A madrugada tinha um silêncio enganador. Do lado de fora das casas, o vento soprava suave, arrastando consigo o cheiro de maresia e o rangido das janelas m*l presas. Mas para quem sabia ouvir, havia algo errado: passos contidos nas ruas estreitas, motores ligados por tempo demais, olhos que observavam da escuridão.
Elena despertou no meio da noite. Não sabia dizer se tinha sido um pesadelo ou um ruído na rua. Sentou-se na cama, respirando fundo, e olhou para o lado: Sofia dormia encolhida, agarrada ao travesseiro. O pai continuava no sofá, imerso em seu torpor alcoólico. O coração dela batia rápido, como se o corpo soubesse de algo que a mente ainda não conseguia nomear.
Levantou-se devagar, atravessou o quarto e afastou discretamente a cortina rasgada. Foi então que viu.
Dois homens estavam parados na esquina. Não falavam, apenas observavam. Os rostos estavam parcialmente ocultos pelos chapéus, mas o brilho metálico na cintura não deixava dúvidas: armas.
Elena recuou instintivamente, o coração martelando. Pressionou a mão contra a boca para não soltar um grito. Voltou para a cama, mas não conseguiu fechar os olhos. Cada minuto que passava parecia arrastar-se em uma eternidade.
Na manhã seguinte, a cidade parecia igual. Mas apenas na superfície. Quem passava pela praça percebia os forasteiros encostados nos carros pretos, quem ia ao mercado notava os olhares fixos demais, os gestos contidos demais. San Bendetto, acostumada à rotina pacata, estava sendo tomada por uma sombra silenciosa.
Elena levou Sofia para a escola. A menina caminhava de cabeça baixa, alheia à tensão da irmã. No caminho, encontraram vizinhas cochichando em frente à padaria.
— Dizem que são homens de Nápoles — uma delas sussurrou. — Gente perigosa.
— Vieram buscar alguém — retrucou a outra. — Sempre é assim.
Elena passou por elas sem interromper, mas as palavras grudaram como veneno.
Na igreja, Domenico já estava de pé diante do altar quando Alfonso Greco entrou. O ex-militar caminhava com as mãos nos bolsos, mas havia algo em seu olhar que denunciava a inquietação.
— Eles estão em toda parte — disse Alfonso, sem rodeios. — Ontem à noite, rondaram a sacristia. Estão à espera do momento certo.
Domenico manteve a postura ereta, mas sua voz carregava uma gravidade maior do que o habitual. — Então não há mais tempo.
— Tempo para quê? — Alfonso estreitou os olhos. — Vai fugir?
— Não. — Domenico encarou o crucifixo acima do altar, como se buscasse forças em silêncio. — Mas devo proteger aqueles que não têm culpa.
Alfonso riu, sem humor. — Sempre o salvador. Não percebe que quanto mais tenta salvá-los, mais os arrasta para o abismo?
O padre permaneceu em silêncio, mas por dentro sentia a verdade c***l daquelas palavras.
À tarde, Elena voltou à igreja. Havia decidido não contar nada a Sofia, mas precisava de respostas. O coração pulsava com medo e raiva ao mesmo tempo.
Encontrou Domenico sozinho, apagando as velas do altar.
— Padre... — a voz dela soou trêmula, mas carregada de determinação. — Eu vi. Eles estavam na rua, em frente à minha casa.
Domenico parou o movimento, voltando-se para ela com calma. — Eu sei.
— Como pode dizer isso tão friamente? — Elena avançou alguns passos. — Eles estão aqui por sua causa, não estão?
Ele sustentou o olhar dela, sem desviar. — Sim.
A confirmação foi como um soco.
— E nós? — a voz dela subiu, quebrada. — O que será de nós, padre? O que será de Sofia?
Um silêncio pesado caiu entre os dois. Então, ele respondeu, firme:
— Eu não deixarei que nada aconteça com vocês.
— Já disse isso antes — retrucou ela, a raiva tomando o lugar do medo. — Mas promessas não afastam homens armados!
Ele se aproximou, cada passo ecoando no piso de pedra. Parou diante dela, tão perto que Elena podia sentir o calor da respiração dele.
— Elena, olhe para mim. — A voz era grave, intensa. — Eu jurei proteger esta cidade. E jurei proteger você e sua irmã. Se para isso eu tiver de carregar sozinho o peso do meu passado, que assim seja.
Os olhos dela arderam, mas não pela raiva. Havia algo ali que a desarmava, algo que a fazia acreditar mesmo contra a razão.
— Então me deixe ajudar — sussurrou. — Não me esconda a verdade.
Ele hesitou. Por um instante, seu rosto pareceu mais humano do que nunca, despido da armadura de fé. Mas antes que respondesse, a porta da igreja rangeu.
Alfonso entrou, o rosto fechado.
— Eles estão se movendo — avisou. — Dois carros seguiram para a estrada norte. Estão cercando todas as saídas.
Naquela noite, San Bendetto parecia uma cidade sitiada. As luzes dos postes piscavam, os cães latiam sem parar. Os moradores se trancavam em casa mais cedo, evitando cruzar com os forasteiros.
Elena não conseguiu convencer Sofia a dormir. A menina estava inquieta, reclamando de pesadelos.
— Eles vão levar você, Lena? — perguntou de repente, os olhos grandes e assustados.
— Nunca — respondeu com firmeza, ainda que por dentro tremesse. — Eu prometo.
Mas assim que a irmã fechou os olhos, Elena se vestiu e saiu em silêncio. Precisava ver com os próprios olhos. Precisava saber até onde ia aquele perigo.
A praça estava quase deserta, exceto pelos homens. Dois encostados em um carro, outro fumando perto da fonte. Elena se manteve nas sombras, o coração disparado. Foi então que viu Domenico sair da igreja, com a batina escura ondulando ao vento.
Ele caminhava como se não tivesse medo. Os homens o seguiram com os olhos, mas não se moveram. Ainda não.
Elena observou, sem ser vista. E naquele momento, compreendeu: Domenico era o alvo. Todo o cerco, toda a tensão, estava voltada para ele.
Mas se ele caísse, o que aconteceria com todos os outros?
Na sacristia, Alfonso aguardava. Quando Domenico retornou, o ex-militar se aproximou.
— Eles não vão esperar muito mais. Amanhã, talvez hoje mesmo.
— Então será hoje — respondeu o padre, a voz calma, mas os olhos ardendo.
— Você não entende. — Alfonso agarrou-o pelo braço, a fúria explodindo. — Não é só você em risco! É a cidade inteira!
Domenico não reagiu ao aperto. — Eu entendo melhor do que imagina.
Elena voltou para casa antes do amanhecer. Não pregou os olhos. A cada estalo da madeira, a cada ruído distante, o coração saltava no peito. Sofia dormia tranquila ao lado dela, mas Elena sabia que a calma era apenas uma ilusão.
O m*l já não estava às portas. Estava dentro da cidade.
E todos, inclusive ela, estavam presos no mesmo cerco invisível.