Faltavam apenas dois dias. Dois míseros dias e, oficialmente, eu me tornaria a senhora Assunção. Era surreal pensar que o momento que sonhei durante tanto tempo estava tão perto. Deveria estar radiante, empolgada, vivendo aquela euforia típica de noiva... e até estava. Pelo menos, em partes.
O problema... bom, o problema era aquele homem da Grécia. Sim, ele. Aquele desconhecido que, mesmo sem saber meu nome — e eu também não saber o dele —, havia invadido meus sonhos, meu corpo, minha mente… e, de uma forma completamente insana, meu coração. Desde aquele dia, parecia que uma parte minha não me pertencia mais. Ficou lá. Ficou nele.
Respirei fundo, massageando minhas têmporas, tentando afastar aqueles pensamentos. Não fazia sentido! Era loucura, coisa de filme, de novela, de livro... não da vida real. A chance de encontrá-lo novamente era, literalmente, zero. Ele podia morar na Grécia, no Brasil, ou em qualquer outro canto do planeta. Na verdade, ele poderia nem se lembrar de mim, nem daquele encontro. Pra ele, eu podia ter sido só mais uma. Mas pra mim… não. Pra mim foi diferente. Foi marcante. Foi como se... como se eu fosse dele desde sempre, desde antes mesmo daquele dia.
Suspirei, segurando um sorriso bobo no canto dos lábios. E, imediatamente, me senti culpada.
— Chega, Alicia — murmurei pra mim mesma, olhando meu reflexo no espelho — Você ama o Roberto. E ponto.
E era verdade. Eu o amava. Ele mexia comigo de formas que ninguém jamais mexeu. Era carinhoso, gentil, parceiro, um homem incrível. Um gato, jovem, trabalhador, divertido, romântico… o pacote completo. Prestes a dividir a vida toda comigo. E aqui estou eu… desejando um senhor, que tem idade pra ser meu pai... ou até meu avô. Dou risada sozinha. Quem me vê pensa até que eu sou doida. Mas, sejamos sinceros, ninguém escolhe essas coisas. Não dá pra controlar quem mexe com você, quem te tira o ar, quem te vira do avesso.
O casamento… bom, o casamento também era uma tentativa. Uma tentativa real, honesta, de seguir em frente, de construir a minha vida, de deixar pra trás aquilo que não existe — ou que, se existiu, ficou lá, preso naquele instante.
E se por acaso — o que eu sei que não vai acontecer — ele aparecesse depois que eu me casasse? Bem, seria triste, sim. Muito triste. Uma parte de mim, talvez, se despedaçasse. Mas eu não seria do tipo que largaria meu marido, jogaria tudo pro alto. Não. Casamento pra mim é coisa séria. É pra sempre. E o Roberto não merece isso, não merece ser traído, enganado... jamais. Eu tenho princípios. Eu sou uma mulher de palavra.
Sacudi a cabeça, afastando todos aqueles pensamentos. O dia estava cheio.
Segui pra última prova do vestido. Quando entrei no ateliê, meu coração acelerou. Lá estava ele, pendurado, reluzindo, perfeito... meu vestido dos sonhos. Quando o vesti, parecia que havia sido desenhado no meu corpo. Assentava como uma luva, marcando minha cintura, realçando meu colo, abraçando cada curva com delicadeza. Me olhei no espelho por longos minutos, girando de um lado pro outro, e meus olhos se encheram de lágrimas.
— Está maravilhoso, Alicia! — disse a costureira, sorrindo — Você vai estar deslumbrante no seu grande dia.
— Está perfeito. — respondi, segurando o choro.
Depois do vestido, fui direto pro teste final de maquiagem. A maquiadora caprichou. Sombra iluminada, pele impecável, cílios enormes, batom nude puxado pro rosado... exatamente do jeitinho que eu queria. Quando me olhei, quase não me reconheci.
— Meu Deus... eu vou casar! — falei em voz alta, rindo, e todas no salão riram junto comigo.
A ficha estava começando a cair.
À noite, tinha combinado de encontrar o Roberto no buffet pra fazermos a degustação final. Cheguei animada, querendo contar como tudo estava ficando perfeito, mas, assim que bati os olhos nele, percebi que algo estava errado. Seu semblante estava abatido, os olhos marejados, expressão pesada.
— O que foi, amor? — perguntei, já apreensiva, segurando sua mão.
Ele respirou fundo, apertou meus dedos nos dele e respondeu, com a voz embargada:
— Falei com o médico do meu pai… — pausou, tentando conter a emoção — Ele acha que meu pai não vai conseguir ir no casamento. A imunidade dele tá muito baixa, Alicia. E... — sua voz falhou — E eu queria tanto que ele estivesse lá... Queria te apresentar pra ele oficialmente, no altar, como minha esposa. Eu sonhei tanto com esse dia...
Meu coração apertou. Ver o Roberto assim, vulnerável, partido, me doeu de uma forma que eu nem sei explicar. Enlacei seu rosto entre minhas mãos e falei com toda a certeza que eu tinha no peito:
— Ei… olha pra mim. — esperei seus olhos encontrarem os meus — Vai dar tudo certo, amor. Pensa positivo. A gente tem que acreditar, confiar. Seu pai é forte. Ele vai melhorar, vai se recuperar e vai estar lá. Vai estar lá, orgulhoso, sorrindo, aplaudindo quando dissermos o nosso “sim”. — sorri, tentando transmitir confiança — E, se por acaso não der… ele vai estar conosco de qualquer forma. Aqui. — toquei no peito dele — E aqui. — toquei no meu.
Ele me puxou pra um abraço apertado, e eu senti seu corpo estremecer contra o meu. Ficamos assim por alguns segundos, só nos segurando, nos acalmando, até ele sussurrar:
— Eu te amo, Alicia.
— Eu também te amo, Roberto. Muito.
Depois disso, o clima aliviou um pouco. A degustação foi perfeita. Provamos cada detalhe do cardápio — dos canapés às entradas, dos pratos principais às sobremesas. Confesso que nunca comi tanto na vida. Rimos, discutimos qual era o melhor vinho, qual doce escolher pro topo da mesa. Cada decisão parecia tornar tudo ainda mais real, mais próximo, mais palpável.
— Você acha que a gente deve escolher esse aqui? — ele perguntou, segurando um bombom de nozes.
— Acho que sim. Mas, se continuar assim, a gente vai casar é com uns cinco quilos a mais cada um! — brinquei, e ele gargalhou.
Depois do buffet, saímos pra caminhar no parque. O clima estava fresco, uma brisa gostosa batendo no rosto, o céu começando a se encher de estrelas.
Andávamos de mãos dadas, em silêncio por alguns minutos, até que ele quebrou o clima:
— E depois do casamento... o que você sonha, amor? — perguntou, apertando meus dedos nos dele.
Sorri, olhando pro horizonte.
— Eu sonho com uma vida simples, feliz. Uma casa cheia de amor, de risadas, de café passado na hora. Sonho com você chegando do trabalho, me abraçando na porta. Sonho com filhos... dois, três... quem sabe quatro! — rimos — Uma vida de parceria, de cumplicidade, de carinho.
— Eu também sonho com isso. — ele respondeu, sério — E, se depender de mim, você vai ter tudo isso. Tudo. Porque eu vou te fazer a mulher mais feliz desse mundo, Alicia.
Parei, puxei ele pela mão e o abracei forte.
Ali, naquele instante, eu me lembrei do porquê estava prestes a me casar. Porque, apesar dos fantasmas que me rondavam, das memórias que insistiam em me perseguir, o que eu tinha com o Roberto era real. Era amor. E era aqui que eu pertencia.
Pelo menos... era isso que eu achava.