgência selvagem.
Na tela, a imagem era granulada, mas incontestável. Zeca. O homem que ela chamava de "tio", o líder comunitário que a viu crescer e que, na narrativa dela, era o pilar de integridade contra o qual eu nunca poderia competir. Lá estava ele, em um beco escuro na base do morro, recebendo um envelope pardo de um dos meus diretores dissidentes. O preço da lealdade dele tinha sido a cabeça da Ariane em uma bandeja de prata, servida sob a forma de um vazamento que a colocaria na mira de todos os lados.
— Não... — O sussurro dela foi um sopro de agonia. — O Zeca não. Ele me ajudou com a letra. Ele disse que o povo precisava ouvir...
— Ele disse o que você queria ouvir para que você gritasse o que os inimigos da Ares Corp precisavam. — Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia, ainda carregada pelo esforço físico de tê-la em meus braços. — Ele te usou como isca, Ariane. E agora que o peixe mordeu, ele não precisa mais de você viva para contar a história.
Ela se levantou da cama, enrolada no lençol de seda n***a como se fosse uma mortalha. A nudez parcial, que antes era um convite ao prazer, agora parecia uma ferida aberta. Ela caminhou em direção à porta, os passos vacilantes, mas os olhos acesos com uma determinação suicida.
— Eu vou lá. Eu vou olhar na cara dele. Eu vou fazer ele repetir isso na frente da comunidade.
Eu me movi antes que ela pudesse tocar na maçaneta. Bloqueei o caminho, os braços cruzados, sentindo cada músculo do meu peito protestar.
— Você não vai a lugar nenhum.
— Sai da frente, Erick. Você não é meu dono. Você não tem o direito de me manter aqui.
— Eu tenho o dever de te manter viva, e lá fora você é um cadáver caminhando. — Dei um passo à frente, forçando-a a recuar. — O morro está em chamas por causa da sua música. Os meus sócios querem o seu silêncio definitivo. E o seu "tio" Zeca já recebeu a segunda parcela para garantir que você não chegue ao tribunal ou a qualquer rádio.
— Então me deixa morrer! — Ela gritou, golpeando meu peito com os punhos cerrados. — É melhor morrer livre na minha lama do que viver presa nesse seu castelo de vidro! Você é um monstro, Erick! Você me seduz para me distrair enquanto constrói as minhas correntes!
Segurei os pulsos dela, prendendo-os acima de sua cabeça contra a madeira da porta. A respiração dela batia no meu rosto, quente, desesperada, um animal acuado. O cheiro de sexo e traição era inebriante e amargo.
— Se eu fosse o monstro que você diz, eu te entregaria para eles e ficaria com o lucro. — Sibilei, colando meu corpo ao dela para que ela sentisse a rigidez da minha resolução. — Mas eu sou o homem que vai queimar o mundo se for preciso para garantir que você continue respirando. Você acha que isso é uma corrente? Ótimo. Chame como quiser. Mas você não sai deste apartamento até que eu tenha limpado cada rato, começando pelo seu precioso Zeca.
— Você vai matá-lo... — Não era uma pergunta, era uma constatação de horror.
— Eu vou neutralizar a ameaça. O método não cabe a você julgar.
Soltei os pulsos dela e caminhei até o painel de controle na parede. Com alguns toques, ativei o Protocolo Sombra. As janelas de vidro reforçado foram cobertas por persianas de aço balístico, mergulhando a cobertura em uma penumbra artificial, iluminada apenas por luzes de emergência embutidas no rodapé. A comunicação externa foi cortada; apenas a minha linha criptografada com o Léo permanecia ativa.
Ariane me olhava como se eu tivesse acabado de erguer as paredes de uma tumba.
— Isso é sequestro, Erick.
— Isso é sobrevivência. — Peguei o celular e liguei para o meu chefe de segurança. — Dênis, equipe Alpha na garagem. Ninguém entra, nem com ordem judicial. Se virem o alvo Zeca ou qualquer batedor do morro nos arredores, interceptem. Não quero barulho, quero resultados.
Desliguei e olhei para ela. Ela estava sentada no chão, o lençol caído nos ombros, os cabelos escondendo o rosto. A imagem da derrota. Uma parte de mim, a parte que ainda lembrava do garoto que queria salvar o mundo — sentiu uma pontada de remorso. Mas o Erick Lobo que comandava impérios sabia que a dor dela era o preço da vida dela.
— Eu odeio você — ela sussurrou, sem olhar para cima.
— Eu sei. Mas você vai estar viva para me odiar por muitos anos, Ariane. E isso é tudo o que me importa agora.
Caminhei até o bar, servindo-me de um uísque puro. O líquido queimou minha garganta, mas não conseguiu apagar o fogo que ainda sentia na pele onde ela me tocou. Eu a tinha sob meu teto, sob meu controle, e ainda assim sentia que ela nunca esteve tão longe.
O plano estava em movimento. Eu ia usar os recursos da Ares Corp para asfixiar financeiramente os traidores no asfalto e enviaria uma equipe tática para o morro para "renegociar" as lealdades. A Rocinha ia sangrar, mas Ariane estaria segura no meu vácuo de silêncio.
— O que você vai fazer comigo? — Ela perguntou, a voz agora desprovida de emoção, o que era muito mais assustador do que os gritos.
— Vou te dar o que você sempre quis: a verdade. Mas você vai ter que ver o resto do vídeo.
Voltei para a cama e peguei o tablet, sentando-me ao lado dela no chão frio de mármore. O vídeo continuava. Zeca não estava apenas recebendo dinheiro. Ele estava rindo. Rindo da ingenuidade de Ariane, chamando-a de "passarinho útil" que cantava a música que ele compunha nas sombras.
Eu a puxei para o meu colo, e desta vez ela não resistiu. Ela apenas desabou, escondendo o rosto no meu pescoço enquanto o choro silencioso molhava minha pele. Minha mão acariciou seus cachos, um gesto de carinho que parecia uma hipocrisia diante das paredes de aço que nos cercavam.
Proteção ou corrente? Para mim, eram a mesma coisa. Eu adoro com a possessividade de um colecionador e a ferocidade de um predador. E, enquanto o mundo lá fora ruía sob o peso da música dela, eu a manteria aqui, no escuro, onde o único perigo era eu.