Capítulo 14 : A Primeira Noite no Morro

1150 Words
Erick O ar na Rocinha não circula como a brisa estéril da minha cobertura no Leblon. Ele é denso, carregado com o cheiro de asfalto quente, fritura, esgoto e uma humanidade que pulsa em uma frequência que meus gráficos da Ares Corp nunca foram capazes de capturar. Estamos trancados no barraco da Ariane. O luxo agora é uma lembrança ridícula. Minhas costas ardem onde o mármore me pressionou mais cedo, e meus sapatos de couro italiano parecem insultos silenciosos contra o chão de cimento batido. O plano de uma hora de Ariane funcionou, mas o custo foi o isolamento. O morro entrou em "blindagem". Zeca fugiu para as entranhas das vielas, e os batedores dele estavam em cada esquina. Sair agora com um SUV blindado seria como colocar um alvo de neon no peito: um convite para um cerco que nem meu exército particular conseguiria conter sem uma carnificina. Pela primeira vez na vida, eu não sou o dono do tabuleiro. Sou uma peça encurralada. — Pode tirar esse casaco, Erick. Você está suando e parece um pavão tentando se esconder em um galinheiro — Ariane disse, a voz baixa, enquanto mexia em um rádio de pilha antigo. Eu a encarei. Ela estava sentada em uma cadeira de plástico, a luz de uma única lâmpada amarela criando sombras dramáticas em seu rosto. O lençol de seda do meu apartamento fora substituído por uma regata gasta e um short curto, mas a aura de rainha permanecia intacta. Ela estava em casa. Eu era o estrangeiro. — Eu não estou tentando me esconder — respondi, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia. Tirei o casaco e o joguei sobre o sofá puído, expondo o coldre. — Estou garantindo que a gente passe da meia-noite. — Aqui não se garante nada com armas, Lobo. Se garante com ouvido. Ela se levantou e caminhou até a pequena janela que dava para um emaranhado de fios e telhados. — Vem cá. Escuta. Eu hesitei, mas fui. Fiquei atrás dela, sentindo o calor que emanava da sua pele, um contraste com o ambiente úmido. No início, eu só ouvia o barulho: o ronco constante das motos, um funk distante, o choro de uma criança, o latido de um cão. — O que você ouve? — ela perguntou, sem se virar. — Caos — respondi secamente. — Barulho de um lugar que precisa de ordem. De infraestrutura. De... — De um projeto da Ares Corp? — Ela riu, um som amargo. — Esqueceu o bilionário por cinco minutos. Fecha os olhos. Eu os fechei. Contra toda a minha natureza de controle, eu me deixei levar. — Ouve aquele assobio? — ela sussurrou perto do meu ouvido. — São os radinhos avisando que a polícia não subiu. Ouve o ritmo daquela batida na laje ali embaixo? Não é só música, é o código de que o caminho para a parte alta está liberado. E ouve o silêncio entre os sons? É o medo. É o povo esperando para saber se você vai trazer a guerra para cá amanhã ou se vai embora com o seu r**o entre as pernas. Eu abri os olhos. A proximidade física dela era uma tortura. O desejo de explodir na cobertura ainda estava lá, mas agora estava temperado com uma vulnerabilidade nova. Eu estava no território dela, ouvindo a música que ela compunha com a própria vida. — O Zeca usou tudo isso contra mim — eu disse, minha mão encontrando a cintura dela, puxando-a para trás contra o meu peito. — Ele transformou esse "ritmo" em uma arma para me atingir. Ariane relaxou contra mim por um segundo, um suspiro pesado escapando de seus lábios. — Ele usou porque você deu o combustível, Erick. Você chegou aqui como um salvador, mas o morro não quer ser salvo por quem não conhece o som da chuva no telhado de zinco. Você veio para reformar a Rocinha, mas não sabia o nome de uma única rua. — Eu sei o seu nome — sussurrei, enterrando o rosto no pescoço dela. — E agora eu sei o gosto da sua traição e da sua lealdade. Ela se virou nos meus braços, seus olhos escuros buscando os meus. Havia uma batalha ali: o ódio pelo que eu representava lutando contra a atração magnética que nos mantinha orbitando um ao outro. — Esta é a sua primeira noite aqui, Lobo. A primeira noite que você não tem um botão de pânico que funcione. A primeira noite que você é apenas um homem. Você aguenta ser só isso? A resposta foi o meu beijo. Desta vez, não houve a violência da posse da cobertura. Foi um beijo lento, exploratório, carregado com a tensão de estarmos cercados por inimigos. Era o beijo de dois náufragos em uma ilha em chamas. Eu a levei para a cama estreita, o colchão rangendo sob o nosso peso. Não havia lençóis de mil fios, apenas o calor do corpo dela e o som da favela entrando pelas frestas. Cada toque parecia mais real, mais urgente. Eu a possuí enquanto o rádio de pilha tocava uma melodia rouca lá fora, e pela primeira vez, eu não estava pensando no lucro ou no Projeto Sombra. Eu estava ouvindo o batimento cardíaco da mulher que me desafiou a ser mais do que um título. Mais tarde, enquanto ela dormia com a cabeça no meu peito, eu fiquei acordado. O Rei do Asfalto estava desarmado. Eu olhava para o teto descascado e ouvia. Ouvi os passos leves no corredor externo, o som de um isqueiro sendo aceso do outro lado da parede de tijolos finos, a vida acontecendo independentemente do meu poder. A Rocinha não era um projeto. Era um organismo. E eu, Erick Lobo, finalmente estava começando a entender que, para conquistar esse lugar e para manter a mulher que era a alma dele — eu teria que aprender a falar uma língua que não se escreve em contratos. Peguei o comunicador que ela usara mais cedo. Havia uma mensagem do Léo: "Erick, extração impossível até o amanhecer. O morro fechou. O que você quer que eu faça?" Olhei para Ariane, para a paz que ela encontrava no meio daquele perigo constante. Digitei a resposta com uma mão só. "Nada. Eu estou ouvindo." Amanhã, o confronto com Zeca viria. O sangue provavelmente seria derramado, e a Ares Corp enfrentaria sua maior crise. Mas ali, naquela penumbra úmida, entre o cheiro de suor e a esperança de um novo dia, eu percebi que a minha maior vitória não seria retomar o projeto. Seria garantir que, quando o sol nascesse, a Rainha do Morro ainda estivesse ao meu lado. Mesmo que ela continuasse me odiando por cada segundo que eu passasse tentando protegê-la. O jogo não era mais sobre quem mandava. Era sobre quem permanecia de pé quando a música parava. E eu não pretendia cair.
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