Capítulo 19 : Aviso no Morro

1200 Words
Ariane A Rocinha muda de dono mais rápido do que muda de clima. Basta um tiro certo, um erro pequeno ou um segredo revelado na hora errada. Quando o poder troca de mãos, o morro inteiro sente antes mesmo de alguém anunciar. O ar fica pesado. As pessoas falam mais baixo. As motos passam mais devagar pelas vielas. E naquele fim de tarde, eu sabia que alguma coisa tinha virado. Eu estava sentada no degrau da porta da casa da Dona Lúcia, olhando o céu que começava a ficar laranja sobre o emaranhado de fios elétricos. Depois da confusão na rádio comunitária, o morro tinha entrado em um estado estranho de suspensão. Zeca tinha sumido. Alguns diziam que ele fugiu. Outros juravam que ele tinha sido levado. Ninguém sabia ao certo. Mas uma coisa era clara: o trono estava vazio. E trono vazio nunca fica vazio por muito tempo. Meu celular vibrava de vez em quando com mensagens de gente comentando o vídeo que eu tinha espalhado. O rosto de Zeca recebendo o envelope já estava rodando em todos os grupos de w******p da comunidade. Traidor. Vendido. Covarde. A reputação dele estava sendo enterrada em tempo real. Mas isso não me deixava tranquila. Na favela, quando um rei cai, alguém mais brutal costuma subir. Foi então que ouvi passos rápidos subindo a viela. Reconheci o jeito antes mesmo de ver o rosto. — Ari! Era a Jéssica. Ela apareceu na curva da escada respirando rápido, o cabelo preso num coque bagunçado e o olhar inquieto. Jéssica tinha crescido comigo ali no morro. A gente dividia lanche na escola quando criança e, anos depois, dividia segredos que ninguém mais podia ouvir. Quando ela estava com aquela expressão, significava problema. Grande problema. — O que foi? — perguntei, levantando. Ela olhou ao redor antes de responder. — A gente precisa falar. O jeito que ela disse aquilo fez meu estômago apertar. Entramos para dentro da casa da Dona Lúcia. O ventilador velho girava devagar no teto, espalhando o cheiro de café e sabão. Assim que a porta fechou, Jéssica falou. — O Kido assumiu. Por um segundo, o nome ficou suspenso no ar como um tiro que ainda não caiu. Kido. Eu já tinha ouvido esse nome antes. Não muito. Mas o suficiente. — Desde quando? — perguntei. — Desde hoje de manhã. Ela cruzou os braços. — O Zeca caiu junto com o antigo dono do morro e o Kido pegou o controle dos pontos antes que qualquer outra facção encostasse. Respirei fundo. Então era isso. O novo rei. — E o que isso tem a ver comigo? Jéssica me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais absurda do mundo. — Ariane… você tá aparecendo em vídeo no meio da rua com um bilionário do asfalto. Ah. Então era isso. Eu me encostei na parede. — Erick não é o problema. — Pra você não — respondeu ela rápido. — Mas pro morro é outra história. O ventilador continuava girando. Devagar. Pesado. — O Kido não gostou — continuou Jéssica. — Nem um pouco. Meu peito apertou. — O que exatamente ele disse? Ela hesitou. E isso foi pior do que qualquer resposta imediata. — Jess. Ela suspirou. — Ele falou que não vai permitir que uma mulher do morro vire ponte pra empresário entrar aqui dentro. A frase caiu como pedra. Eu já tinha ouvido esse tipo de lógica antes. Na cabeça de certos homens, mulheres não têm escolha própria. Elas são território. Símbolo. Propriedade. — Então agora eu virei problema político? — murmurei. — Mais ou menos. Jéssica se aproximou. — Ari… ele acha que você pode trazer o asfalto pra dentro da Rocinha. Um riso curto escapou de mim. — Engraçado. O Zeca pensava exatamente a mesma coisa. — A diferença — disse ela — é que o Kido não negocia. Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Eu sabia o tipo de homem que ela estava descrevendo. Frio. Rápido. E obcecado por controle. — Ele mandou alguém falar comigo? — perguntei. — Não. — Então como você sabe disso tudo? Jéssica desviou o olhar por um segundo. — Porque meu primo trabalha na segurança da quadra. Aquilo explicou muita coisa. A quadra era onde as decisões do morro aconteciam agora. O novo centro de poder. — Ele ouviu o Kido falando com os caras — continuou ela. — Disse que você virou assunto. Isso nunca era bom. No morro, quando seu nome vira assunto entre homens armados, significa que alguém está pensando no que fazer com você. Não se você merece viver. Mas como. Ou por quanto tempo. Caminhei até a janela e olhei para fora. A favela parecia a mesma. Crianças correndo. Uma moto subindo a ladeira. Uma senhora conversando na porta. Mas eu sabia que por baixo daquela rotina havia uma tensão nova. O tipo de tensão que antecede decisões perigosas. — E o Erick? — perguntou Jéssica. Virei para ela. — O que tem ele? — O Kido sabe que vocês estavam juntos. Claro que sabe. No morro nada fica escondido por muito tempo. — Ele chamou o Erick de quê? — perguntei. Jéssica fez uma careta. — Playboy engravatado. Suspirei. — Original. Ela não riu. — Ari… isso é sério. Eu sabia. Mais sério do que ela imaginava. Porque Kido não estava errado em uma coisa. Erick representava o asfalto. Dinheiro. Poder. Influência. Tudo que líderes de favela costumam desconfiar. Mas Erick também tinha se colocado no meio daquela guerra por minha causa. E isso complicava tudo. — O que o Kido pretende fazer? — perguntei. Jéssica respondeu baixo. — Ele quer te chamar pra conversar. Meu coração bateu mais forte. Conversas com novos chefes nunca eram apenas conversas. — Quando? — Hoje à noite. Fiquei em silêncio. A Rocinha lá fora estava ficando mais escura. As luzes começavam a acender uma a uma, como estrelas improvisadas nas paredes das casas. — Ari — disse Jéssica — talvez seja melhor você sair do morro por um tempo. Balancei a cabeça. — Não. — Você tá louca? — Talvez. Peguei minha mochila. O caderno de composições ainda estava lá dentro. Minha coroa invisível. Minhas palavras. — Esse é meu lugar — falei. Ela me olhou com preocupação. — Mesmo com o Kido no controle? Respirei fundo. — Principalmente agora. Porque uma coisa era verdade: O morro sempre respeitou duas coisas. Poder. E coragem. Se eu fugisse, viraria só mais um nome esquecido na história da comunidade. Mas se eu enfrentasse o novo dono da Rocinha… Talvez eu conseguisse algo muito mais perigoso. Respeito. Meu celular vibrou naquele momento. Uma mensagem de Erick. “Estou voltando.” Meu coração acelerou. A guerra ainda não tinha terminado. Na verdade, talvez ela estivesse apenas começando. Olhei para Jéssica. — Parece que o playboy engravatado vai subir o morro de novo. Ela arregalou os olhos. — Ariane, pelo amor de Deus— Guardei o telefone. — Relaxa. Ela cruzou os braços. — Por quê? Olhei pela janela mais uma vez. Lá embaixo, a noite da Rocinha começava a respirar. — Porque se o Kido quer conversa… — murmurei. Fechei a mochila. — Então ele vai ter uma.
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