A madrugada estava silenciosa, quebrada apenas pelo som distante da cidade que aos poucos voltava à rotina. No quarto levemente iluminado pela luz do abajur, Alicia se remexeu na cama. Seus olhos se abriram de repente, ofegantes. Estava suada, o corpo quente, o coração acelerado como se tivesse corrido uma maratona.
Ela passou a mão pela testa úmida e tentou se acalmar. Mais uma vez, o sonho. Mais uma vez aquele homem. A pele dela ainda parecia arder onde, no sonho, havia sido tocada. Era como se cada encontro com ele em sua mente deixasse marcas reais.
Roberto se virou, ainda com a voz carregada de sono, mas atento.
— Tudo bem, amor? — perguntou, ao notar a respiração agitada dela. Esticou a mão, tocando seu braço. — Nossa, você tá pingando… Tá passando m*l?
Alicia fechou os olhos por um segundo. Ela não queria mentir, mas também não sabia como explicar.
— Estou bem… Foi só um sonho. — tentou amenizar, sua voz um pouco rouca.
— Pesadelo, né? — ele disse com preocupação sincera. — Vem cá… deita aqui comigo.
Roberto a puxou com delicadeza para seu peito, envolvendo-a nos braços. Acariciou com carinho a pele da noiva, deslizando os dedos pelas costas dela como se quisesse afastar qualquer m*l que o sonho pudesse ter deixado.
Alicia se aconchegou. O toque de Roberto era reconfortante, familiar, cheio de amor. Era tudo o que ela sempre disse querer.
Mas seus olhos ainda estavam abertos.
O coração ainda batia fora de ritmo — não por medo, mas por desejo. Era isso que mais a assustava. O sonho não havia sido um pesadelo. Pelo contrário, havia sido tão real, tão intenso, que seu corpo reagia como se o homem misterioso tivesse mesmo estado ali, em carne e osso.
E como sempre… ela acordava sem saber quem ele era. Não havia nome, havia rosto e corpo completo, sensações. A força de seus braços, o calor de sua pele, a forma como a olhava como se pudesse enxergar sua alma.
Ela mordeu o lábio, culpada. Apertou os olhos com força, tentando apagar tudo da mente. Estava com Roberto, estava prestes a casar. Era por ele que ela devia estar apaixonada. E ela estava. Estava, sim. Só que, por alguma razão, aquele homem do passado ainda a assombrava — ou a excitava — durante as madrugadas.
— Você quer que eu pegue um copo d’água? — Roberto perguntou, com ternura. — Ou um remédio? Você ficou tão agitada...
— Não… fica comigo só mais um pouquinho assim. — pediu Alicia, mais para si mesma do que para ele.
— Sempre, amor. — respondeu ele, beijando sua testa com carinho.
Alicia fechou os olhos, dessa vez tentando se concentrar na respiração de Roberto, no som tranquilo do seu coração. No futuro que os dois estavam construindo. Ela precisava seguir em frente. Precisava deixar aquele passado sem nome, sem rosto e sem chance, morrer nos sonhos.
Mas, naquele instante, mesmo nos braços do homem que a amava… ela ainda sentia o toque de outro.
E isso, ela sabia, um dia viria à tona.
---
As noites seguintes não trouxeram alívio.
Alicia continuava acordando suada, com o coração acelerado, invadida por sensações que não se esvaíam ao nascer do sol. O homem misterioso que conheceu na Grécia — aquele com quem dividira apenas uma noite — ainda morava em seus sonhos. Mais do que isso: morava em seu corpo.
Ela tentava ignorar, racionalizar, sufocar. Mas havia algo ali que não passava. Algo que nem mesmo o amor que sentia por Roberto conseguia silenciar por completo.
Estava com medo.
Medo de que aquele homem voltasse. Medo de que um dia ele simplesmente aparecesse, atravessando a rua, surgindo numa fila, olhando para ela em meio a uma multidão. E se isso acontecesse… Alicia sabia, no fundo, que não teria forças para fugir. Porque, por mais que ela quisesse seguir em frente, aquela única noite havia marcado sua alma com ferro quente. Uma noite. Apenas uma. Mas tão intensa, tão cheia de conexão, que ela ainda sentia o toque dele percorrendo sua pele como um raio de energia elétrica.
Sentia as pernas ficarem bambas.
Sentia a i********e reagir, mesmo agora, só de pensar.
Era difícil conviver com esse segredo. Roberto era um homem incrível. Atencioso, carinhoso, dedicado. Amava-a de um jeito puro, e fazia questão de mostrar isso em cada gesto, cada palavra. Estavam praticamente casados, mesmo antes do altar. Não se largavam, dividiam tudo: o lar, os planos, os medos. Ele confiava nela com os olhos fechados. E Alicia… não podia contar. Não podia dizer que sonhava com outro. Que amava aqueles sonhos. Que ansiava por eles como um vício silencioso.
Então ela fez o que podia: falou com as únicas pessoas que sabiam de toda a história.
Camila, Marisa, Bruna e Rafaela — as amigas que foram com ela à Grécia.
Naquele fim de semana, elas se reuniram no café onde sempre marcavam encontro, num cantinho aconchegante da cidade. Entre risos, bolos e cafés elaborados, Alicia desabafou.
— Eu juro, meninas, eu tô tentando. Mas ele ainda vive em mim… nos meus sonhos. — disse com os olhos baixos, mexendo na caneca de capuccino.
— Amiga, foi só uma noite. E já faz quase dois anos! — Marisa respondeu, surpresa com a persistência da lembrança. — Você nem sabe o nome dele, nem de onde ele é… pode muito bem morar lá mesmo, em alguma ilha da Grécia. Vai ver nem fala português de verdade, só aprendeu algumas frases pra se virar com turistas.
— A gente te incentivou a ficar com ele — disse Bruna, sincera —, mas ninguém imaginava que isso ia virar essa obsessão.
— Não é obsessão. — Alicia rebateu, embora sua voz denunciasse a dúvida. — É… é como se meu corpo lembrasse de tudo e não deixasse ir embora. Eu não amo esse homem. Não posso amar alguém que eu nem conheço. Mas… ele me marcou. E isso me assusta.
Rafaela apoiou a mão sobre a dela.
— O que você tem com o Roberto é real. É amor, é companheirismo, é escolha. O outro foi impulso. Desejo. Um daqueles encontros raros que acontecem e somem no tempo. Mas o que você construiu aqui, isso vale a pena.
Alicia assentiu, tentando absorver. Elas estavam certas. O homem misterioso podia nem estar mais no mesmo continente. Podia ser casado, pai, quem sabe até inventado — um reflexo idealizado de um momento de liberdade.
No fundo, ela queria acreditar nisso.
Ela voltou para sua rotina. Os dias no consultório de nutrição estavam cheios. Recebia pacientes novos, atendia antigos, ajudava gente a se reencontrar com a saúde — como ela mesma tentava se reencontrar com a razão.
O casamento se aproximava. O noivado com Roberto já era quase um casamento informal. Ele aparecia no consultório com flores. Levava marmitas quando ela não tinha tempo de almoçar. Enchia sua vida de gestos. E ela amava isso nele. Amava o homem que ele era. O parceiro que se mostrava ser em todos os detalhes.
Alicia tentava se convencer: esse era o caminho.
Mas à noite, quando fechava os olhos, era outra a estrada que seus sonhos percorriam.
E ela seguia dividida entre o amor presente... e a sombra de um passado que se recusava a ser apenas lembrança.
ADICIONE O LIVRO NA SUA BIBLIOTECA
COMENTE MUITO PRA EU PODER SABER QUE ESTÃO GOSTANDO