Ariane
A luz do amanhecer na Rocinha nunca pede licença; ela invade as frestas do telhado de zinco e as fendas das paredes de tijolo com uma insistência amarelada e quente. Acordei com o corpo pesado, uma lembrança vívida de cada toque de Erick, de cada centímetro daquela mesa de madeira que agora carregava a marca da nossa rendição mútua. Ele ainda dormia ao meu lado, um gigante confinado em um espaço pequeno demais para o seu ego, mas que parecia ter encontrado ali um tipo estranho de paz. O rosto de mármore estava relaxado, o peito subindo e descendo em um ritmo que eu quase desejei transformar em batida.
Levantei em silêncio, sentindo o arrepio do ar matinal na pele nua. Vesti uma camiseta larga e caminhei até o canto onde guardo meu caderno de composições. Minha mente era um turbilhão. A traição de Zeca, a possessividade asfixiante de Erick, o cheiro de chuva e o gosto de perigo... tudo isso estava pedindo para virar som.
Sentei-me no chão e comecei a escrever. As palavras fluíam como sangue de uma ferida aberta:
O metal precioso que você me estende tem o amargo sabor do ferro,
Sua chamada "segurança" é a cerca que me aprisiona no meu tormento.
Na cidade baixa você dita as regras, mas a favela jamais esquece,
Eu sou a pena que risca e traça um novo rumo para o seu enredo.
Era o eco da noite. A melodia já estava pronta no meu peito, um som grave, seco, como o baque de um coração contra o concreto. Eu estava inspirada, possuída por uma clareza que só o caos proporciona. Eu era a Rainha do Morro, e minha coroa era feita de rimas e resistência.
Mas então, o som do mundo lá fora mudou.
A Rocinha tem uma trilha sonora própria ao amanhecer: o barulho dos botijões de gás sendo carregados, o som dos motores das motos subindo a ladeira, o grito das vizinhas. Mas hoje, havia um vácuo. Um silêncio seletivo que me fez parar a caneta no meio de um verso.
Caminhei devagar até a janela. Afastei a cortina de pano desbotado apenas o suficiente para um olho ver.
Lá embaixo, na entrada da viela, três homens estavam parados. Eles não eram moradores comuns saindo para trabalhar. Estavam encostados em um muro descascado, as mãos escondidas sob as camisas largas, os olhos fixos exatamente na porta do meu barraco. Reconheci um deles: o "Pente", um dos braços direitos de Zeca. Ele não estava ali para me proteger. O olhar dele não tinha a admiração que os moleques do morro costumam ter por mim. Tinha a frieza de quem espera o momento certo para o abate.
Algo tinha mudado. A trégua forçada da noite anterior tinha expirado com o sol.
— Erick... — sussurrei, sem tirar os olhos da fresta.
Ele despertou instantaneamente. Não houve o lento retorno do sono; ele saltou para a consciência como um soldado. Em um segundo, ele estava de pé, a mão alcançando a arma que deixara sobre a cadeira.
— O que foi? — Sua voz era um rosnado baixo.
— O comitê de boas-vindas do Zeca. Eles estão lá fora. E não vieram pedir autógrafo.
Erick caminhou até o meu lado, seu corpo emanando uma tensão que parecia eletrizar o ar do cômodo. Ele olhou pelo vidro empoeirado e soltou um xingamento abafado.
— Eles estão cercando o perímetro. Devem ter percebido que minha equipe de extração está tendo dificuldade para subir. O Zeca quer terminar o serviço antes que o asfalto chegue com força total.
— Ele não quer só terminar o serviço, Erick — eu disse, sentindo um nó seco na garganta. — Ele quer dar o exemplo. Se ele me matar aqui, com você dentro de casa, ele prova que nem o seu dinheiro nem o seu poder valem nada no território dele.
Erick se virou para mim, segurando meus ombros. Seus olhos não tinham medo, mas tinham uma urgência que me assustava.
— Ariane, escute bem. Se eles tentarem entrar, você vai para o fundo, atrás daquela mureta de concreto da cozinha. Eu vou segurar a frente.
— Você ficou louco? — Eu o empurrei. — Você acha que está em um filme? Se você disparar uma arma aqui dentro, vai atrair o morro inteiro. A polícia vai subir atirando em tudo o que se move e os homens do Zeca vão transformar este barraco em uma peneira.
— Então qual é o plano, Rainha? — Ele perguntou, a ironia voltando, mas tingida de um respeito desesperado. — Você vai cantar para eles pararem?
— Não. Eu vou falar a única língua que eles respeitam mais do que o medo: a traição.
Peguei o rádio de pilha e o meu celular, que Erick me devolvera durante a noite. Meus dedos voaram pela tela. Eu precisava disparar a verdade antes que o primeiro tiro fosse dado. Enviei o vídeo do Zeca rindo, o vídeo dele recebendo o envelope da Ares Corp, para todos os grupos de moradores, para todas as rádios comunitárias e para os "frentes" das outras áreas do morro que odiavam o Zeca.
— O que você está fazendo? — Erick perguntou, observando-me com uma mistura de choque e fascínio.
— Estou tirando o chão dele. No momento em que esse vídeo viralizar — e aqui as coisas viralizam em segundos — o Zeca deixa de ser o líder injustiçado e vira o rato que vendeu a comunidade para o bilionário do asfalto. Ninguém morre por um rato.
Lá fora, ouvi o som de um celular apitando. Depois outro. E outro.
Os homens no muro começaram a se olhar. O Pente pegou o próprio telefone. Eu via a confusão em seus rostos, a hesitação. O poder do Zeca era baseado na ilusão de que ele era "um dos nossos". Eu acabara de quebrar o espelho.
— Agora — eu disse para Erick, meu coração martelando contra as costelas — você vai abrir essa porta.
— Você enlouqueceu? Eu não vou te expor assim!
— Confia em mim, Lobo. Você disse que queria aprender a ouvir. Então ouça o que acontece quando a verdade ganha ritmo.
Eu mesma caminhei até a porta e a escancarei.
O sol bateu no meu rosto, ofuscante. Erick estava logo atrás de mim, a mão no coldre, pronto para o m******e. O Pente e os outros dois homens se endireitaram, as mãos indo para a cintura. O ar ficou estático. Dava para ouvir o zumbido de uma mosca.
— E aí, Pente? — Gritei, minha voz ecoando pelas paredes estreitas da viela. — O vídeo é bom, não é? O Zeca parece bem feliz com o dinheiro do asfalto. É esse o homem por quem vocês vão morrer hoje? Por um cara que vendeu o Projeto Sombra por um envelope pardo?
As pessoas começaram a sair nas janelas. O burburinho crescia como uma onda. "É verdade?", "O Zeca traiu a gente?", "Olha o vídeo no grupo!".
O Pente olhou para mim, depois para Erick, e finalmente para o celular na sua mão. A lealdade do morro é um contrato de sangue, mas ninguém sangra por quem trai o próprio sangue.
— A gente recebeu ordem pra tirar vocês daqui, Ariane — o Pente disse, mas a voz dele não tinha mais a mesma firmeza.
— A ordem de um traidor não vale o chão que ele pisa — respondi, dando um passo à frente, para fora do barraco. — Vocês podem atirar. Podem matar a mim e ao homem que está tentando, do jeito torto dele, consertar a merda que o Zeca fez. Mas se fizerem isso, o morro inteiro vai saber que vocês são os cães de guarda de um rato.
Houve um longo silêncio. Erick estava tenso como uma corda de violino prestes a estourar. Eu sentia o calor dele atrás de mim, uma presença sólida, um âncora no meio da tempestade.
Lentamente, o Pente tirou a mão debaixo da camisa. Ele cuspiu no chão e guardou o celular no bolso.
— O Zeca tá lá na sede da rádio. Tentando apagar o incêndio. Se eu fosse vocês, saía logo daqui antes que a milícia ou a polícia aproveite o vácuo.
Ele sinalizou para os outros dois e eles começaram a descer a ladeira, sumindo nas curvas da favela.
Eu soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Minhas pernas fraquejaram e eu teria caído se Erick não tivesse me segurado pela cintura, me puxando contra o seu corpo firme.
— Você é a mulher mais perigosa que eu já conheci — ele sussurrou no meu ouvido, e havia um orgulho genuíno na sua voz.
— Eu avisei, Lobo. No asfalto você tem o terno. Aqui, eu tenho o eco.
Ele me olhou, e naquele momento, no meio daquela viela suja e sob o olhar de centenas de moradores, ele me beijou. Foi um beijo de aliança. O bilionário e a compositora, unidos pelo caos que criamos e pela verdade que decidimos enfrentar.
— O jogo ainda não acabou — ele disse, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos meus olhos. — Temos que ir até a rádio. Temos que terminar isso hoje.
— Então vamos — respondi, pegando meu caderno e guardando-o na mochila. — Eu tenho um refrão novo que o Zeca vai odiar ouvir.
A caminhada até o topo do morro estava começando. E, desta vez, o Rei do Asfalto não estava me protegendo; ele estava marchando ao meu lado.