Capítulo 23 : O Estúdio

1225 Words
Ariane O morro acorda antes do sol. Não é romantização. É necessidade. Quando a primeira luz começa a bater nos telhados de zinco da Rocinha, já tem gente carregando botijão de gás, criança correndo com mochila nas costas e moto subindo ladeira com pão quente preso na garupa. Naquela manhã eu acordei antes de todo mundo. Não por medo. Pela primeira vez em dias… por esperança. Eu estava sentada na laje da casa da Dona Lúcia com meu caderno aberto, o café ainda quente na caneca lascada que ela sempre me emprestava. O vento da manhã era fresco, carregando o cheiro de pão assando na padaria da viela de baixo. Era raro o morro parecer tranquilo. Mas naquele momento parecia. Talvez fosse só o silêncio antes da próxima confusão. Porque no morro sempre tem uma próxima. Passei a caneta devagar no papel. Mas dessa vez eu não estava escrevendo letra de música. Eu estava desenhando. Um quadrado. Outro. Algumas setas. Anotações bagunçadas. — Isso é o quê? Quase derrubei o café. Virei rápido. Erick estava encostado no batente da porta da laje. Cabelo bagunçado. Camisa amarrotada. Cara de quem claramente não dormiu quase nada. Mesmo assim… ele parecia estranhamente em paz. — Você assustou — murmurei. Ele deu um meio sorriso. — Desculpa. Caminhou até mim e olhou para o caderno. — Então… isso é arquitetura moderna ou eu devo me preocupar? Mostrei o desenho. — Isso aqui — disse — é o começo do nosso estúdio. Ele ficou olhando o papel por alguns segundos. Depois levantou os olhos para mim. — Nosso? — Não se empolga. Revirei os olhos. — É da comunidade. Ele sentou ao meu lado no chão da laje. Por um momento ficamos em silêncio olhando o desenho improvisado. — Você estava falando sério — disse ele. — Sobre? — O estúdio. Fechei o caderno por um segundo. — Sempre estive. A ideia tinha nascido quase como uma provocação entre nós dois. Naquela noite louca no barraco, entre tensão, perigo e uma conversa que parecia mais briga do que planejamento. Mas para mim… aquilo nunca foi brincadeira. — Sabe quantos moleques aqui no morro fazem música? — perguntei. — Imagino que muitos. — Centenas. Olhei para as casas empilhadas à nossa frente. — Mas a maioria grava no celular. Em banheiro. Dentro de armário cheio de roupa. Ou na rua com moto passando atrás. Ele ouviu em silêncio. — Um estúdio de verdade aqui… — continuei — mudaria muita coisa. Erick apoiou os cotovelos nos joelhos. — Então me explica. — O quê? — O plano. Abri o caderno de novo. Apontei para o desenho. — Aqui seria a sala de gravação. Ele inclinou a cabeça. — Pequena. — Precisa ser. Expliquei apontando cada detalhe improvisado. — Paredes com espuma acústica. — Um microfone decente. — Interface simples. — Computador com software de produção. Ele levantou uma sobrancelha. — Você sabe bastante sobre isso. — Eu sou compositora, lembra? — Justo. Continuei explicando. — Aqui fica a cabine de voz. — Aqui a mesa de edição. — E aqui… Apontei para o último quadrado. — Espaço aberto para os moleques ensaiarem. Ele olhou para mim. — Você pensou em tudo. Balancei a cabeça. — Ainda não. — O que falta? Fechei o caderno devagar. — Falta o lugar. O silêncio voltou por alguns segundos. Até que Erick perguntou: — E onde você quer construir isso? Olhei para baixo da laje. Para uma construção abandonada duas vielas abaixo. Um galpão velho que já foi oficina anos atrás. — Ali. Ele seguiu meu olhar. — Parece… caindo aos pedaços. — Está. — Então vai custar caro. Sorri. — Agora você está falando sua língua. Ele soltou uma risada baixa. — Ariane… — O quê? — Você sabe que isso não vai ser simples. — Nada aqui é simples. Eu sabia disso melhor do que qualquer um. No morro, projetos comunitários não dependiam só de dinheiro. Dependiam de algo muito mais delicado. Permissão. E todos nós sabíamos quem controlava isso agora. Kido. Meu estômago apertou só de pensar. Erick percebeu. — Você está pensando nele. Não era uma pergunta. — Estou. Ele ficou em silêncio por um momento. — Eu falei com ele ontem. Meu coração acelerou. — E? — Ele não gostou de mim. — Isso não é novidade. — Nem um pouco. Erick passou a mão no rosto cansado. — Mas ele também não pareceu alguém que toma decisões impulsivas. Olhei para ele. — Você percebe que está descrevendo um líder de facção como se fosse um executivo? — Pessoas com poder costumam ter padrões parecidos. Suspirei. Talvez ele estivesse certo. Talvez não. Mas uma coisa eu sabia. Se o estúdio fosse existir… Precisaríamos passar por Kido. — Ari — disse Erick de repente. — Hum? Ele pegou o caderno das minhas mãos. Olhou novamente o desenho. — Vamos fazer isso direito. — Como assim? — Não só um estúdio. — O quê então? Ele pensou por um segundo. — Um centro cultural. Franzi a testa. — Isso parece caro. — É. — Muito caro? — Muito. Cruzei os braços. — Você está tentando me impressionar? — Não. Ele me devolveu o caderno. — Estou tentando resolver o problema pela raiz. — Que raiz? Ele apontou para o morro inteiro à nossa frente. — Falta de oportunidade. Fiquei olhando para ele. — Você realmente acredita nisso? — Acredito que a música salvou você. Meu peito apertou um pouco. — Talvez. — Então imagina quantos outros podem ter a mesma chance. Por alguns segundos não consegui responder. Porque ele estava certo. Eu só estava ali. Viva. Inteira. Forte. Por causa da música. O vento da manhã soprou mais forte pela laje. Em algum lugar do morro alguém começou a tocar um beat alto em uma caixa de som. Ritmo seco. Grave. Vida. — Tá bom — falei finalmente. Erick levantou uma sobrancelha. — Tá bom o quê? — A gente faz. — O estúdio? — O centro cultural. Ele sorriu. Mas então acrescentei: — Se o Kido deixar. O sorriso dele diminuiu um pouco. — Esse é o problema. — O principal. Ficamos em silêncio por um tempo. Até que Erick falou algo que me fez rir. — Sabe qual é a parte mais estranha disso tudo? — Qual? — Eu já negociei contratos de bilhões de dólares. Olhei para ele. — E? Ele apontou para o morro. — Mas convencer um cara chamado Kido a deixar construir um estúdio aqui… pode ser a negociação mais difícil da minha vida. Eu ri. Mas no fundo sabia que ele não estava exagerando. Porque no morro… O Poder não vinha de dinheiro. Vinha de história. E de sangue. Fechei o caderno e levantei. — Então vamos precisar de um plano melhor. Erick ficou de pé também. — Já tenho um começo. — Qual? Ele olhou direto nos meus olhos. — Você. Franzi a testa. — Eu? — Você conhece o morro. — Conheço. — E aparentemente conhece o Kido também. Meu coração apertou de novo. — Conheci. Ele inclinou a cabeça. — Isso pode ajudar. Ou destruir tudo. Mas não falei isso em voz alta. Porque naquele momento… No meio do vento da manhã e do barulho do morro acordando… Eu realmente queria acreditar que algo bom podia nascer dali. Mesmo no meio da guerra.
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