Capítulo 22 : Território Inimigo

959 Words
Erick A primeira regra do poder no asfalto é simples. Controle o ambiente. Salas fechadas. Segurança. Contratos assinados antes de qualquer risco aparecer. No meu mundo, guerra acontece em silêncio e termina com uma assinatura no rodapé de um documento. Mas enquanto eu subia a última escada da Rocinha naquela noite, ficou claro que nenhuma dessas regras funcionava ali. Eu estava sozinho. Marcelo tinha insistido em vir. A equipe também. Mas eu mandei todos ficarem na base da subida. Quanto mais homens comigo, maior seria a chance de alguém interpretar aquilo como invasão. E naquela favela, invasão era sinônimo de tiro. Então subi sozinho. Sem terno. Sem escolta. Sem as proteções que normalmente cercavam cada passo da minha vida. O morro respirava ao meu redor. O cheiro de comida frita misturado com cerveja barata vinha de algum bar improvisado. Uma música de funk ecoava distante, vibrando nas paredes de concreto e tijolo cru. Mas não era isso que dominava o ambiente. Eram os olhares. Eles estavam em todos os lugares. Homens encostados em muros. Mulheres sentadas em cadeiras de plástico nas portas das casas. Adolescentes com celulares na mão. Todos me observando. Eu era uma anomalia naquele cenário. Um corpo estranho. O playboy do asfalto caminhando em território onde dinheiro não comprava respeito. Quando virei uma viela estreita, dois garotos que estavam sentados em uma moto pararam de conversar imediatamente. Um deles falou baixo para o outro. — É ele. A palavra correu mais rápido do que eu. Ele. Não Erick. Não empresário. Não dono da Ares. Só ele. O cara que subiu o morro por causa da Ariane. Continuei andando. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. No asfalto, meu nome abria portas. Aqui, ele apenas chamava atenção. Passei por uma pequena mercearia iluminada por uma lâmpada fraca. O dono estava parado atrás do balcão, olhando para mim como se estivesse assistindo a uma cena estranha. Uma criança puxou a camisa da mãe. — Mãe, quem é ele? A mulher respondeu baixo. — Fica quieto. Eu entendi naquele momento. No asfalto, eu era o homem que controlava bilhões. Aqui… Eu era apenas um visitante. E os visitantes raramente tinham poder. Subi mais algumas escadas e parei por um instante. Lá embaixo, as luzes da cidade brilhavam como sempre. O Leblon parecia tranquilo. Seguro. Distante. Um mundo inteiro separado por poucos quilômetros. O celular vibrou no meu bolso. Mensagem de Ariane. “Onde você está?” Olhei ao redor antes de responder. “Perto da quadra.” A resposta veio quase instantaneamente. “Não entra lá sozinho.” Sorri de leve. Tarde demais. Guardei o telefone. Quando virei a última esquina, a quadra apareceu. Era maior do que eu imaginava. Luzes fortes iluminavam o espaço aberto. Algumas motos estavam estacionadas perto do portão. Um grupo de homens conversava perto da entrada. Eles pararam quando me viram. O silêncio caiu de repente. Era como se alguém tivesse desligado o som do ambiente. Caminhei até o portão. Um dos homens deu dois passos à frente. — Tá perdido, patrão? A pergunta veio carregada de ironia. — Não. Ele me mediu de cima a baixo. — Então explica. Olhei direto nos olhos dele. — Estou procurando o Kido. O nome causou reação imediata. Os outros homens se entreolharam. — O chefe não tá recebendo visita — disse ele. — Diz pra ele que é o Erick. Ele soltou um riso curto. — A gente sabe quem tu é. Claro que sabiam. Na Rocinha, informação circula mais rápido que internet. — Então já economizamos tempo — respondi. O homem coçou a barba. — E por que o chefe ia querer falar contigo? Pensei na resposta. No asfalto, eu diria algo sobre parceria, negociação ou investimento. Aqui… Aquilo soaria como provocação. Então falei a verdade. — Porque essa guerra também é minha agora. Os homens trocaram olhares novamente. Um deles pegou o celular. Provavelmente avisando alguém lá dentro. Esperei. A tensão no ar era quase física. Era estranho estar ali sem controle nenhum da situação. Sem saber quem estava assistindo. Sem saber quem estava decidindo meu destino. Foi nesse momento que eu entendi algo importante. Dinheiro não comprava poder ali. Dinheiro podia comprar armas. Informação. Proteção. Mas respeito? Respeito precisava ser conquistado. E geralmente vinha acompanhado de risco. O homem que tinha mandado mensagem guardou o celular. — O chefe quer saber uma coisa. — Qual? Ele me encarou. — Por que tu continua subindo aqui? A pergunta era simples. Mas a resposta era mais complicada. Pensei em Ariane. Na primeira vez que vi ela cantar na laje. Na forma como enfrentou três homens armados apenas com palavras. No beijo no meio da viela. Respirei fundo. — Porque tem gente aqui que vale a pena proteger. O homem levantou uma sobrancelha. — Tu tá falando da Ariane. Não era uma pergunta. — Sim. Ele balançou a cabeça devagar. — Então tu é mais louco do que eu pensei. — Já ouvi isso antes. Mais alguns segundos de silêncio. Então ele deu um passo para o lado. Abrindo o portão da quadra. — Entra. Parei por um instante. — O Kido está aí dentro? — Tá. — E ele quer falar comigo? O homem deu um sorriso que não tinha nada de amigável. — Quer. Entrei. O portão fechou atrás de mim com um barulho metálico. E naquele momento ficou completamente claro: Eu tinha acabado de cruzar uma linha que não existia no asfalto. Ali dentro, contratos não valiam nada. Advogados não resolviam conflitos. E meu sobrenome não tinha peso nenhum. Ali dentro… Eu estava em território inimigo. E pela primeira vez em muito tempo, percebi algo que raramente sentia. Incerteza. Porque se aquele encontro desse errado… Não haveria negociação possível. Só consequências.
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