Capítulo 13 : Rei do Asfalto, Rainha do Morro

1198 Words
Ariane A claustrofobia da cobertura de Erick Lobo não vinha das paredes, mas do silêncio metálico que as persianas de aço impunham. Ali dentro, o tempo não passava; ele apenas pesava. Eu olhava para as minhas mãos, as mesmas mãos que escreveram a letra que agora servia de rastilho de pólvora, e sentia o cheiro do traidor impregnado na minha memória. Zeca. O homem que me ensinou a ler as entrelinhas do mundo tinha me transformado em uma vírgula descartável no seu contrato de sangue. Erick estava de pé diante de um monitor, de costas para mim. A silhueta dele era uma linha reta e implacável contra a luz azulada. Ele estava vestindo o casaco escuro novamente. O traje de guerra. O Rei do Asfalto estava se preparando para descer ao meu reino, e a ideia de que ele faria isso "por mim" me dava náuseas e calafrios na mesma medida. — Você não vai — eu disse, minha voz saindo mais firme do que eu esperava, cortando o ar condicionado como uma lâmina. Erick não se virou de imediato. Ele terminou de ajustar algo no coldre oculto sob a axila, um movimento fluido que denunciava que ele nunca foi apenas um homem de planilhas. — Eu não estou pedindo permissão, Ariane. Eu estou informando o que vai acontecer. O Zeca vendeu a sua localização e a minha estratégia. Ele não é mais um líder comunitário; ele é um alvo que precisa ser removido antes que os meus sócios o usem para chegar a você. Levantei-me do chão, deixando o lençol de seda escorregar. Eu não me importava com a minha nudez ou com a vulnerabilidade do meu corpo marcado por ele. Eu me importava com o que restava da minha dignidade. Caminhei até ele, parando a centímetros das suas costas largas. — Você acha que subir o morro com seus seguranças e apagar o Zeca resolve o quê? — Questionei, minha voz subindo de tom. — Você vai ser só mais um playboy matando um favelado. Para a Rocinha, ele ainda é o herói e você é o invasor. Se você matá-lo, você o transforma em mártir. E eu? Eu viro a "mulher do asfalto" que trouxe a morte para casa. Erick se virou devagar. O rosto dele era uma máscara de pedra, os olhos desprovidos de qualquer calor que tivéssemos compartilhado na cama. — Eu não me importo com a narrativa, Ariane. Eu me importo com o resultado. O resultado é você viva. — A que custo? — Avancei, empurrando o peito dele com as duas mãos. Ele nem se mexeu. — Você quer me proteger ou quer me domesticar? Você trancou as portas, cortou meu sinal, me transformou em um troféu nessa sua redoma de vidro. Você se diz o Rei do Asfalto, mas aqui em cima você só manda em objetos. Lá embaixo, eu sou a Rainha do Morro, e nenhuma corrente sua vai mudar isso. — Rainha de quê? — Ele sibilou, segurando meus pulsos com uma força controlada que fazia meu sangue latejar. — De um lugar que te vendeu por um envelope de dinheiro? De um povo que está ouvindo a sua música enquanto os batedores procuram o seu rastro para te entregar de presente para a Ares Corp? Acorda, Ariane! A sua "honra" foi leiloada antes mesmo de você terminar o refrão. O tapa estalou no rosto dele antes que eu pudesse processar o pensamento. O som ecoou na sala vazia. O rosto de Erick virou para o lado, e por um segundo, o silêncio foi absoluto. Senti o pânico e o triunfo lutarem dentro de mim. Ele voltou o olhar para mim lentamente. Havia uma marca vermelha na sua bochecha, mas o que me assustou foi o brilho de admiração sombria que surgiu no fundo das suas pupilas. — Se você for lá e fizer do seu jeito, você morre, Erick — eu disse, minha voz tremendo agora. — O Zeca conhece cada beco, cada radinho. Você vai entrar em um moedor de carne. — Então qual é a sua sugestão? Que eu fique aqui tomando uísque enquanto eles decidem como vão repartir o seu cadáver? — Que você me deixe liderar. — Eu o encarei, sem desviar. — Me devolva o meu celular. Me dê acesso ao rádio da comunidade. Me deixe falar com as pessoas certas. O morro não segue quem tem mais dinheiro, segue quem tem mais lealdade. O Zeca traiu a mim, mas ele também traiu o código deles quando aceitou dinheiro da Ares Corp. Eu posso destruir a imagem dele sem disparar um único tiro. Erick riu, um som sombrio e carregado de descrença. — Você quer que eu confie na sua diplomacia de viela? — Eu quero que você entenda que você não manda em mim! — Gritei, a emoção transbordando. — Você pode ter comprado meu corpo por uma noite, pode ter trancado essa porta, mas você não é meu dono. Se você quer ir para a guerra, vá. Mas vá sabendo que, se você matar o Zeca sem a minha autorização, você nunca mais vai me tocar. Eu vou me transformar no seu pior pesadelo corporativo e pessoal. Ele se aproximou, sua aura de poder tentando me esmagar, mas eu não recuei. Ele colocou a mão no meu pescoço, o polegar traçando a linha da minha mandíbula com uma possessividade que me fazia odiá-lo e desejá-lo na mesma intensidade. — Você é orgulhosa demais para o seu próprio bem — ele sussurrou, a voz vibrando contra a minha pele. — É por isso que eu não consigo te deixar ir. — Então não me deixe ir. Vá comigo. — O desafio estava lançado. — Desça do seu trono, tire esse casaco de bilionário e venha ver como a Rainha do Morro retoma a coroa. Mas se você interferir, se você tentar me "salvar" como se eu fosse uma donzela indefesa, eu juro por tudo o que é sagrado que eu mesma puxo o gatilho contra você. Erick me soltou, caminhando até a mesa e pegando um dispositivo pequeno, uma espécie de comunicador criptografado. Ele jogou para mim. — Você tem uma hora para fazer as suas conexões. Uma hora para provar que a sua voz ainda vale alguma coisa lá embaixo. Se em sessenta minutos o Zeca não for entregue ou desmoralizado, eu entro com a equipe tática. E Ariane... — Ele parou na porta, o olhar frio voltando. — Se isso for uma armadilha sua para fugir de mim, lembre-se: eu sou o Rei do Asfalto. Não há lugar neste Rio de Janeiro onde você possa se esconder que eu não possa comprar ou queimar. Ele saiu da sala, trancando a porta por fora novamente. O som da fechadura eletrônica foi o lembrete final. Eu tinha uma hora. Uma hora para transformar minha dor em estratégia, para usar a traição do Zeca como arma e para mostrar a Erick Lobo que a liberdade não é algo que ele concede, é algo que eu tomo de volta. Peguei o comunicador. Minhas mãos não tremiam mais. A música ainda estava tocando nas minhas veias, mas desta vez, a letra era sobre vingança.
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