Capítulo 15 : Ciúmes de Terno

1327 Words
Ariane O sol nasceu na Rocinha não com um brilho de esperança, mas com a cor de ferro enferrujado. Depois da noite que passamos entrelaçados naquele colchão estreito, o silêncio que se seguiu foi preenchido pela necessidade brutal de ação. O "Protocolo Sombra" de Erick ainda estava ativo, mas a minha rede de contatos no morro já fervilhava. Zeca estava acuado, mas ele não era o único jogador interessado na minha voz. A notícia de que eu estava "protegida" pelo Lobo correu mais rápido que o vento nas vielas. E, para muitos, isso soava como uma rendição. Para limpar minha imagem e retomar o controle da narrativa da minha própria vida, eu forcei Erick a sair do casulo do meu barraco. Fomos até o "Point do Som", um estúdio encravado no coração da comunidade onde a verdade não é dita, é cantada. E foi lá que o clima mudou. Vico estava à minha espera. Ele não era um executivo de mármore como os da Ares Corp. Vico era o ouro do morro: dentes cravejados, correntes pesadas que faziam música a cada movimento e um olhar que já tinha visto mais tiroteios e sucessos do que Erick poderia imaginar. Ele era o maior produtor de funk do Rio, o homem que transformava sussurros de beco em hits globais. — Ariane, minha rainha... — Vico abriu os braços assim que cruzamos a porta de isolamento acústico. Ele me envolveu em um abraço demorado, o cheiro de tabaco caro e loção pós-barba popular invadindo meus sentidos. — O morro tá um inferno, garota. Tua música quebrou tudo. Mas esse papo de que tu virou passarinho de gaiola de bilionário... eu não acreditei. Senti a presença de Erick atrás de mim antes mesmo de ouvi-lo. A temperatura da sala pareceu cair dez graus. Erick estava encostado na parede, os braços cruzados sobre o peito, o terno, que ele insistira em vestir novamente, como uma armadura de arrogância, parecendo um uniforme alienígena naquele ambiente. — Ela não é passarinho de ninguém, Vico — eu disse, desvencilhando-me do abraço, mas mantendo a mão no ombro do produtor. Eu sabia que Erick estava assistindo. Eu queria que ele assistisse. — O Erick está apenas... de passagem. Vico mediu Erick de cima a baixo com um sorriso de canto. — De passagem, é? O asfalto parece que se perdeu na subida. Prazer, Lobo. Ouvi dizer que tu quer reformar o nosso lar. Só cuidado pra não tropeçar no que tu não entende. Erick não estendeu a mão. Ele nem sequer se moveu. O olhar dele era uma lâmina afiada, fixa no ponto exato onde a mão de Vico tinha tocado minha cintura segundos atrás. Eu conhecia aquele olhar. Era o olhar do predador que vê outro macho invadindo o seu território. Mas aqui, o território era eu, e eu não pertencia a nenhum dos dois. — Meu entendimento sobre este lugar está crescendo rapidamente, Vico — a voz de Erick era um rosnado baixo, contido, mas carregado de uma violência latente. — Especialmente sobre quem tenta lucrar com o talento alheio enquanto o mundo pega fogo. — Lucrar? — Vico riu, dando um passo em direção a Erick, o confronto físico agora iminente. — Eu sou o sangue que faz esse lugar bater, engravatado. Eu coloco a voz da Ariane no mundo sem precisar de memorando vazado ou de projeto de "revitalização" que cheira a despejo. Vico se virou para mim, ignorando Erick como se ele fosse um móvel caro e indesejado. — Ariane, esquece esse rolo. Eu tenho uma base nova. Pesada. Vamos gravar agora. Só eu e tu, como nos velhos tempos. Noite adentro, a sós, até a música sair perfeita. O que tu me diz? Ele tocou meu rosto, um gesto de familiaridade que, no morro, era quase fraternal, mas que, aos olhos de um homem possessivo como Erick, era um crime de guerra. Ouvi o estalo seco dos nós dos dedos de Erick se fechando. Ele deu um passo à frente, saindo das sombras. A aura de "executivo controlado" evaporou, dando lugar ao homem que foi forjado na dor e na ambição. Ele parou entre mim e Vico, uma barreira de puro músculo e ódio contido. — Ela não vai gravar nada "a sós" com você, Vico. Nem agora, nem nunca. — Erick, cala a boca — eu sibilei, mas o meu coração deu um salto. O ciúme dele era sombrio, tóxico, mas havia algo nele que me prendia. Era a prova de que o gelo do bilionário tinha derretido e o que sobrou foi um fogo perigoso. — Ou o quê, Lobo? — Vico desafiou, peitando Erick. — Tu vai me processar? Vai mandar teus seguranças? Aqui é o meu estúdio. Aqui, o meu ouro vale mais que o teu cartão black. Erick se inclinou, o rosto a centímetros do de Vico. O contraste era brutal: o brilho excessivo do produtor contra a elegância letal do bilionário. — Eu não preciso de seguranças para quebrar você, Vico. Eu posso comprar esta rua inteira antes do pôr do sol e transformar esse estúdio em um depósito de lixo. Ou eu posso simplesmente te mostrar por que eu sou o único Lobo que a Ariane deixa entrar na toca. A tensão era tão espessa que o ar parecia difícil de respirar. Vico recuou um milímetro, surpreso com a ferocidade nos olhos de Erick. Ele percebeu que não estava lidando com um playboy mimado, mas com alguém que estava disposto a queimar tudo apenas para provar um ponto. — Erick, chega! — Eu me meti entre os dois, empurrando o peito de Erick. — Você está perdendo a linha. Você não manda no meu trabalho. — Eu não mando no seu trabalho, Ariane. Mas eu não tolero que esse rato coloque as mãos em você como se tivesse direito a algo. — Ele me olhou, e a mágoa misturada ao ciúme me atingiu em cheio. — Você quer gravar? Grave. Mas eu não saio daqui. Eu vou estar em cada batida, em cada nota. Se ele chegar perto demais de você de novo, o Projeto Sombra vai ser o menor dos problemas deste morro. Vico soltou uma lufada de ar, entre a diversão e o medo. — O homem tá apaixonado ou tá maluco. Ariane, tu arrumou um problema de terno, hein? — Ele é um problema que eu sei resolver — respondi, embora soubesse que era mentira. Ninguém resolvia Erick Lobo. Você apenas sobrevivia a ele. Voltei para Erick, segurando seu rosto com força, obrigando-o a focar em mim. — Você queria ouvir o morro, Erick? Pois ouça isso: eu vou gravar. E você vai sentar ali naquela cadeira e vai ver como eu sou livre. Se o seu ciúme não cabe nesta sala, a porta é serventia da casa. Erick sustentou meu olhar. O maxilar dele estava tão tenso que parecia prestes a quebrar. Mas ele não saiu. Ele caminhou até a cadeira de couro no canto do estúdio, sentou-se e cruzou as pernas, observando Vico com a frieza de um carrasco. — Eu não vou a lugar nenhum, Ariane. Cante. Mostre para ele o que é ser meu pesadelo. A gravação começou. A música era agressiva, crua, falando sobre traição e poder. Eu cantava para Vico, para a comunidade, mas meus olhos não saíam de Erick. Eu via o jeito que ele apertava o braço da cadeira cada vez que Vico se aproximava do microfone para ajustar o volume. Eu via o ciúme do terno se transformando em uma obsessão silenciosa. A cada verso, a Rainha do Morro e o Rei do Asfalto travavam uma guerra silenciosa. O estúdio era o campo de batalha, e o prêmio era algo que nenhum de nós queria admitir que já tinha perdido: o controle sobre os próprios sentimentos. A noite estava apenas começando, e o ciúme de Erick era o combustível que faltava para o incêndio que a Rocinha estava prestes a presenciar.
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