Capítulo 21 : O Nome Proibido

1144 Words
Ariane O silêncio é uma miragem na Rocinha. Mesmo nos momentos de aparente calma, a noite é tecida por uma trilha sonora sutil, mas constante: o motor de uma motocicleta que vence a inclinação da rua, o ressoar de uma televisão acesa em uma moradia distante, a cadência de risadas vindas de alguma janela. Contudo, naquela noite em particular, essa familiar melodia urbana carregava uma nota dissonante. Uma sensação de tensão pairava no ar, como se toda a favela estivesse em um compasso de espera por algo iminente. Eu me encontrava na laje da casa de Dona Lúcia. Minhas pernas balançavam no espaço aberto enquanto meu caderno repousava, aberto, em meu colo. As luzes da cidade lá embaixo pareciam pertencer a um universo distinto. O asfalto, cintilante à distância, parecia alheio às pequenas batalhas que eclodiam diariamente ali, no alto. Passei a caneta devagar pelo papel. “Entre o morro e o mar, o perigo aprende a respirar…” Parei. Fechei o caderno. Minha cabeça estava longe da música. Desde que Jéssica falou o nome dele, uma memória antiga ficava batendo na minha mente como um eco esquecido. Kido. Era um nome que eu conhecia. Não o chefe. Não o traficante que agora dominava metade da Rocinha. Mas sim o garoto. O menino. Aquele que, assim como eu, corria pelas mesmas vielas e subia as mesmas escadas de concreto. Naquela época, porém, ele ainda não se chamava Kido. — Ari. A voz de Jéssica surgiu atrás de mim. Virei a cabeça. Ela estava parada na porta da laje, olhando para mim com aquela expressão que mistura preocupação e curiosidade. — Você tá aí em cima faz meia hora — disse ela. — Eu sei. Ela se aproximou e sentou ao meu lado. Ficamos alguns segundos em silêncio, olhando a cidade lá embaixo. Até que eu perguntei: — Jess… o Kido sempre teve esse nome? Ela franziu a testa. — Como assim? — Antes. — Antes de virar chefe. Ela ficou me olhando por um momento. Então algo mudou no rosto dela. — Ari… Meu estômago apertou. — O quê? Ela respirou fundo. — Você tá pensando no mesmo que eu? Olhei para frente, para as luzes distantes do Leblon. Um rosto antigo começou a surgir na minha memória. Olhos escuros. Um sorriso torto. Um garoto magro demais para a própria idade. — Caio… — murmurei. Jéssica fechou os olhos. — É. Meu coração deu um salto dentro do peito. Caio. O menino que cresceu duas vielas abaixo da minha. O menino que dividia pão de queijo comigo na porta da escola. O menino que sempre aparecia quando alguém mexia comigo na rua. Ele nunca foi o mais forte. Nem o mais corajoso. Mas sempre foi o mais… presente. — Não pode ser — falei. Jéssica deu um suspiro. — Eu só descobri hoje também. O vento da noite passou pela laje, levantando algumas folhas do meu caderno. Minha cabeça começou a girar. Memórias. Pequenos momentos esquecidos. Caio andando ao meu lado depois da aula. Caio brigando com dois garotos mais velhos porque eles me chamaram de “metida”. Caio sentado no muro enquanto eu cantava. E o jeito que ele sempre me olhava. Eu nunca tinha entendido aquele olhar. Na época, parecia apenas amizade. Agora… — Ele sumiu quando a gente tinha o quê… quinze anos? — perguntei. — Dezesseis — corrigiu Jéssica. Ela cruzou os braços. — Diziam que ele entrou pro movimento lá na parte de cima do morro. Isso era comum. Muitos meninos seguiam esse caminho. Alguns voltavam. Muitos não. — Mas ninguém nunca falou que ele virou… isso — continuei. — Porque ele mudou de nome. — Kido. Ela assentiu. Fiquei olhando para o nada por um longo tempo. Então soltei uma risada curta. — Isso é absurdo. — Por quê? — Porque Caio era o garoto mais quieto do morro. — E agora ele é o cara que manda fuzil parar de atirar — respondeu Jéssica. Não havia humor na voz dela. A transformação parecia impossível. Mas, ao mesmo tempo… fazia sentido. O morro tem essa capacidade. Ele pega crianças comuns e molda líderes, monstros ou fantasmas. Depende do caminho. — Ari — disse Jéssica — tem mais uma coisa. Meu corpo ficou rígido. — O quê? Ela hesitou. — Você lembra da última vez que viu ele? Eu lembrava. Claro que lembrava. Era uma tarde quente. Eu estava na escada perto da quadra cantando com algumas amigas. Caio estava sentado no corrimão de concreto, quieto como sempre. Quando todo mundo foi embora, ele ficou. Só nós dois. Ele parecia nervoso. Estranho. — Lembro — murmurei. — Ele tentou te contar uma coisa, né? Meu peito apertou. Sim. Ele tentou. Mas eu não deixei. Porque naquele mesmo dia eu estava apaixonada pela ideia de ir embora do morro, virar cantora, viver uma vida maior que aquelas vielas. Eu não quis ouvir. — Eu fui embora antes dele terminar — falei. Jéssica assentiu devagar. — Pois é. Ela olhou para mim com cuidado. — Meu primo disse que o Kido falou seu nome hoje. Meu coração começou a bater mais forte. — O que ele disse? — Que ninguém encosta em você sem passar por ele primeiro. Fiquei em silêncio. O vento continuava soprando devagar pela laje. — Isso não parece ameaça — falei. — Não. — Parece proteção. Jéssica me olhou de lado. — Ou obsessão. A palavra ficou pairando no ar. Obsessão. Eu pensei nos anos que tinham passado. No garoto quieto que desapareceu. No homem que voltou controlando o morro inteiro. E em como ele tinha reagido ao saber de mim… e de Erick. — Ele sabe do Erick — falei. — Todo mundo sabe. Isso era verdade. Na Rocinha, histórias se espalham mais rápido que fogo em barraco de madeira. — Então isso complica tudo — murmurei. Jéssica soltou uma risada nervosa. — Complica? Ela apontou para mim. — Ariane, você tem um bilionário subindo o morro por sua causa… Depois apontou para baixo, na direção da quadra. — …e um chefe de facção que aparentemente cresceu apaixonado por você. Respirei fundo. Quando ela colocava assim… Parecia ainda mais perigoso. Meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem de Erick. “Estou quase chegando.” Meu coração apertou. Porque agora havia algo que ele ainda não sabia. Algo que poderia transformar aquela situação em pólvora pura. Olhei para Jéssica. — Jess. — O quê? Guardei o celular. — Acho que o novo dono da Rocinha… ainda é o garoto que eu deixei falando sozinho naquela escada. Ela me observou com cuidado. — E você acha que isso é bom ou r**m? Olhei para o céu escuro sobre o morro. As estrelas m*l apareciam por causa das luzes da cidade. Mas ainda estavam lá. — Eu acho — murmurei — que isso pode ser muito pior.
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