Ariane
A noite na Rocinha parecia mais pesada que o normal.
O ar estava quente, grudando na pele, e as vielas estavam cheias daquele silêncio estranho que aparece quando algo importante está prestes a acontecer. As pessoas ainda estavam nas portas das casas, conversando, rindo, vivendo. Mas eu sentia os olhares.
Sempre os olhares.
Eles sabiam.
O morro sempre sabe quando alguém vai enfrentar o próprio destino.
Eu parei em frente à quadra.
As luzes brancas iluminavam o chão gasto onde tantas festas, reuniões e brigas já aconteceram. O portão estava meio aberto, e dois homens armados encostados na grade conversavam baixo.
Eles me viram imediatamente.
Um deles murmurou algo no rádio.
O outro apenas abriu espaço.
— Pode entrar.
Nenhum sorriso.
Nenhuma pergunta.
Aquilo já dizia tudo.
Eles sabiam que eu viria.
Entrei.
O som dos meus passos ecoou no concreto.
No centro da quadra, duas cadeiras estavam posicionadas frente a frente. Como se alguém tivesse montado um pequeno palco.
E sentado em uma delas…
Estava ele.
Zeca.
Meu tio.
Por um segundo inteiro, eu não consegui me mover.
Ele parecia exatamente como eu lembrava.
Camisa social aberta no pescoço.
Cabelo grisalho penteado para trás.
A postura calma de quem sempre acreditou controlar qualquer situação.
Mas havia algo diferente também.
Algo frio no olhar.
Algo que eu nunca tinha visto quando era criança.
— Demorou, Ariane — disse ele.
A voz soava normal demais.
Quase… carinhosa.
Aquilo me deu raiva.
Caminhei até o centro da quadra, parando a poucos passos dele.
— Você mandou me chamar?
Ele inclinou a cabeça levemente.
— Eu sabia que você viria mesmo sem convite.
Cruzei os braços.
— Então fala logo.
— Sempre tão direta.
Ele suspirou.
— Você herdou isso da sua mãe.
O nome da minha mãe bateu em mim como uma lembrança antiga.
Mas eu não estava ali para nostalgia.
— Eu ouvi falar que você anda ocupado — falei.
Os olhos dele brilharam um pouco.
— O morro nunca para.
— Engraçado.
Inclinei a cabeça.
— Porque eu pensei que você tinha sido expulso dele.
O sorriso dele apareceu.
Pequeno.
Controlado.
— As coisas nem sempre são o que parecem.
— Não.
Minha voz saiu mais dura.
— Mas às vezes são exatamente o que parecem.
O silêncio se instalou entre nós por alguns segundos.
Então perguntei a única coisa que realmente importava.
— Você está trabalhando com o Kido?
Ele não respondeu imediatamente.
Apenas me observou.
Como se estivesse avaliando até onde eu já sabia.
— Eu converso com muitas pessoas — disse por fim.
— Isso não é resposta.
— É a única que você precisa.
Minha raiva começou a subir de verdade.
— Ele tomou seu lugar.
— Não.
Zeca cruzou as pernas com calma.
— Ele assumiu uma função.
— E você ficou nos bastidores?
Ele sorriu.
— Sempre fui melhor estrategista do que soldado.
Meu peito apertou.
Porque aquela frase confirmava tudo.
— Então é verdade.
— O quê?
— Você está usando ele.
Zeca soltou uma pequena risada.
— Usar é uma palavra forte.
— Manipular também serve.
Os olhos dele endureceram um pouco.
— Cuidado com o tom.
— Por quê?
Dei um passo mais perto.
— Vai mandar seus homens me calarem?
Por um segundo, a tensão no ar ficou pesada.
Mas ele não levantou a voz.
— Eu nunca faria isso com você.
— Engraçado.
Minha garganta apertou.
— Porque vender o morro foi fácil.
A frase atingiu.
Eu vi no rosto dele.
Mas durou apenas um instante.
Depois voltou a expressão calculada.
— Você ainda não entende.
— Então explica.
Ele suspirou, como se estivesse cansado de algo.
— O mundo mudou, Ariane.
— O morro sempre muda.
— Não desse jeito.
Ele se inclinou para frente.
— Dinheiro grande está chegando.
— Eu sei.
— Empresas.
— Eu sei.
— Investidores.
— Eu sei!
Minha voz ecoou pela quadra.
— Eu também vi o vídeo, lembra?
Ele me encarou em silêncio.
— Você acha que eu fiz aquilo por ganância — disse ele por fim.
— Eu sei que fez.
Zeca balançou a cabeça lentamente.
— Eu fiz porque o morro precisava de estrutura.
— Você fez porque recebeu um envelope.
— Você não entende o jogo.
— E você esqueceu quem é.
O silêncio voltou.
Pesado.
Então ele disse algo que eu não esperava.
— Esse Erick vai destruir você.
A frase me atingiu de surpresa.
— O quê?
— Ele é parte do sistema que engole gente como nós.
Eu ri.
Mas não havia humor nenhum no som.
— Agora você virou protetor?
— Eu sempre fui.
— Você vendeu sua própria comunidade!
— Eu tentei salvar ela.
— Mentira.
Minha voz tremia agora.
— Você tentou salvar seu poder.
Os olhos dele ficaram mais escuros.
— E você acha que esse empresário é diferente?
— Eu sei que ele não me trata como propriedade.
Zeca bateu a mão na cadeira.
— É exatamente isso que ele está fazendo!
O som ecoou pela quadra.
— Ele te transformou em projeto!
— Não.
— Em símbolo!
— Não.
— Em investimento!
— Não!
Minha voz saiu quase como um grito.
Ele ficou me olhando.
Com algo que parecia… tristeza.
— Você acha que ele te ama?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Eu não respondi.
Porque aquela palavra… amor… parecia perigosa demais para aquela conversa.
— Homens como ele não amam — continuou Zeca. — Eles adquirem.
Meu peito queimava.
— E você?
— Eu sempre quis te proteger.
— Me controlando?
— Te guiando.
— Te obedecendo?
— Te ajudando.
— Te vendendo!
A última palavra saiu mais alta do que eu queria.
A quadra inteira parecia vibrar com o eco.
Zeca ficou em silêncio.
Então disse algo que doeu mais do que qualquer acusação.
— Eu te criei.
A frase me atravessou.
— Eu te dei casa.
— Eu te dei comida.
— Eu te dei proteção.
— Eu te dei futuro.
Minha visão ficou embaçada por um segundo.
— Não — murmurei.
Ele franziu a testa.
— O quê?
— Você me deu sobrevivência.
Respirei fundo.
— O futuro… eu construí sozinha.
Aquelas palavras mudaram algo entre nós.
Eu vi.
Porque pela primeira vez… ele parecia não saber o que responder.
Então virei para ir embora.
Mas parei no meio do caminho.
Sem olhar para trás, falei a última coisa que precisava dizer.
— Se você estiver usando o Kido…
Minha voz saiu firme.
— …ou tentando controlar minha vida…
A quadra inteira parecia prender a respiração.
— Eu derrubo você de novo.
Silêncio.
Pesado.
Então caminhei até o portão.
Quando saí para a viela escura, meu coração estava batendo forte demais.
Raiva.
Dor.
E algo pior.
Porque no fundo…
Parte de mim ainda queria acreditar que o homem que me ensinou a andar de bicicleta no morro não tinha desaparecido completamente.
Mas naquela noite…
Parecia que ele tinha sido engolido pelo mesmo poder que prometeu controlar.