Capítulo 24 : O Investidor Invisível

1138 Words
Erick No meu mundo, nada acontece por acaso. Essa foi uma das primeiras lições que aprendi quando comecei a lidar com dinheiro grande. Mercados não se movem sozinhos. Empresas não quebram de repente. E líderes não surgem do nada com poder suficiente para controlar territórios inteiros. Sempre existe alguém puxando as cordas. E naquela noite, sentado no banco de trás do carro parado na base da Rocinha, eu tive a certeza de que o mesmo estava acontecendo ali. Marcelo estava no banco da frente com o laptop aberto, o brilho azul da tela iluminando metade do rosto dele. — Repete isso — pedi. Ele suspirou, passando os dedos pelo teclado. — Kido apareceu no radar há cerca de quatro anos. — Antes disso? — Quase nada. — Isso não faz sentido. Marcelo virou o laptop um pouco na minha direção. — Concordo. Na tela havia uma linha do tempo improvisada. Caio. Depois Kido. Mudança de nome. Subida rápida na hierarquia de poder dentro da Rocinha. E então… dinheiro. Muito dinheiro. — Esses números não batem com a realidade da favela — disse Marcelo. — Quanto? Ele ampliou uma das planilhas. — Armas novas. — Comunicação criptografada. — Pagamento regular para os homens dele. Passei a mão no queixo. — Quanto isso custa? Marcelo respondeu sem hesitar. — Muito mais do que um chefe local normalmente consegue levantar. Fiquei olhando para os dados. — Então alguém está bancando. — Exatamente. O carro estava estacionado em uma rua lateral da Gávea, a poucos minutos da subida da favela. Do lado de fora, o trânsito seguia normal, pessoas indo jantar, bares cheios, música vazando das portas abertas. O asfalto vivendo sua vida confortável. Sem imaginar a guerra silenciosa acontecendo logo acima. Peguei meu celular. Abri novamente a foto que Marcelo tinha enviado mais cedo. Um carregamento interceptado. Caixas de equipamento militar. — Isso não vem de mercado ilegal pequeno — murmurei. Marcelo assentiu. — Nem de traficante comum. Olhei pela janela. Luzes da Rocinha piscavam no escuro como se fossem estrelas caídas no morro. Alguma coisa ali dentro estava sendo alimentada. E não era só ambição. — Quem se beneficia se eu não entrar na comunidade? — perguntei. Marcelo respondeu rápido demais. — Muita gente. — Lista. Ele começou a contar nos dedos. — Políticos locais que lucram com a instabilidade. — Grupos que exploram serviços ilegais na comunidade. — Empresas que não querem que você estabeleça presença social lá. — E? Ele hesitou. — E concorrentes. Virei o rosto lentamente. — Concorrentes? Marcelo respirou fundo. — Erick… quando você começou a falar de investimento social nas comunidades, muita gente no mercado não gostou. — Isso não é filantropia. — Eu sei. Eu realmente sabia. Projetos comunitários criam influência. Influência cria acesso. E o acesso muda mercados inteiros. Se a Ares estabelecesse presença positiva na Rocinha, aquilo poderia virar um modelo replicado em outras comunidades. E isso mudaria muita coisa. — Quem teria interesse em impedir isso? — perguntei. Marcelo digitou mais algumas coisas. Então virou a tela para mim. Um nome apareceu. Meu estômago apertou imediatamente. — Não — murmurei. Marcelo não disse nada. Mas o silêncio dele confirmava. O nome na tela era familiar demais. Alguém que conhecia minhas estratégias. Alguém que sabia como eu pensava. Alguém que tinha recursos suficientes para financiar uma guerra silenciosa dentro de uma favela. — Ele não faria isso — falei. Marcelo levantou uma sobrancelha. — Você tem certeza? Olhei novamente para o nome. Gustavo Rangel. Ex-sócio. Ex-amigo. Atual rival. Nosso rompimento tinha sido público e feio dois anos antes, quando eu recusei participar de um projeto imobiliário agressivo que deslocaria milhares de pessoas de comunidades próximas ao centro. Ele achava que eu estava sendo sentimental. Eu achava que ele estava sendo predatório. Nos separamos. Ele construiu outra empresa. E agora… — Isso ainda é circunstancial — disse Marcelo. — Eu sei. Mas dentro de mim algo já tinha se encaixado. Gustavo sempre acreditou em uma coisa: Territórios têm valor apenas quando podem ser explorados. Se alguém quisesse impedir qualquer iniciativa que fortalecesse comunidades… Financiar instabilidade seria uma forma eficaz. — Se ele está bancando o Kido — murmurei — então isso não é só sobre mim. Marcelo assentiu. — É sobre impedir qualquer mudança. A verdade começou a se formar na minha cabeça como uma equação inevitável. Kido precisava manter controle. Gustavo precisava manter o caos. E eu… Eu estava no meio disso. Meu celular vibrou. Mensagem de Ariane. “Consegui olhar o galpão do estúdio.” Outra logo em seguida. “Está pior do que eu lembrava.” Sorri sem perceber. Mesmo com tudo acontecendo… ela ainda estava pensando naquele projeto. — Ela não faz ideia — murmurei. Marcelo olhou para mim pelo espelho. — Do quê? — Do tamanho da guerra que a gente entrou. Ele fechou o laptop devagar. — Erick… se o Rangel realmente está por trás disso… — Isso muda tudo. — Muito. Passei a mão no rosto. Porque agora a equação ficava ainda mais perigosa. Não era apenas uma disputa local. Era uma estratégia maior. — A gente precisa de prova — disse Marcelo. — Eu sei. — Sem prova, isso é só teoria. Olhei novamente para o morro iluminado. Lá em cima, Ariane estava desenhando estúdios e imaginando música. Sem saber que alguém estava pagando milhões para manter aquele lugar preso no mesmo ciclo de sempre. Meu maxilar apertou. — Então vamos encontrar a prova. Marcelo me observou em silêncio por alguns segundos. — Como? Pensei na resposta. Em Gustavo. Na forma como ele operava. Ele sempre preferia agir através de intermediários. Pessoas descartáveis. Líderes locais. — Começando pelo Kido — respondi. Marcelo franziu a testa. — Você acha que ele sabe quem está financiando? — Talvez. — E se souber? Olhei para ele. — Então essa guerra ficou muito maior do que um conflito de território. O silêncio caiu dentro do carro. Do lado de fora, alguém passou rindo na calçada. Um casal discutia perto de um bar. Vida normal. Ignorante. Peguei o celular novamente. Enviei uma mensagem para Ariane. “Cuida de você hoje.” Ela respondeu quase imediatamente. “Sempre cuido.” Respirei fundo. Porque agora havia algo que eu entendia com absoluta clareza. Alguém poderoso estava movendo peças nas sombras. E quando investidores invisíveis entram em um jogo… As consequências costumam ser muito mais violentas do que qualquer guerra aberta. Olhei para a subida da Rocinha mais uma vez. — Marcelo. — Sim? — Amanhã a gente sobe de novo. Ele suspirou. — Eu imaginei. — Mas dessa vez… Fechei o celular. — A gente não vai só conversar. Porque se Gustavo Rangel realmente estava por trás daquilo… Então alguém precisava lembrar a ele de uma coisa. Algumas guerras corporativas não ficam presas no asfalto. Às vezes… Elas sobem o morro.
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