Capítulo 16 : Contrato Que Não Existe

1315 Words
Ariane O ar entre nós dois, dentro das paredes estreitas do barraco, era combustível puro esperando por uma faísca. O caminho de volta do estúdio foi um deserto de palavras, mas um oceano de fúria silenciosa. Erick caminhava atrás de mim como uma sombra agourenta, seus passos pesados no concreto irregular da viela ecoando a batida do meu próprio coração acelerado. Assim que a porta se fechou, o estalo da tranca pareceu o tiro de largada. — Quanto? — A voz dele cortou o silêncio, gélida e autoritária, o tom que ele usava para fechar aquisições hostis na Ares Corp. Eu me virei devagar, largando minha mochila no chão. Erick estava parado no centro da sala minúscula, o terno agora desalinhado, a gravata frouxa e os olhos injetados. Ele parecia um deus caído, exilado em um lugar que não conseguia comprar. — Do que você está falando, Erick? — Do Vico. Daquela música. De você. — Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal com uma agressividade que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem. — Diga o valor. Eu compro o seu contrato com ele, compro aquele estúdio de quinta categoria, compro a p***a da gravadora que ele pensa que tem. Eu quero você fora daquele lugar. Eu não vou permitir que aquele sujeito encoste em você de novo como se você fosse um bem disponível. Eu ri. Foi uma risada amarga, que veio do fundo do peito, carregada com o deboche de quem conhece a fome enquanto ele só conhece o cardápio. — Você é inacreditável. Você acha que tudo se resolve com um PIX ou uma transferência internacional? O Vico é minha história, Erick. Ele estava aqui quando você era apenas um nome em uma coluna social. Minha voz não tem código de barras. — Tudo tem um preço, Ariane! — Ele rugiu, as veias do pescoço saltadas. — E eu estou disposto a pagar qualquer um para não ter que ver outro homem tocando na pele que eu marquei ontem à noite. Ele avançou, segurando meus ombros com uma força que beirava o desespero. A possessividade dele era palpável, um manto escuro que nos envolvia. Ele me prensou contra a parede de tijolo aparente, seu corpo de mármore esmagando o meu. O cheiro de uísque, perfume caro e o suor da tensão era inebriante. — Você quer um contrato, Lobo? — Eu sibilei, cravando as unhas nos antebraços dele. — Quer me tirar do Vico, me tirar do morro, me colocar em uma vitrine no Leblon? — Eu quero você segura. Eu quero você minha. — Então aqui estão as minhas condições. — Eu o puxei pela gravata, forçando o rosto dele para baixo, até que nossas respirações se misturarem. — Você não vai comprar nada. Você vai investir. Sem cláusulas de rescisão, sem controle criativo. E a primeira condição é: você solta essa postura de dono do mundo. Aqui, você é apenas o homem que eu escolhi deixar entrar. Se você quiser me possuir, vai ter que aprender que, no meu reino, quem dita as regras sou eu. Erick me olhou com uma fome devoradora. O desafio na minha voz era o que ele mais odiava e, paradoxalmente, o que o mantinha escravizado a mim. Ele soltou meus pulsos e, em um movimento rápido, segurou minha nuca, puxando meu cabelo com força suficiente para me fazer arquear as costas. — Você gosta de brincar com o perigo, não gosta? — Ele sussurrou contra meus lábios. — Você acha que pode me controlar com essas suas condições? — Eu não acho, Erick. Eu sei. O beijo que se seguiu não teve nada de romântico. Foi uma colisão. Uma disputa de poder em forma de carne e saliva. Erick me atacou com uma urgência que dizia que ele preferia morrer a me perder para o asfalto ou para o morro. Suas mãos, antes cuidadosas, agora exploravam meu corpo com uma possessividade febril. Ele rasgou minha regata com um puxão seco, o som do tecido cedendo se perdendo no barulho da chuva que começava a açoitar o telhado de zinco. Ele me levantou, minhas pernas se fechando em volta da cintura dele como correntes. Erick me carregou até a mesa de madeira onde eu costumava escrever minhas letras. Ele varreu as canetas e papéis para o chão com um braço só, deitando-me ali, entre o caos da minha arte. — Você é uma obsessão maldita — ele murmurou, descendo os beijos para o meu pescoço, mordendo a pele exatamente onde o "ciúme de terno" tinha começado a arder. Eu gemi, enterrando as mãos nos cabelos dele, puxando-o para mais perto. O calor que emanava de nós dois poderia derreter o gelo da Ares Corp inteira. Quando ele se livrou da própria roupa, expondo o corpo esculpido em disciplina e poder, eu percebi que o "contrato" dele estava assinado com sangue e desejo. Ele entrou em mim com uma estocada profunda, um grito de posse silencioso que reverberou em cada nervo do meu corpo. Erick não se movia apenas com prazer; ele se movia com a necessidade de marcar território, de provar que, apesar de todo o dinheiro do mundo, o único lugar onde ele realmente se sentia poderoso era dentro de mim. — Diz que você é minha — ele exigiu, o ritmo acelerando, o suor pingando do seu rosto no meu peito. — Diz que o Vico não é nada. Que ninguém mais importa. Eu o encarei, meus olhos fixos nos dele, sustentando a tempestade. Eu estava no limite, o prazer subindo como uma onda gigante na Praia do Vidigal. — Eu sou... de quem me conquista... todos os dias — respondi entre suspiros cortados. — E hoje... hoje você está ganhando, Lobo. Aquilo foi o suficiente para fazê-lo perder o resto do controle. Erick se entregou a uma selvageria que eu nunca tinha visto. Cada movimento era uma promessa sombria, cada toque uma reivindicação. O ambiente pobre do barraco, iluminado apenas por uma luz de rua que filtrava pela janela, transformou-se em um santuário de luxúria e drama. Éramos o Rei e a Rainha de uma terra de ninguém, unidos pelo que nos destruía. Quando o ápice veio, foi violento e absoluto. Um eclipse de sentidos que nos deixou trêmulos e exaustos em cima daquela mesa de madeira. Erick desabou sobre mim, seu coração batendo contra o meu como um tambor de guerra que finalmente encontrou a paz. Ficamos ali por um longo tempo, o som da chuva sendo a única trilha sonora. O bilionário e a cantora. O asfalto e o morro. O contrato que não existia no papel, mas que estava gravado na nossa pele. Erick se afastou um pouco, olhando para mim com uma vulnerabilidade que ele raramente permitia que alguém visse. Ele acariciou meu rosto, o polegar limpando uma lágrima que eu nem sabia que tinha caído. — Amanhã o Zeca cai — ele disse, a voz agora firme, mas sem a arrogância de antes. — E depois disso, eu vou construir um estúdio aqui. O seu estúdio. Com as suas regras. E ninguém, nem o Vico, nem ninguém da Ares Corp, vai colocar os pés lá sem a sua permissão. Eu sorri, puxando-o para um beijo casto e cansado. — E quanto custa esse seu novo plano, Erick? Ele me olhou seriamente, o brilho de posse ainda latente no fundo dos olhos. — Custa tudo o que eu sou. E eu acho que saí ganhando no negócio. A guerra estava longe de acabar. O morro ainda tinha seus segredos, o Zeca ainda estava nas sombras, e a imprensa logo descobriria o paradeiro do Lobo. Mas ali, naquele momento, as correntes tinham mudado de mãos. Erick achava que tinha me comprado, mas ele era o único que estava verdadeiramente preso. E eu? Eu finalmente tinha a batida perfeita para o meu próximo hit.
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