João estava de pé, em silêncio, ao fundo do salão. O copo de whisky em uma das mãos, o olhar perdido na mulher que brilhava no centro de tudo. Ela sorria, cumprimentava convidados, aceitava brindes, dançava com o filho dele. Alicia. A mulher da Grécia.
A mulher que ele nunca esqueceu.
E agora, ali, diante dos olhos dele, vestida de branco, ela levava o sobrenome da família.
O nome dele. E o do filho dele.
João sentia um gosto amargo na boca. Como se tivesse bebido veneno.
Alicia estava linda demais. Linda de uma forma quase c***l. O vestido branco se moldava ao corpo com suavidade, como se tivesse sido feito sob medida apenas para ela — e talvez tivesse. Os cabelos estavam presos de um jeito simples e sofisticado, com algumas mechas soltas emoldurando o rosto que ele conhecia melhor do que deveria. Os olhos dela ainda tinham aquele brilho que o hipnotizou naquela noite distante.
Na Grécia.
Naquela noite, João havia se permitido uma única loucura. Um único deslize. Uma paixão efêmera, mas devastadora. Um momento em que esqueceu quem era, o que carregava nos ombros, e apenas viveu. Amou.
E agora, a mulher que ele tentou esquecer estava ali, diante dele, casando-se com Roberto. O filho que ele criou com tanto esforço. O menino que virou homem sob os olhos dele, o herdeiro do seu império.
João apertou o copo entre os dedos, engolindo seco.
Ela dançava com Roberto. Ele sorria para ela como se tivesse vencido o mundo. Como se tivesse alcançado o auge da felicidade. E talvez tivesse mesmo.
Mas João via além.
Ele via como Alicia o olhava de volta. Como às vezes os olhos dela escapavam, silenciosos, na direção oposta da pista de dança. Como ela o buscava.
Ele a via.
E ela via ele.
A música parecia abafada aos ouvidos de João. Tudo ao redor estava embaçado. Não havia festa, não havia convidados. Havia só ela. No vestido branco. A mulher que, por uma noite, ele beijou como se o mundo fosse acabar.
Ela estava inacreditavelmente linda. Melhor que nos seus sonhos mais secretos. Melhor do que qualquer lembrança ousasse permitir.
E agora ela era do filho dele.
João fechou os olhos por um instante. O peso da culpa caiu sobre seus ombros como chumbo.
“É errado. É sujo. Ela é do Roberto. Ele a ama. Eu não posso desejar a mulher do meu próprio filho. Que tipo de homem eu sou?”
Mas ainda assim...
Seu coração traía sua consciência.
E então, quando Alicia sorriu para uma senhora da família e se afastou da pista dizendo que precisava ir ao banheiro, João soube.
Ele não pensou. Não planejou. Apenas foi.
Seguiu os passos dela com o coração disparado, ignorando o calor do whisky, o burburinho da festa, os olhares. Ele não via mais ninguém.
Quando ela entrou no corredor lateral que levava aos banheiros, ele acelerou os passos. Estendeu a mão e segurou o braço dela antes que fechasse a porta.
Ela virou-se assustada. Mas não gritou. Não recuou.
Era como se ela soubesse.
João não disse nada no início. Apenas abriu a porta de serviço ao lado e a puxou suavemente para dentro do corredor vazio, silencioso. O ar ali era diferente.
Ele parou diante dela, ofegante. O mundo inteiro girava, e ela era o único ponto fixo.
— É você... — murmurou, com a voz embargada. — A moça da Grécia.
Ela apenas assentiu, os olhos arregalados e úmidos.
João sentiu a garganta fechar.
— Eu fiquei louco tentando descobrir seu nome. De onde você era. — Ele passou a mão pelos cabelos, nervoso. — Eu me apaixonei por você sem nem saber seu nome, Alicia.
O nome dela na sua boca soava como uma oração. Como um pedido de perdão e desejo ao mesmo tempo.
Ela o olhava como se estivesse perdida. Como se não conseguisse acreditar.
— Eu não sabia que ele era seu filho. — ela sussurrou, e aquelas palavras cortaram João em dois.
— Eu sei, querida. Eu sei... — disse ele, acariciando com cuidado o braço dela, como quem toca fogo e ainda assim se queima de propósito.
Alicia estava tão perto que João podia sentir o perfume dela. O mesmo da noite em que ela o dominou sem esforço. A mesma pele macia. A mesma energia entre eles.
Ele tirou a máscara. Mostrou o rosto. Queria que ela visse. Que ela soubesse, de verdade, quem ele era.
Ela não se afastou. Ainda não.
E então, ele se inclinou. Lento. Incerto.
Mas Alicia deu um passo atrás. Um gesto pequeno, mas suficiente para frear tudo.
Ela entrou de volta pela porta do salão, deixando João sozinho no corredor.
Ele não a impediu. Não podia.
Ali parado, sentindo a ausência dela mais forte do que qualquer presença, João fechou os olhos. O peito doía. O coração gritava.
E pela primeira vez em muito tempo...
Ele se sentiu como um ladrão.
Havia perdido algo que nunca foi seu.
E ainda assim, desejava.
Alicia pertencia ao filho dele.
Mas, maldito fosse, ainda era a mulher dos sonhos dele.
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