Capítulo 28 : O Ataque

1089 Words
Erick A primeira coisa que aprendi sobre o morro é que o silêncio nunca significa segurança. Às vezes significa exatamente o contrário. Era pouco depois da meia-noite quando saí da Rocinha naquela noite. O encontro com Ariane ainda girava na minha cabeça, pesado como uma pedra que você não consegue tirar do bolso. Ela estava diferente. Mais dura. Mais silenciosa. Algo tinha acontecido antes de eu chegar, eu podia ver nos olhos dela. A forma como evitou falar sobre o tio, a tensão no maxilar sempre que o nome de Zeca surgia. E, no fundo, eu sabia que aquilo era apenas o começo. Desci as escadas estreitas da comunidade acompanhado por Marcelo e dois seguranças. O ar estava úmido e quente, cheio do cheiro de comida frita e fumaça que sempre parecia grudar nas paredes das vielas. As luzes da cidade lá embaixo piscavam como um mar distante. — Está quieto demais — murmurou Marcelo. Eu também tinha percebido. Normalmente, mesmo de madrugada, a Rocinha continuava viva. Música, conversas, motos subindo e descendo. Mas naquela parte da descida… As portas estavam fechadas. As janelas semiabertas. E os olhares escondidos nas sombras. — Eles estão observando — disse eu. Marcelo assentiu. — Sempre estão. Mas dessa vez parecia diferente. Como se alguém tivesse dado ordem para o morro inteiro prestar atenção. Chegamos finalmente à rua onde os carros estavam estacionados. Três SUVs pretos, discretos, blindados. Parte do protocolo básico de segurança quando eu precisava subir ali. Os motores estavam desligados, mas dois homens da equipe aguardavam ao lado. — Tudo tranquilo? — perguntou Marcelo. Um deles respondeu com um aceno rápido. — Até agora, sim. Aquilo deveria ter me tranquilizado. Mas não tranquilizou. Algo no ar continuava errado. Caminhei até o primeiro carro e parei por um segundo, observando o reflexo das luzes da rua na lataria escura. Minha vida inteira tinha sido construída sobre controle. Estratégia. Antecipação. E naquele momento… Eu tinha a sensação clara de que alguém estava jogando um jogo que eu ainda não entendia completamente. — Vamos sair daqui — disse Marcelo. Abri a porta do carro. Mas antes que eu pudesse entrar, um som estranho chamou minha atenção. Um estalo metálico. Muito leve. Quase imperceptível. Mas suficiente para acionar algo no meu instinto. — Espera — falei. Marcelo imediatamente levantou a mão. Todos pararam. O silêncio ficou pesado. Então o motorista do carro ao lado falou: — Chefe… está ouvindo isso? Agora todos ouvimos. Um tic. Depois outro. Seco. Mecânico. O tipo de som que não deveria existir dentro de um carro parado. Marcelo virou lentamente a cabeça para mim. — Afasta. Não discutimos. Todos deram dois passos para trás. E foi exatamente nesse momento que o mundo explodiu. O primeiro carro levantou do chão com um estrondo brutal. Uma bola de fogo engoliu a frente do veículo enquanto metal e vidro voavam para todos os lados. O impacto foi tão forte que senti o calor bater no rosto mesmo a vários metros de distância. O som ecoou pela rua como um trovão. Por um segundo, ninguém se moveu. O fogo consumia o carro rapidamente, as chamas iluminando os prédios próximos com uma luz infernal. Depois veio o caos. — Cobre! — gritou Marcelo. Os seguranças puxaram armas, olhando em todas as direções. Mas não havia tiros. Não havia homens correndo. Não havia ataque direto. Apenas o carro queimando no meio da rua. Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos. — Bomba — disse Marcelo. — Sim. Ele caminhou lentamente até mais perto do veículo destruído, observando com cuidado. — Detonador remoto. — Ou temporizador. Meu coração ainda batia forte no peito. Se eu tivesse entrado naquele carro… Não terminei o pensamento. Porque não precisava. — Isso foi planejado — murmurou Marcelo. — Muito. Olhei ao redor. Algumas pessoas tinham começado a aparecer nas janelas dos prédios próximos. Outras observavam de longe a calçada. Ninguém parecia particularmente surpreso. Aquilo dizia muita coisa. — Não foi para matar — falei finalmente. Marcelo me olhou. — Como assim? Apontei para o carro destruído. — Se fosse para me matar, teriam esperado eu entrar. Ele pensou por um segundo. Depois assentiu. — Então foi aviso. Exatamente. Um aviso alto. Violento. Impossível de ignorar. Meu telefone vibrou no bolso naquele momento. Peguei. Número desconhecido. Uma única mensagem. “Você foi avisado.” Fiquei olhando para a tela alguns segundos. Marcelo observou meu rosto. — O que foi? Mostrei o celular. Ele soltou um suspiro pesado. — Kido? Balancei a cabeça devagar. — Talvez. Mas algo dentro de mim dizia que não era tão simples. Kido era direto. Territorial. Se quisesse mandar recado, provavelmente faria isso cara a cara. Aquilo parecia… diferente. Mais calculado. Mais teatral. Como se alguém quisesse garantir que eu entendesse a mensagem. Olhei novamente para o carro queimando. Metal retorcido. Vidros estilhaçados espalhados pelo asfalto. E pensei em Ariane. Se alguém estava disposto a explodir um carro na base da Rocinha… Até onde estavam dispostos a ir? — Erick — disse Marcelo com cuidado — a gente precisa sair daqui. Assenti. Entramos no segundo carro rapidamente. O motor rugiu quando o motorista arrancou, deixando para trás o fogo e as luzes piscando no retrovisor. Por alguns minutos ninguém falou nada. O som da cidade voltava devagar enquanto descíamos em direção ao asfalto. Então Marcelo quebrou o silêncio. — Isso muda o jogo. — Sim. — Você ainda quer continuar? Olhei pela janela. A Rocinha estava ficando para trás, empilhada na encosta como um labirinto de luzes. Em algum lugar ali dentro, Ariane estava vivendo a própria batalha. Contra o tio. Contra o passado. Contra um sistema inteiro que parecia decidido a controlar cada passo dela. — Mais do que nunca — respondi. Marcelo passou a mão pelo rosto cansado. — Você percebe que isso pode virar uma guerra aberta. — Já virou. Peguei o celular novamente. A mensagem anônima ainda brilhava na tela. Você foi avisado. Sorri sem humor. Porque o problema com avisos… É que eles funcionam melhor quando a pessoa sente medo suficiente para recuar. Mas naquele momento… Tudo o que eu sentia era algo muito diferente. Determinação. Fechei a tela do telefone. — Amanhã a gente sobe de novo — falei. Marcelo soltou uma pequena risada incrédula. — Claro que sobe. Olhei pela última vez para o morro desaparecendo na escuridão. Alguém tinha decidido transformar aquela disputa em algo mais violento. Mais perigoso. Mais pessoal. E agora eu sabia uma coisa com absoluta certeza: Se queriam guerra… Tinham acabado de escolher o adversário errado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD