Capítulo 10

1655 Words
Alicia vivia um momento mágico. Rodeada de amor, carinho e entusiasmo por parte de todos à sua volta, principalmente de Roberto, que fazia questão de cuidar de cada detalhe do casamento como se fosse a realização de um sonho antigo. Mas, no fundo do peito, em uma caixinha escondida de lembranças, havia algo que ainda a fazia suspirar em silêncio: o homem da Grécia. Era quase como um fantasma sensorial. Um toque que o tempo não apagava, uma conexão inexplicável que o corpo ainda reconhecia. Às vezes, quando estava sozinha no banho ou deitada antes de dormir, flashes daquela noite surgiam, como se seu corpo se lembrasse mesmo quando sua mente tentava esquecer. Ela não sabia o nome dele. Não sabia de onde vinha, nem se um dia voltaria a vê-lo. Aquele homem era só uma lembrança quente e profunda, sem rosto completo, sem identidade, mas cheia de intensidade. Mas Alicia não era mulher de viver presa ao passado. Ela havia feito uma escolha — e era Roberto. Ele era bom, carinhoso, presente. Um homem que a tratava como prioridade, que fazia questão de dizer o quanto a amava, que olhava para ela com um brilho nos olhos que não deixava espaço para dúvidas. E agora… eles estavam prestes a se casar. Os preparativos estavam a todo vapor. O apartamento deles vivia cheio de catálogos, amostras de tecidos, paletas de cores, e taças de espumante que as amigas brindavam em cada nova escolha. Roberto queria um casamento digno de revista, mas com a alma deles: íntimo, elegante e cheio de significado. E fazia de tudo para agradar a noiva. — A gente precisa de bem-casados de pistache! — ele insistiu, rindo, enquanto Alicia e as amigas provavam diferentes docinhos. — Só se tiver de doce de leite também! — retrucava Fabiana, arrancando risadas. Camila e Fabiana estavam mais próximas do que nunca. Participavam de tudo — da escolha do vestido aos mínimos detalhes das lembrancinhas. — Eu sabia que vocês iam dar certo — disse Camila, enquanto experimentavam os arranjos florais no ateliê. — E eu sou grata por você ter nos apresentado. — Alicia sorriu, pegando nas mãos da amiga com sinceridade. — Você foi a ponte pra tudo isso acontecer. Camila ficou emocionada. — Eu só dei o empurrão. O resto foi por conta de vocês. O amor é coisa de alma, e vocês se reconheceram logo de cara. Alicia sorriu, mas por dentro o coração bateu um pouco mais forte. Ela queria muito acreditar que aquele era, de fato, o amor da alma. E talvez fosse. Mas também era verdade que, em algum lugar do mundo, ainda existia um homem de olhos misteriosos, de toque marcante, que havia deixado um pedaço dela em uma praia grega… e levava consigo uma parte que ninguém mais conhecia. Ainda assim, Alicia respirou fundo, ergueu a taça de espumante e brindou com as amigas. — Ao amor que escolhemos viver. — disse, convicta. E naquele momento, mais do que nunca, ela decidiu mergulhar de vez no presente. No amor real. No homem que estava ao lado dela. --- Alicia estava imersa num redemoinho de emoções. O amor que Roberto oferecia era diferente de tudo que ela já havia vivido. Não havia mistério ou incertezas — havia presença. Constância. Um calor tranquilo que aquecia sem queimar. Mesmo com lembranças insistentes do homem da Grécia, ela se permitia viver cada momento ao lado de Roberto com intensidade verdadeira. E, quanto mais o conhecia, mais admirava quem ele era por dentro. Ele não era só carinho — era força, sensibilidade, bom humor, inteligência. Sabia ouvir. Sabia abraçar. Sabia estar. Certa noite, enquanto revisavam juntos a lista de convidados, Alicia o observou concentrado, rabiscando os nomes com a caneta entre os dedos. — Você está levando isso mais a sério que eu — ela provocou, sorrindo. Roberto levantou o olhar e devolveu o sorriso, mas com aquele jeito que só ele tinha, meio malicioso, meio encantador. — Claro que estou. Eu vou me casar com a mulher da minha vida. Isso merece dedicação total. Ela mordeu o lábio inferior, balançando a cabeça com leveza. — Você sempre fala isso… — Porque é verdade. — Ele se aproximou, sentando ao lado dela no sofá, pegando delicadamente sua mão. — Não vou deixar você esquecer nunca. Que foi você quem trouxe essa paz, essa vontade de construir, essa certeza… Foi você que virou meu mundo do avesso. E eu gosto dele assim. Alicia sentiu o peito apertar de ternura. Ele era mesmo encantador… e o amor dele estava ali, em cada gesto, cada toque, cada palavra. — Eu também sinto isso, sabia? — Ela disse baixinho, com sinceridade. Roberto se inclinou e a beijou com calma, como se quisesse memorizar o gosto da confirmação que ela acabava de lhe dar. Os lábios se tocaram com doçura, e o beijo logo se tornou mais profundo, cheio de desejo contido e conexão. Depois, ficaram abraçados no sofá, Alicia com a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas tranquilas do coração de Roberto. Ele fazia carinho em seu cabelo, em silêncio. — Imagina nossa casa? — ele murmurou de repente. — Um jardim, uma rede na varanda, e você cozinhando suas receitas malucas de dieta que eu vou fingir que amo… Ela riu, se apertando mais nele. — E nossos filhos correndo pela casa, desenhando nas paredes. — Filhos? Já estamos aí? — Ué, você começou a imaginar. Eu só completei o cenário. — ela provocou, com um brilho nos olhos. Roberto a apertou num abraço gostoso. — Então vamos desenhar esse futuro juntos. Um traço por dia. Com paciência, amor e desejo. E assim seguiam. Entre provas de vestido, degustações de buffet e conversas longas madrugada adentro. Entre beijos na cozinha enquanto o arroz queimava e sorrisos trocados durante uma música no rádio. Porque, mesmo com fantasmas no passado, o amor que ela vivia agora era real. Era leve. Era intenso. Era o tipo de amor que se escolhe, todos os dias. --- A pandemia ainda impedia João de ver o filho, e as ligações diárias eram a ponte entre eles. Naquela noite, Alicia estava no sofá, enrolada numa manta, assistindo a terceira temporada da série que insistia em rever, enquanto Roberto saiu para a varanda do apartamento dela com o celular em mãos. — Já volto, amor. Vou falar um pouquinho com meu pai, tá? — ele disse, se inclinando para beijar de leve a cabeça dela. — Claro, fica à vontade — respondeu Alicia, sorrindo com carinho. O clima lá fora estava frio, e Roberto apertou o casaco contra o corpo enquanto esperava a chamada completar. João atendeu na segunda tentativa, com a voz animada, apesar do isolamento. — Oi, pai. Tudo bem aí na prisão? — brincou Roberto, com um sorriso debochado. — Tudo certo, filho. E você e a Alicia? Muito trabalho com os preparativos? — perguntou João, rindo do apelido que o filho tinha dado ao apartamento de onde ele não podia sair. — Muito. Cada dia uma decisão nova pra tomar. Mas estamos empolgados. Decidimos morar no meu apê mesmo, as casas estão caras demais e não tem necessidade de algo maior por enquanto. — Quero netos logo, hein! Se precisar de dinheiro, pode me pedir — disse João com aquele tom de pai que mistura cobrança e generosidade. — Calma, pai. Já decidimos. Filhos só depois de uns três anos. Ainda temos tempo. — Roberto respondeu entre risos. João fez um som de protesto do outro lado da linha. — Ah, se eu encontrasse a minha gata da Grécia, ia querer filho logo no primeiro ano de casados! — Meu Deus, pai! Vai me dar irmãos? — Roberto fingiu indignação. — Torço muito pra que o senhor encontre logo, então. Os tios dos meus filhos têm que ser mais velhos, nem que seja por um ano! Os dois riram juntos, cúmplices. O silêncio que veio depois foi leve, confortável. A ligação foi encerrada com promessas de outro papo no dia seguinte. Roberto voltou para a sala sorrindo e se jogou no sofá, ao lado de Alicia. Ela pausou o episódio e se virou para ele, com um brilho curioso nos olhos. — Estavam se divertindo. Ouvi sua risada daqui. — Sim. Meu pai disse que quer ter mais filhos. Acredita nisso? — Ele é novo, né? Tá certo. Tem que aproveitar a vida como quiser. Quero muito conhecer ele. Deve ser uma pessoa bem legal — Alicia disse, deitando a cabeça no colo de Roberto. Ele começou a fazer carinho nos cabelos dela, distraído, como se aquele gesto fosse o mais natural do mundo. — Pois é. Tenho certeza de que vocês vão se gostar. São parecidos... aventureiros, apaixonados por viagens. Vão ter muito assunto. — disse Roberto, com um brilho orgulhoso nos olhos. — Pena que ele não pode receber visitas. Queria muito que isso tudo acabasse antes do casamento... — Alicia falou, a voz baixa, quase como um desejo jogado ao universo. — Eu também, amor. Mas a gente vai dar um jeito. Ele vai te conhecer, nem que seja por chamada de voz todo dia. Ela sorriu e o puxou pela camisa, num beijo calmo, profundo, que dizia tudo o que palavras não alcançavam. O resto da noite passou devagar, do jeito bom. Ficar juntos já era uma celebração. Abraçados no sofá, dividiram vinho, conversas leves, lembranças e planos. Beijaram-se como quem se escolhe todos os dias. A TV seguiu passando cenas esquecidas, enquanto eles se perdiam um no outro. Lá fora, o mundo ainda enfrentava incertezas, mas ali dentro, o amor crescia com força, construído em cada pequeno gesto, em cada riso, em cada toque. Eles não sabiam o que o amanhã traria. Mas naquela noite, estavam exatamente onde queriam estar. E isso bastava. ADICIONE O LIVRO NA SUA BIBLIOTECA VOTE NO BILHETE LUNAR COMENTE MUITO PRA EU PODER SABER QUE ESTÃO GOSTANDO
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