Mesmo após o fim do lockdown, a vida de João ainda não retomava o ritmo normal. Os médicos haviam sido claros: nada de escritório, nada de visitas. Sua imunidade estava em baixa e sua saúde já dava sinais de desgaste. Era preciso cuidado redobrado. A idade e os históricos de saúde o colocavam diretamente no grupo de risco.
A única presença além de Dona Cida, a empregada que agora era quase uma enfermeira improvisada, era a do médico que o visitava semanalmente.
— O senhor está indo muito bem, senhor João — disse o médico, ajeitando os óculos enquanto conferia o prontuário. — Mas precisa continuar em isolamento. O vírus ainda está matando. E o seu corpo… bem, está fragilizado. Uma infecção agora poderia ser fatal.
João assentiu com um olhar resignado. O coração apertado. Ele sabia que era necessário. Mas saber nem sempre acalmava a alma.
Naquela tarde, ele se sentou na poltrona da varanda com o celular em mãos. O sol batia de leve, e a brisa morna parecia querer aliviar o peso dos dias solitários. Quando o telefone tocou, o nome “Roberto” apareceu na tela. João atendeu de imediato, como sempre fazia.
— Fala, meu filho…
Do outro lado da linha, a voz de Roberto carregava emoção.
— Pai… eu vou noivar.
João ficou em silêncio por um segundo, o coração batendo mais rápido.
— É mesmo? — a voz saiu trêmula.
— Eu queria esperar tudo isso passar pra você estar presente. Deus sabe o quanto eu queria que o senhor estivesse lá, me abraçando. Mas... eu não consigo esperar, pai. Ficar aqueles dias todos confinado com a Alicia me fez ter certeza. É com ela que eu quero passar o resto da minha vida. E o melhor... é que ela também quer.
Do outro lado, João sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto enrugado. Ele apertou o lenço no punho da camisa e respirou fundo. Era alegria, era emoção, mas também uma pontada de tristeza por não poder estar lá. Ele era o único parente próximo de Roberto. E ele queria tanto ver esse momento, o brilho nos olhos do filho, o sim, o amor.
— Eu te entendo, filho… E estou tão, tão orgulhoso de você. Por ter encontrado esse amor, por ter coragem de seguir em frente. E se ela te faz feliz, então ela é parte da nossa família agora. Eu amo você. E mesmo longe, eu vou estar com vocês nesse dia.
— Eu também te amo, pai.
Eles choraram juntos. Cada um em um canto da cidade, separados por um vírus, por uma condição médica, por uma pandemia… mas conectados por algo mais forte. Por amor.
O destino, sempre cheio de reviravoltas, parecia já estar preparando o próximo capítulo. Porque quando dois amores estão entrelaçados – o amor de pai e filho, e o amor de um casal recém-formado – nenhum isolamento é forte o suficiente para afastar o que é verdadeiro.
Semanas depois...
A sala do salão reservado em um restaurante sofisticado da cidade estava deslumbrante. Luzes amareladas, velas nas mesas, flores brancas e verdes decorando cada canto com elegância. Um quarteto de cordas tocava ao fundo, enquanto os convidados brindavam com champanhe gelado e sorrisos sinceros.
Todos ali devidamente fizeram o exame antes de entrar, local seguro onde podiam celebrar.
Alicia usava um vestido tom champagne de tecido leve e corte impecável, os cabelos soltos em ondas suaves e a maquiagem discreta que realçava ainda mais a beleza natural dela. Ela estava radiante, com os olhos brilhando mais que qualquer joia naquela noite.
Roberto, de terno azul-marinho sob medida, não tirava os olhos dela. Estava visivelmente emocionado, e cada gesto seu transmitia orgulho. Quando os convidados se acalmaram e o som baixou, ele subiu ao pequeno palco montado ao fundo do salão e chamou Alicia ao seu lado.
— Boa noite a todos. Hoje, eu poderia fazer um discurso longo… mas não vou. Porque tudo o que eu quero dizer tá bem aqui — ele virou-se para Alicia e segurou sua mão — você é a mulher da minha vida. E eu não vejo mais sentido em continuar sem você ao meu lado pra sempre.
A plateia se emocionou, e ele ajoelhou-se ali mesmo, sem medo ou hesitação.
— Casa comigo?
— Sim! — disse ela com a voz trêmula de emoção, enquanto as palmas estouravam no salão e todos se levantavam para aplaudir.
Os pais de Alicia estavam ali, com lágrimas nos olhos. Amigos de infância, colegas de profissão dela foram convidados. Entre os convidados de Roberto estavam alguns sócios do escritório, Tobias — o amigo que ajudou a escolher o anel de noivado — e muitos outros colegas de faculdade e amizades construídas ao longo da vida.
Mas, no meio de toda aquela celebração, havia um espaço vazio: João, o pai de Roberto.
Ele não pôde ir. O isolamento ainda era necessário por conta da saúde fragilizada. E, para piorar, João insistia em usar aquele velho celular que só fazia ligações simples. Nada de vídeo. Nada de imagem.
No entanto, em casa, sentado em sua poltrona, com uma camisa arrumada e o celular grudado ao ouvido, ele escutava tudo. Tobias havia deixado a chamada no viva-voz, narrando em detalhes o que via.
— Agora ele ajoelhou, João… a Alicia tá chorando, cara. Que coisa linda… — dizia Tobias, segurando a emoção e tentando ao máximo descrever tudo.
João apertava os olhos, respirava fundo e imaginava. Imaginava o filho dele ali, com aquele olhar cheio de amor. Imaginava o brilho nos olhos da futura nora. E, no fundo, sentia como se estivesse presente.
Quando a ligação se encerrou, ele ficou alguns minutos em silêncio. Depois levantou-se devagar, foi até a pequena estante onde guardava fotos de família e pegou uma moldura antiga.
Era uma foto dele com o filho ainda pequeno nos braços.
— Você cresceu, garoto. E agora é um homem que ama de verdade… — murmurou, com um sorriso orgulhoso.
No salão, Roberto e Alicia dançavam uma música lenta. Ela com a cabeça apoiada no ombro dele, e ele com os olhos fechados, como se naquele momento nada mais importasse.
A vida, de repente, parecia perfeita.
E, mesmo com a ausência física, o amor de João estava presente. Invisível, mas inteiro. Como só o amor de pai consegue ser.
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