Capítulo 25 : O Tio Zeca

1218 Words
Ariane O morro tem uma forma c***l de revelar verdades. Às vezes não é com grito. Nem com tiro. Nem com ameaça. Às vezes é com um sussurro. Foi assim que tudo começou naquela noite. Eu estava sentada no chão do galpão abandonado duas vielas abaixo da casa da Dona Lúcia. O lugar cheirava a ferrugem, poeira e madeira úmida. O telhado tinha buracos por onde a lua entrava em pedaços de luz torta. O futuro estúdio. Ou pelo menos… o que eu queria acreditar que poderia virar um. Meu caderno estava aberto no colo, cheio de anotações novas. Cabine de voz. Mesa de edição. Isolamento acústico improvisado. Cada linha que eu escrevia era um pequeno ato de fé. Uma tentativa de transformar ruína em possibilidade. Mas minha cabeça não estava totalmente ali. Pensava em Erick. Pensava no jeito sério que ele ficou quando falou sobre dinheiro, poder e gente tentando impedir qualquer mudança no morro. Pensava também em Kido. Ou melhor… Em Caio. O garoto que um dia sentou comigo numa escada esperando coragem para dizer alguma coisa que eu nunca deixei ele terminar. Esses pensamentos estavam rodando na minha cabeça quando ouvi passos do lado de fora. Passos rápidos. Familiarmente leves. — Ari! Era Jéssica. Ela apareceu na porta do galpão ofegante, olhando para trás antes de entrar. — Você tá louca de ficar aqui sozinha à noite — disse. — Eu não estou sozinha. Ela arqueou uma sobrancelha. — Ah não? Levantei o caderno. — Tenho plantas arquitetônicas. Ela soltou um suspiro impaciente. — Eu estou falando sério. Algo no tom dela me fez fechar o caderno devagar. — O que aconteceu? Ela não respondeu imediatamente. Andou pelo galpão, olhando as paredes como se estivesse verificando se alguém podia ouvir. Quando voltou para perto de mim, falou mais baixo. — Eu vi uma coisa. Meu estômago apertou. — Que coisa? Ela hesitou. — Você não vai gostar. Um arrepio subiu pela minha nuca. — Jess… fala. Ela cruzou os braços. — Seu tio. O nome caiu no ar como pedra. Zeca. Meu peito ficou tenso imediatamente. — O que tem ele? Desde que o vídeo da traição dele tinha circulado pelo morro, Zeca praticamente evaporou da Rocinha. Algumas pessoas diziam que ele tinha fugido. Outras falavam que ele estava escondido. Eu mesma não sabia o que acreditar. Parte de mim ainda tentava reconciliar o homem que me ensinou a soltar pipa na laje com o homem que vendeu a comunidade por dinheiro. — Eu vi ele hoje — disse Jéssica. Meu coração acelerou. — Onde? Ela respirou fundo. — Na quadra. Aquilo já era estranho o suficiente. Mas o jeito que ela ainda parecia desconfortável dizia que não era só isso. — Ele não estava sozinho — continuou. Eu já sabia que não ia gostar da próxima parte. — Com quem? Jéssica me olhou nos olhos. — Com o Kido. Por um segundo inteiro o mundo pareceu parar. — Não. — Eu vi, Ari. Balancei a cabeça devagar. — Isso não faz sentido. — Eu também pensei isso. — O Kido tomou o lugar dele. — Eu sei. Levantei do chão devagar. Minha mente corria rápido demais. Zeca traidor. Kido novo chefe. Dois homens que deveriam estar em lados opostos. — O que eles estavam fazendo? — perguntei. Jéssica respondeu baixo. — Conversando. — Só isso? — Não parecia uma discussão. Meu estômago virou. — Parecia o quê? Ela demorou um segundo para responder. — Parecia uma reunião. A palavra ecoou dentro da minha cabeça. Reunião. A imagem do vídeo voltou à minha mente. Zeca recebendo dinheiro. Zeca sorrindo. Zeca dizendo que o morro precisava “evoluir”. E agora ele estava sentado com o novo dono da Rocinha. — Você tem certeza? — perguntei. — Absoluta. Ela passou a mão no cabelo. — Eu estava na lanchonete da esquina. Eles estavam dentro da quadra, mas a porta estava aberta. — Eles te viram? — Não. Respirei fundo. Algo dentro de mim começou a se quebrar devagar. — O que eles estavam falando? — Não ouvi tudo. Ela mordeu o lábio. — Mas ouvi seu nome. Meu coração disparou. — O que? — O Zeca falou de você. — O quê exatamente? Jéssica engoliu seco. — Ele disse que você estava ficando perigosa. Uma mistura de raiva e dor subiu pelo meu peito. — Perigosa? — Porque você trouxe o Erick para dentro da história. Fechei os olhos por um segundo. Então essa era a narrativa agora. Eu. A culpada. — Ele sempre faz isso — murmurei. — O quê? — Muda a história para parecer que ele nunca errou. Zeca sempre foi bom nisso. Desde pequena eu via ele transformar brigas em discursos, problemas em justificativas, erros em decisões estratégicas. Mas isso… Isso era diferente. — Ari — disse Jéssica com cuidado — tem mais uma coisa. Abri os olhos. — Fala logo. — O Zeca não parecia… derrotado. — Claro que não. — Não. Ela balançou a cabeça. — Eu estou falando sério. — Como assim? — Ele parecia tranquilo. Meu coração apertou. — Confiante. — Isso não faz sentido. — Foi exatamente o que eu pensei. Se Zeca tivesse realmente perdido o poder no morro, ele deveria estar escondido, com medo ou tentando fugir. Mas se ele estava se reunindo com Kido… Então talvez ele nunca tivesse perdido tanto poder assim. Uma possibilidade horrível começou a tomar forma na minha cabeça. — Jess… — O quê? — E se o Kido não tirou o Zeca do jogo? Ela me olhou em silêncio. — E se eles estão jogando juntos? O silêncio dentro do galpão ficou pesado. O vento entrou por uma fresta do telhado fazendo uma chapa de metal vibrar devagar. — Você acha que o seu tio… — começou Jéssica. — Está manipulando tudo? Ela não terminou a frase. Mas eu completei mentalmente. Meu peito doía. Porque parte de mim ainda queria acreditar que Zeca tinha algum limite. Algum pedaço de consciência. Alguma lembrança da família que ele dizia proteger. Mas naquele momento… essa esperança parecia fraca. Muito fraca. — Ari — disse Jéssica — você está bem? Eu soltei uma risada amarga. — Não sei. Olhei para o caderno no chão. O desenho do estúdio. As linhas tortas que representavam um futuro melhor. E de repente tudo parecia mais difícil. Porque agora a traição não era só política. Era pessoal. Zeca não era apenas um líder corrupto. Ele era meu tio. O homem que me criou depois que meus pais morreram. O homem que me ensinou a sobreviver naquele morro. E agora… Talvez ele estivesse conspirando com o novo chefe da comunidade contra mim. — Ariane. Levantei o olhar. — O quê? Jéssica falou devagar. — Talvez você precise falar com o Kido. Meu coração apertou. Porque eu sabia que ela estava certa. Se Caio ainda existia dentro daquele homem… Talvez ele me dissesse a verdade. Mas se não existia mais… Então aquela conversa poderia ser muito pior do que qualquer traição. Olhei novamente para o desenho do estúdio. Para o sonho que eu tinha começado a construir. E percebi algo com uma clareza dolorosa. Essa guerra não era mais só sobre dinheiro. Nem sobre território. Era sobre confiança. E naquele momento… Eu não sabia mais em quem confiar.
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