Capítulo 23

1010 Words
A lua refletia prateada sobre o mar Egeu, e a brisa quente que invadia o quarto do hotel misturava o aroma salgado do oceano ao perfume caro que Roberto havia escolhido para aquela noite mais que especial. O ambiente estava perfeito: cortinas claras esvoaçando, as luzes baixas deixando tudo num tom aconchegante e íntimo, e o som distante das ondas quebrando lá embaixo como um convite para um momento inesquecível. Roberto a olhava com devoção, um sorriso satisfeito nos lábios, como se não coubesse em si de felicidade. Afinal, ele estava ali, casado com a mulher que escolheu para dividir a vida. A mulher que amava, desejava e que agora era sua esposa de papel passado e aliança na mão esquerda. Mas Alicia, por dentro, era só bagunça, uma confusão enorme que ela nem sabia por onde começar a arrumar. Ela queria estar inteira ali por ele. Queria olhar para aquele homem bom, dedicado, fiel e carinhoso, e se entregar de corpo e alma como ele merecia. Mas a verdade é que ela não conseguia desligar a cabeça, não foi por falta de tentar, ela tentava, mas nada contribuía. O cheiro do mar não era o cheiro daquela noite. O cheiro que queimava na memória dela era outro: aquele perfume amadeirado, misturado ao sal da pele de João. O calor que subia pelas coxas naquela noite não era o mesmo que sentia agora. Fechou os olhos com força, tentando afastar o rosto de João que teimava em invadir seus pensamentos. Mas não conseguiu. Era ele. Sempre ele. Desde aquela maldita noite na Grécia, desde aquele maldito acaso que agora se tornava tragédia pessoal: estar casada com o filho do homem que fez seu corpo tremer como nunca, que fez ela acreditar em amor a primeira vista, em almas gêmeas e agora em destino... — Meu amor… — Roberto sussurrou, afastando os cabelos dela para beijar a nuca, sua voz era baixa e carregada de desejo. A pele dela reagiu automaticamente. Os pelos se arrepiaram. Alicia forçou um sorriso e virou o rosto, aceitando o beijo dele, tentando desesperadamente encontrar ali o prazer que devia sentir. Era Roberto, o homem que a amava. O homem certo. Mas o certo nunca pareceu tão errado. Quando ele começou a deslizar as mãos pela cintura dela e a beijar com mais intensidade, Alicia tomou uma decisão silenciosa: pelo bem dele, ela faria isso funcionar. Ele não merecia sofrer. Se não conseguisse por si, conseguiria por ele. Fecharia os olhos, silenciaria o coração, fingiria que estava tudo certo. E foi assim que ela fez. Enquanto os beijos de Roberto desciam para os s***s e suas mãos exploravam seu corpo com adoração, ela afastou a mente dali. Em vez de enxergar o marido, Alicia criou um cenário na própria cabeça: a noite quente na praia, o som distante da música vinda de algum bar, os olhos escuros e intensos de João a devorando com o olhar. Era João quem a tocava. João quem sussurrava em seu ouvido palavras indecentes. João quem mordia sua pele e a fazia perder o controle. Roberto dizia “meu amor”, mas na mente dela era João quem chamava por ela com aquela voz rouca e quente, carregada de desejo. As mãos firmes que a seguravam agora pareciam mais fortes, mais maduras, mais experientes. O toque que antes era suave agora imaginava rude, no limite entre o carinho e o domínio. As estocadas que vinham devagar, cuidadosas, Alicia transformava em investidas vorazes em sua imaginação. E foi assim, perdida nessa ilusão perigosa, que o prazer começou a surgir. Ela mordeu o lábio inferior, abafando o gemido, enquanto deixava o corpo se entregar ao marido… pensando no pai dele. Roberto interpretou o gemido como um sinal claro de entrega e se empolgou mais. Segurou firme as coxas dela, encaixando seus quadris nos dela, movendo-se com desejo sincero e apaixonado. — Eu te amo tanto, Alicia… — sussurrava entre os beijos, deslizando a boca pelo pescoço dela. Alicia queria responder. Queria dizer “eu também”, mas m*l conseguia se concentrar nas palavras. Todo o foco estava em sustentar aquela encenação interna. Se dissesse qualquer coisa naquele momento, tinha medo que a voz traísse seus sentimentos verdadeiros. Era c***l. Ela estava ali fazendo amor com o marido pensando no sogro. O ápice veio rápido demais. Talvez pelo tempo que não se entregavam, talvez pela ansiedade acumulada, talvez pela própria ilusão que ela alimentava na mente. Roberto terminou, ofegante, deitando o rosto sobre o peito dela, exausto, sorrindo como um menino que ganhou o maior prêmio da vida. — Você é perfeita… — murmurou, completamente realizado, com um sorriso preguiçoso. Alicia manteve os olhos fechados, sentindo o suor escorrer pela têmpora. Perfeita. Era isso que ele via. E ela se sentia o oposto: despedaçada por dentro. Depois de alguns minutos, Roberto adormeceu ao lado dela, os dedos ainda entrelaçados nos dela, o sorriso ainda desenhado no rosto satisfeito. Alicia ficou ali, imóvel, olhando para o teto. O quarto lindo, o cheiro do mar, a brisa morna… tudo deveria ser perfeito. Mas tudo parecia errado. Ela sabia que estava enganando Roberto. Sabia que estava traindo não com o corpo, mas com a alma. Porque trair com a alma também é trair. E nesse momento, o corpo inteiro dela pertencia a outro homem. As lágrimas vieram devagar, silenciosas. Não queria acordar Roberto. Não queria quebrar a ilusão dele, nem a própria ilusão que estava tentando criar pra si. Mas o aperto no peito era insuportável. O peso daquela mentira doía mais do que qualquer verdade jamais poderia doer. Ela virou o rosto para a janela aberta. Olhou para o mar escuro e pensou: Será que algum dia eu vou conseguir me libertar disso? Será que algum dia eu vou poder olhar para Roberto e amá-lo por completo, sem que uma parte de mim esteja em outra pele, em outro toque, em outro homem? Não tinha respostas. Só o silêncio da madrugada grega como companhia. E no fundo, ela sabia: aquilo era só o começo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD