O copo de whisky estilhaçou contra a parede com um estrondo que ecoou pelo apartamento silencioso. Os cacos escorriam pelo chão como os pedaços da sanidade de João, espalhados, sem volta. O líquido dourado escorria pela pintura branca da parede, criando um rastro sujo, disforme — a imagem perfeita daquilo que ele sentia por dentro: devastação.
João andava de um lado para o outro na sala, a respiração pesada, o peito arfando como um animal ferido. Suas mãos trêmulas apertavam os cabelos grisalhos, puxando com força, como se quisesse arrancar aquele sentimento pela raiz, como se quisesse arrancar Alicia de dentro dele.
Mas não podia. Não conseguia.
Ela estava ali. Em cada canto daquela casa. Nos sonhos. Na pele. No cheiro que ele ainda podia sentir quando fechava os olhos. E agora… ela também estava no sobrenome.
Assunção.
O mesmo que ele carregava com orgulho, agora era dela também. Dela.
A mulher que fez seu coração bater fora de ritmo naquela noite quente na Grécia, a mulher por quem ele nutria o desejo mais puro e ao mesmo tempo mais sujo que já sentira, agora era esposa do seu filho.
Esposa do seu filho.
João passou as mãos pelo rosto suado, os olhos marejados, mas não permitiu que as lágrimas escorressem. Ele não choraria. Não agora. A raiva era maior do que a dor. E a dor era maior do que qualquer lágrima conseguiria aliviar.
As palavras do filho ecoavam na memória dele como navalhas: “Ela é um sonho, pai. Um sonho que virou realidade.”
“É um sonho”, João repetiu mentalmente. “Mas virou um pesadelo.”
Ele lembrava das ligações. Lembrava do tom apaixonado de Roberto, contando das conversas com Alicia, das risadas, da sintonia, dos planos. E ele, como um i****a, orgulhoso do filho, incentivou tudo.
Foi ele quem sugeriu a lua de mel na Grécia. Na Grécia. Onde tudo tinha começado. Onde ele e Alicia se perderam um no outro numa entrega absurda, avassaladora. Onde ele sentiu pela primeira vez que estava vivo de verdade depois de anos se arrastando após a morte da esposa.
— Eu mandei ele levar ela logo pra onde eu me apaixonei… — murmurou, cambaleando, sentando-se pesadamente no sofá. As mãos tremiam. — Que tipo de maldição é essa?
Fechou os olhos e imaginou a cena que mais o torturava: Alicia e Roberto, juntos, na cama. Alicia gemendo o nome do filho dele. O corpo dela entregue. As pernas entrelaçadas nas dele. O prazer. A i********e. A cumplicidade que um casal cria ali, pele com pele.
João gritou.
Um grito rasgado, bruto, que explodiu pela garganta como um trovão de desespero. Levantou do sofá e derrubou tudo o que estava sobre a mesa de centro com um só movimento violento. Papéis, controle remoto, mais copos, garrafas… tudo voou.
— Eu devia ter morrido nessa pandemia! — gritou mais uma vez, agora para o teto, como se falasse com Deus, com o destino, com quem quer que estivesse brincando com ele.
Por que ela?
Ele se perguntava como alguém desesperado por respostas. Por que entre tantas mulheres no mundo, justo ela teve que cruzar o caminho de Roberto? Justo ela?
Podia ser qualquer uma. Podia ser qualquer outra mulher. Mas não… Tinha que ser Alicia. A dele.
Ele se culpava. Se culpava por estar ali, por desejar a esposa do filho. Mesmo sabendo que foi antes, mesmo sabendo que eles não trocaram nomes, que foi uma noite perdida na imensidão do mundo… agora não era mais uma lembrança. Era uma maldição.
João andava pela sala como um leão enjaulado, desesperado pela liberdade que não tinha mais. A cada passo, seu peito doía mais. A cada lembrança dela, sua pele ardia.
— Eu não posso lutar por ela… — disse baixo, sentindo o nó na garganta. — Não posso… seria lutar contra o meu próprio filho.
A imagem de Roberto pequeno veio à mente. As brincadeiras, as aulas de futebol, as conversas depois da morte da mãe. Roberto era sua vida. Era o que ele tinha de mais puro e verdadeiro.
Mas agora, era também o obstáculo entre ele e o que restava do seu desejo.
As mãos de João começaram a rasgar a própria camisa com fúria, como se o tecido pudesse levar embora a dor, como se pudesse arrancar do peito aquele sentimento.
— Isso é errado! É errado! — gritou, rasgando as mangas e jogando o pedaço no chão.
Mas por mais que dissesse, por mais que tentasse convencer a si mesmo, a verdade era uma só: ele queria Alicia. Queria como nunca quis nada na vida. Nem mesmo a mãe de Roberto o tinha feito sentir aquilo. O desejo, a paixão, o enlouquecimento absoluto.
E o pior? Ela também queria ele. Ele viu nos olhos dela na festa. Sentiu no corredor. Sabia pelo jeito que ela tremia, pelo modo como o olhava, pelo modo como quase se entregou ali mesmo, com o vestido de noiva no corpo.
O sentimento era recíproco. Isso era o que mais o atormentava.
Ele imaginava Roberto agora, talvez naquele momento, fazendo amor com Alicia, acreditando que estava vivendo o melhor momento da vida dele. E João… João estava ali, sozinho, nu no meio da sala, despido de qualquer dignidade, despido de qualquer força.
O que mais poderia perder? Já tinha perdido tudo sem nem ter começado.
Por minutos ficou ali, parado, respirando fundo, encarando o nada.
Mas foi então que uma chama acendeu no fundo da mente dele.
Uma decisão.
— Eu não vou desistir dela. — A voz saiu baixa no começo. Mas logo se transformou em promessa. — Eu não vou desistir dela. Nem que isso me destrua. Nem que isso destrua tudo. Ela é minha.
O olhar de João estava vermelho, os punhos cerrados, a respiração pesada.
O certo e o errado se misturavam agora. O homem bom que educou o filho e o homem selvagem que amou uma mulher se tornaram um só. Não importava mais a lógica, a moral ou o juízo. Importava o que ele sentia.
João estava pronto pra enfrentar o mundo. Mesmo que o mundo fosse seu próprio filho.
Ele beberia mais uma dose. Ele faria o que fosse necessário.
Porque agora, mais do que nunca, Alicia era dele.
E ninguém o impediria de lutar por ela.