Erick
Existem momentos em que uma teoria deixa de ser suspeita e vira fato.
E quando isso acontece, algo dentro de você muda.
Naquela noite, sentado no escritório improvisado que montei no apartamento do Leblon, eu senti exatamente isso.
O silêncio do lugar era quase ofensivo.
Lá fora, o mar quebrava nas pedras da praia como sempre. Carros passavam tranquilos pela avenida. Pessoas riam em algum restaurante aberto até tarde.
Tudo parecia normal.
Mas na tela do laptop à minha frente… nada era normal.
Marcelo estava encostado na mesa, braços cruzados, olhando para os documentos que finalmente tínhamos conseguido reunir.
— Tem certeza disso? — perguntei.
Ele assentiu.
— Três fontes diferentes.
— Todas confiáveis?
— Todas.
Olhei novamente para os dados.
Chamadas telefônicas registradas.
Movimentações de dinheiro.
Relatórios de observação que a equipe tinha coletado nas últimas quarenta e oito horas.
E no centro de tudo…
Zeca.
O mesmo homem que tinha sido exposto como traidor diante de toda a Rocinha.
O mesmo homem que deveria estar escondido, tentando salvar o que restava da própria reputação.
Mas não.
Ele estava ativo.
E pior.
Ele estava trabalhando.
— Então ele não perdeu o jogo — murmurei.
Marcelo respondeu calmamente:
— Não.
Fechei o laptop devagar.
— Ele mudou de estratégia.
Porque agora a imagem começava a ficar clara.
Kido era o poder visível.
O novo dono da Rocinha.
O homem que controlava os pontos, os soldados, o território.
Mas Zeca…
Zeca estava nos bastidores.
Movendo peças.
Falando com gente.
Influenciando decisões.
— Isso explica a reunião que a Ariane ouviu falar — disse Marcelo.
Balancei a cabeça.
— Explica mais do que isso.
Levantei e caminhei até a janela.
As luzes do Leblon pareciam tranquilas demais para o tipo de conversa que estávamos tendo.
— Ele quer voltar ao controle — falei.
— Parece.
— Mas não pode fazer isso diretamente.
— A reputação dele está destruída no morro.
Exatamente.
O vídeo tinha acabado com a imagem de líder comunitário que ele usava há anos.
Mas Zeca sempre foi inteligente.
Ele não tentaria recuperar poder pela força.
Ele faria algo mais… sutil.
Voltei para a mesa.
— Mostra de novo aquela parte.
Marcelo abriu o laptop novamente e puxou um dos relatórios.
Uma gravação de áudio curta.
Captada por um dos contatos que ele tinha dentro da comunidade.
A qualidade era r**m.
Mas as vozes eram claras o suficiente.
A primeira era de Zeca.
Eu já reconhecia o tom.
Calmo.
Controlado.
Calculista.
— “Ela sempre teve talento. O morro inteiro sabe disso.”
A segunda voz era mais baixa.
Provavelmente um dos homens de Kido.
— “Então por que você quer ela longe daqui?”
Zeca respondeu sem hesitar.
— “Porque talento precisa de direção.”
Parei o áudio.
— Canalha.
Marcelo me observou.
— Quer ouvir o resto?
— Quero.
Ele apertou play novamente.
— “Se ela continuar aqui, vai virar símbolo.”
— “E?”
— “Símbolos são difíceis de controlar.”
Meu maxilar apertou.
A gravação continuou.
— “Mas se ela for para o asfalto…”
— “Ela vira produto.”
Parecia que alguém tinha jogado gelo dentro do meu peito.
— “E produtos dão lucro.”
O áudio terminou.
O silêncio no escritório ficou pesado.
Por alguns segundos ninguém falou nada.
Então eu disse a única coisa que realmente importava.
— Ele quer vender a carreira dela.
Marcelo assentiu.
— Exatamente.
A estratégia era brutalmente simples.
Zeca não podia mais controlar o morro.
Mas ainda podia tentar controlar Ariane.
Se ela se tornasse famosa…
Se virasse uma artista grande…
Alguém precisaria gerenciar contratos.
Imagem.
Shows.
Dinheiro.
E Zeca pretendia ser essa pessoa.
— E o Kido? — perguntei.
Marcelo pensou por um momento.
— Ainda não sabemos qual é o interesse dele.
Eu tinha uma teoria.
— Ariane.
— Como assim?
— Ele cresceu com ela.
Marcelo franziu a testa.
— Você acha que isso influencia?
— Tudo influencia.
Se Kido ainda tivesse qualquer sentimento por ela, Zeca poderia estar usando isso.
Promessas.
Manipulação.
Histórias do passado.
— Então o plano é simples — disse Marcelo.
— Qual?
— Tirar Ariane da comunidade.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Não.
— Erick…
— Não.
Porque aquilo era exatamente o que Zeca queria.
Empurrar Ariane para fora do morro.
Transformar o talento dela em mercadoria controlada por gente como ele.
— Ela pertence àquele lugar — falei.
Marcelo cruzou os braços.
— Pertencer não significa estar segura.
Ele não estava errado.
Mas ainda assim…
— Zeca não quer proteger ela — continuei.
— Ele quer possuir.
As palavras ficaram pesadas no ar.
Porque aquela não era apenas uma disputa de poder.
Era uma tentativa de controlar a vida de alguém.
A vida de Ariane.
Peguei o celular.
Olhei para a última mensagem que ela tinha me enviado.
“A gente consegue transformar aquele galpão.”
Um estúdio.
Um sonho pequeno e enorme ao mesmo tempo.
Algo que poderia dar voz para o morro inteiro.
E agora eu sabia que existia gente trabalhando ativamente para impedir isso.
— Erick — disse Marcelo — tem mais uma coisa.
Levantei o olhar.
— O quê?
Ele girou o laptop novamente.
Outro relatório.
Outra observação recente.
— Nossos contatos viram o Zeca entrando na quadra hoje à noite.
— Com o Kido?
— Sim.
Meu peito ficou tenso.
— Então eles ainda estão conversando.
— Muito.
Fechei os olhos por um segundo.
Porque agora tudo estava claro demais.
Zeca não estava apenas tentando voltar ao poder.
Ele estava montando um negócio.
Usando Kido como força.
Usando Ariane como produto.
E usando o morro inteiro como palco.
Abri os olhos novamente.
— Marcelo.
— Sim?
Peguei o paletó na cadeira.
— A gente sobe agora.
Ele suspirou.
— Eu imaginei.
— Eu preciso falar com ela.
— E com o Kido?
Pensei por um momento.
— Talvez.
— Talvez?
Olhei novamente para as luzes da cidade.
Para o morro invisível no escuro logo acima.
— Se ele está sendo manipulado… ainda dá tempo de virar o jogo.
Marcelo fechou o laptop.
— E se não estiver?
Respirei fundo.
Então respondi com a única verdade que restava.
— Então a guerra vai ficar muito pessoal.
Porque agora não era apenas sobre poder.
Nem sobre território.
Nem sobre negócios.
Era sobre alguém tentando transformar Ariane em propriedade.
E isso…
Era algo que eu não ia permitir.