Erick
O Leblon parecia outro planeta.
Quando o carro blindado desceu pela Avenida Niemeyer e o mar apareceu aberto à direita, tive a estranha sensação de estar atravessando uma fronteira invisível. Atrás de mim ficava o labirinto vivo da Rocinha, onde cada viela tinha olhos e cada silêncio carregava ameaça. À frente, o asfalto limpo, os prédios de vidro e os cafés onde as pessoas discutiam investimentos como se o mundo não tivesse cheiro de pólvora.
Meu telefone não parava de vibrar.
Chamadas. Mensagens. Alertas.
Escândalo.
Meu nome estava em todos os portais de notícia.
Fotos minhas entrando na favela. Vídeos borrados do meu carro sendo visto na subida da comunidade. Manchetes especulando sobre envolvimento com o chamado Projeto Sombra.
Uma crise perfeita.
— Senhor, a sede já sabe que o senhor voltou — disse Marcelo, meu chefe de segurança, no banco da frente. — O conselho quer uma reunião imediata.
Claro que quer.
Para eles, eu não tinha desaparecido por uma noite. Eu tinha desaparecido do tabuleiro.
Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos por um segundo. Ainda sentia o calor do corpo de Ariane contra o meu, a firmeza com que ela enfrentou três homens armados apenas com a própria voz.
Ela não era parte do meu mundo.
Mas, de alguma forma, já tinha se tornado o centro dele.
— Eles querem respostas — continuou Marcelo.
— Eles vão ter — respondi.
Só não as que esperam.
O carro parou diante do prédio espelhado da Ares Corp. O mesmo lugar onde decisões bilionárias eram tomadas em salas silenciosas com vista para o oceano.
Quando entrei no lobby, senti os olhares imediatamente.
Funcionários cochichando.
Assistentes fingindo trabalhar enquanto observavam.
O elevador subiu em silêncio até o último andar.
Assim que as portas se abriram, a tempestade começou.
— Erick, você enlouqueceu?
— O que diabos você estava fazendo naquela favela?
— A imprensa está destruindo a nossa reputação!
O conselho estava reunido na sala principal, todos de pé, como um tribunal improvisado. Gravatas perfeitas, rostos tensos, indignação calculada.
Pessoas que nunca tinham pisado em um lugar como a Rocinha estavam agora julgando o que aconteceu lá dentro.
Caminhei até a ponta da mesa e soltei o paletó na cadeira.
— Terminou? — perguntei.
O silêncio caiu como uma pedra.
— Você desaparece por quarenta e oito horas — disse Alberto, o mais velho do conselho — e volta envolvido em uma guerra comunitária. Você tem ideia do impacto disso para a empresa?
Olhei para ele.
— Tenho.
Puxei o celular do bolso e o conectei à tela da sala.
O vídeo apareceu.
Zeca.
O envelope.
A conversa.
A traição.
O áudio da negociação com o intermediário da milícia.
Ninguém falou por quase um minuto inteiro.
— O que é isso? — alguém murmurou.
— Isso — respondi — é a prova de que o líder comunitário que vocês estavam financiando vendeu a própria comunidade.
Alguns rostos empalideceram.
Outros ficaram rígidos.
— Nós não sabíamos disso — disse Alberto.
— Agora sabem.
Cruzei os braços.
— E sabem de outra coisa também. Esse homem está prestes a iniciar um conflito dentro da maior favela do Rio.
Uma diretora respirou fundo.
— Erick… isso não é problema da Ares Corp.
Olhei para ela com frieza.
— Foi a Ares Corp que colocou dinheiro naquela operação.
Silêncio.
A verdade é uma coisa curiosa. Quando finalmente aparece, ninguém sabe onde olhar.
— O que você pretende fazer? — perguntou Alberto.
A resposta já estava pronta.
— Encerrar isso.
— Como?
Peguei o telefone novamente.
Uma notificação apareceu.
Mensagem de Ariane.
“O Zeca está na rádio comunitária. Ele está tentando recuperar o controle.”
Meu peito apertou.
Eu conseguia imaginá-la perfeitamente naquele momento. Caderno na mochila. Olhos acesos. A mente funcionando mais rápido que qualquer estratégia corporativa.
Ela não precisava de mim para lutar.
Mas eu tinha prometido protegê-la.
Voltei a olhar para o conselho.
— Hoje à noite — disse — o nome da Ares Corp vai desaparecer dessa história.
— Erick, isso não é simples assim—
— É exatamente assim.
Caminhei até a janela enorme da sala. O mar se estendia até o horizonte, azul e tranquilo.
Um mundo limpo.
Organizado.
Mentiroso.
— Vocês passam a vida inteira acreditando que controlam tudo — falei, sem virar o rosto. — Mas o poder de verdade não está aqui.
Olhei para eles novamente.
— Está nas pessoas que vivem com as consequências das nossas decisões.
Ninguém respondeu.
Peguei o paletó.
— Onde você vai? — perguntou Alberto.
Abri a porta da sala.
— Terminar uma guerra que começou por causa de vocês.
Marcelo me alcançou no corredor.
— Vamos subir de novo?
Balancei a cabeça.
— Não.
— Então qual é o plano?
Parei por um segundo.
A verdade era simples.
— O Zeca perdeu o controle do morro.
— Isso é bom, não?
— Não necessariamente.
Quando um poder cai, outro sempre tenta ocupar o espaço.
Milícia.
Polícia.
Facções.
Ou alguém pior.
Entramos no elevador.
— Senhor — disse Marcelo — com todo respeito… por que isso importa tanto?
Pensei na resposta enquanto as portas se fechavam.
Na coragem de Ariane.
Na forma como ela tinha enfrentado homens armados apenas com palavras.
No beijo no meio da viela.
Ela não era parte do meu império.
Ela era algo muito mais perigoso.
Alguém que me fazia questionar tudo.
— Porque eu prometi a ela — respondi.
Marcelo assentiu.
Quando o elevador chegou ao térreo, já havia jornalistas na porta do prédio.
Câmeras.
Microfones.
Perguntas sendo gritadas.
“Erick Lobo, o senhor tem ligação com o conflito na Rocinha?”
“É verdade que a Ares Corp financia milícias?”
“Quem é a mulher que estava com o senhor?”
Ignorei todos.
Entrei no carro.
A porta blindada fechou.
— Rocinha? — perguntou Marcelo.
Olhei para o celular novamente.
Outra mensagem de Ariane apareceu.
“Se você vai vir, vem rápido. O Zeca vai tentar transformar a rádio em palco.”
Sorri pela primeira vez naquele dia.
— Não — respondi.
Marcelo franziu a testa.
— Então para onde?
Olhei pela janela.
O mar brilhava sob o sol da tarde.
— Para a guerra.
Porque algumas batalhas não se vencem com dinheiro.
E algumas mulheres não se protegem com promessas.
Liguei o telefone.
— Prepare a equipe — disse. — Hoje a gente derruba o Zeca.
E paga o preço disso depois.
Porque amar uma rainha do morro significava aceitar uma verdade simples:
O asfalto cobra juros.
Mas a favela cobra sangue.