Capítulo 1 — A mulher que desceu do asfalto
O ônibus soltou um gemido de metal cansado antes de parar, e Aurora Valença desceu os degraus com a mochila pesada nas costas e o coração batendo num ritmo que ela não reconhecia. O ar do morro chegou até ela de uma vez — quente, denso, carregado de cheiro de comida, de esgoto e de vida. Ela nunca tinha sentido nada parecido. Na Zona Sul, o ar era limpo demais, quase estéril, como tudo na casa de que ela tinha acabado de fugir.
Ficou parada um instante, os olhos cor de mel percorrendo as vielas estreitas que subiam a encosta, as casas coloridas empilhadas umas sobre as outras como caixas esquecidas, as escadarias que desapareciam na direção do céu. De alguns pontos dava para ver o mar. Aurora pensou que isso era irônico — ela tinha trocado uma vista para o mar por outra, mas aquela não tinha piscina, nem segurança, nem pai.
A mochila pesava. Dentro dela, escondida entre roupas velhas e uma carteira com pouco dinheiro, estava a única coisa que importava: um pen drive pequeno, quase invisível, capaz de destruir o império de Augusto Valença.
Ela não sabia quanto tempo tinha. Agarrou a alça da mochila com força e começou a subir a calçada.
— Moça, você não é daqui.
A voz veio de trás, e Aurora se virou com o corpo inteiro em alerta. Um homem magro, de cabelos crespos e sorriso fácil, a observava de cima de uma moto velha.
— Preciso de um lugar para ficar — disse ela, a voz mais firme do que se sentia. — Disseram que tem uma pensão por aqui.
O motoboy apontou com o queixo para o alto do morro.
— Dona Celina. Sobe até o fim e vira à esquerda. Mas eu aviso: ela pergunta muito antes de abrir a porta.
Aurora agradeceu e continuou subindo. Não olhou para trás. Não sabia que, do alto, um par de olhos escuros já a observava.