Erick
A subida para a Rocinha sempre parecia mais longa à noite.
Não eram só a curva perigosa e o traçado estreito da Niemeyer. Era, sobretudo, a clara sensação de cruzar uma fronteira invisível entre duas realidades que optavam por se ignorar.
No mundo do "asfalto", a força reside no silêncio dos contratos, das reuniões de alto nível e dos números capazes de aniquilar existências sem ruído.
Na "favela", o poder se exibe, circula armado e monitora cada movimento, com olhos atentos em todos os cantos.
Meu carro blindado subia devagar, escoltado por duas motos da equipe de segurança. As luzes da favela se espalhavam pela encosta como constelações improvisadas.
Centenas de vidas se acumulavam, amontoadas.
Em algum lugar no meio daquele emaranhado, estava Ariane.
Meu celular vibrou no banco ao lado.
Por um instante, imaginei ser mais uma mensagem dela.
Mas o número era desconhecido.
Uma mensagem de texto.
A frase, direta e curta, era um aviso:
“Volta pro asfalto. O morro não é teu.”
Fiquei encarando a tela por vários segundos.
Sem nome.
Sem qualquer explicação.
Só a ameaça.
— Senhor? — perguntou Marcelo do banco da frente.
Mostrei o celular para ele.
Ele leu em silêncio.
Depois soltou um suspiro curto.
— Chegou rápido.
— O quê?
— O aviso.
Guardei o telefone no bolso.
— Você acha que é do tal Kido?
Marcelo assentiu devagar.
— Provavelmente.
A moto da frente buzinou duas vezes, avisando que estávamos entrando na parte mais estreita da subida.
A favela começava ali.
Barracos colados uns nos outros.
Vielas iluminadas por lâmpadas penduradas em fios improvisados.
O cheiro de comida de rua misturado com gasolina.
E olhares.
Sempre os olhares.
Pessoas observando o carro blindado passar como se fosse um animal estranho atravessando território alheio.
— A equipe já espalhou gente lá em cima — continuou Marcelo. — Mas se o Kido realmente assumiu o controle…
Ele não terminou a frase.
Não precisava.
Se o novo chefe da Rocinha quisesse mandar um recado, teria dezenas de maneiras de fazer isso.
Algumas discretas.
Outras… nem tanto.
O carro parou.
— Daqui pra frente a gente vai a pé — disse Marcelo.
Olhei pela janela.
A viela era estreita demais para o carro continuar.
Desci.
O calor da noite pairava, denso, sobre a comunidade.
A Rocinha à noite tinha uma trilha sonora própria, bem diferente do burburinho diurno.
Ouvia-se uma música abafada ao longe.
Em algum barraco, o som de uma televisão ligada.
E, por toda parte, ecos de risadas.
Mas também havia uma tensão no ambiente.
Algo que meu instinto reconheceu imediatamente.
Observação.
Estávamos sendo observados.
Subimos a escada de concreto em silêncio.
Marcelo na frente.
Dois seguranças atrás.
E eu no meio.
Era um contraste quase absurdo.
Homens de terno e fone de ouvido caminhando por um lugar onde a autoridade costumava usar chinelo e fuzil.
Meu celular vibrou de novo.
Dessa vez era Ariane.
“Onde você está?”
Respondi rápido.
“Subindo.”
Três pontos apareceram.
Ela estava digitando.
“Erick… talvez não seja uma boa ideia você vir agora.”
Sorri.
Claro que não era.
Mas algumas decisões já tinham sido tomadas.
“Tarde demais.”
Ela demorou alguns segundos para responder.
“Então anda rápido.”
Guardando o telefone, senti algo mudar no ar.
Marcelo parou.
Os dois seguranças atrás de mim também.
— O que foi? — perguntei.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Silêncio demais.
E ele estava certo.
A viela que deveria estar cheia de gente estava quase vazia.
Algumas portas fechadas.
Janelas com cortinas mexendo.
Mas poucas pessoas na rua.
— Emboscada? — perguntei.
Marcelo não respondeu.
Ele apenas fez um gesto curto com a mão.
Os seguranças se espalharam um pouco.
Passamos por mais uma curva da escada.
E então eu vi.
Três homens parados no topo da viela.
Nenhum deles escondia o que carregava.
Fuzis pendurados no peito.
Olhares frios.
Eles não estavam ali por acaso.
— Boa noite — disse Marcelo calmamente.
Os homens não responderam.
Um deles deu um passo à frente.
Alto.
Magro.
Olhos escuros que pareciam medir cada detalhe da situação.
— Tu que é o empresário?
A pergunta veio direto para mim.
— Depende de quem está perguntando.
Ele soltou um sorriso curto.
— Eu só tô entregando o recado.
Então ele tirou algo do bolso.
Um papel dobrado.
Jogou no chão na minha frente.
— Ordem do Kido.
Olhei para o papel por um segundo antes de pegá-lo.
Era simples.
Uma frase escrita à mão.
“Último aviso.”
Levantei os olhos.
— Esse é o jeito dele de dar boas-vindas?
O homem deu de ombros.
— Ele disse que tu é inteligente.
— Sou.
— Então entende a mensagem.
Marcelo se aproximou um passo.
— O senhor Erick não veio causar problema.
O homem olhou para ele.
Depois voltou a olhar para mim.
— Todo mundo que sobe o morro diz isso.
O silêncio se estendeu.
A viela parecia ainda mais estreita agora.
Qualquer movimento errado poderia transformar aquilo em uma troca de tiros.
E uma troca de tiros ali seria um desastre.
Respirei fundo.
— Eu só quero falar com a Ariane.
O nome dela mudou o clima imediatamente.
Os três homens trocaram olhares.
— Então é verdade — disse um deles.
— O quê? — perguntei.
— Que tu tá subindo morro por causa de mulher.
Sorri de leve.
— Já fiz coisas mais idiotas.
O homem alto me observou por alguns segundos.
Depois cuspiu no chão.
— O problema não é tu querer mulher.
Ele apontou para mim com o queixo.
— O problema é tu querer essa mulher.
Senti meu maxilar apertar.
— Isso é decisão minha.
Ele balançou a cabeça.
— Não aqui.
Outro silêncio pesado caiu.
Então ele falou a frase que eu sabia que viria.
— O morro não é teu.
A mesma frase da mensagem.
Então era oficial.
O aviso tinha dono.
— Talvez não seja — respondi calmamente. — Mas também não é seu.
Os dois homens atrás dele se mexeram imediatamente.
Marcelo colocou a mão perto da arma.
O ar ficou elétrico.
Perigo puro.
Mas o homem alto levantou a mão, impedindo os outros de reagirem.
Ele continuou me olhando.
Como se estivesse tentando entender alguma coisa.
— Tu não tem medo mesmo, né?
Sim, eu tinha medo de muita coisa.
Medo de perder o controle.
Medo de errar nos cálculos.
Medo de colocar Ariane em perigo.
Mas daquele momento específico? Pensei na resposta por um segundo.
Não.
— Medo não resolve problema — respondi.
Ele soltou um riso baixo.
— Playboy maluco.
Então deu um passo para o lado.
Abrindo caminho na escada.
— Sobe.
Marcelo franziu a testa.
— É sério?
— O recado já foi dado — disse o homem. — Agora a escolha é dele.
Olhei para o papel na minha mão.
Último aviso.
Dobrei o papel devagar e guardei no bolso.
— Diz pro Kido uma coisa — falei.
O homem levantou uma sobrancelha.
— O quê?
Subi o primeiro degrau passando por ele.
— Eu não sou muito bom em ouvir avisos.
Passei por eles.
Marcelo me seguiu imediatamente.
Os seguranças também.
Quando já estávamos alguns metros acima, ouvi o homem falar atrás de mim:
— Então tu vai aprender do jeito difícil.
Continuei subindo.
Porque havia uma verdade que aquele recado não entendia.
Eu não estava ali pelo morro.
Nem pelo poder.
Nem pela guerra.
Eu estava ali por Ariane.
E algumas guerras…
A gente aceita perder tudo para lutar.