Corra

1579 Words
— Estou. — eu apenas respondi sem me mover. Seria tão bom se eu simplesmente pudesse contar tudo para Havana. Mas Havana era uma médica, o que rapidamente dizia que ela estava do lado da ciência, e não de acontecimentos que desafiassem qualquer lei da física. Tudo que Havana seria capaz de fazer, seria me mandar para uma clínica de reabilitação para meu próprio bem. E talvez, fosse exatamente disso que eu estivesse precisando, no fim das contas. Senti o colchão ceder atrás de mim sob o peso de Havana, que havia acabado de se sentar. — Ei, tudo bem? Tia Peg disse que você não parecia muito bem. Disse que você não desceu para comer hoje. Eu quase chiei. — Tia Peg diz muitas coisas. Havana acariciou meu ombro descoberto enquanto tirava um pouco do cabelo de cima de meu rosto com a outra mão. — Ora, querida. Não precisa se privar de comer apenas por que sua tia é uma chata que fala demais... — ela explicou da melhor maneira possível, mesmo que não fizesse ideia do quanto tia Peg podia falar de menos quando mais se precisava que ela falasse demais. — Não é saudável ficar sem comer o dia todo, e também não é saudável ficar trancafiada no quarto o dia todo... Meu coração se apertou. Eu sabia o que se passava pela cabeça de Havana naquele momento. Ela não havia perdido a filha no coma, mas era como se estivesse perdendo da mesma forma. — Ás vezes, sinto que estou perdendo você, Eve. Eu me surpreendi ao ouvi-la verbalizar seus pensamentos, mesmo que fosse óbvia a forma que ela pensava conciliada à maneira como eu vinha agindo ultimamente. Você não entende, mãe... — a frase ficou entalada em minha garganta, por que eu não seria capaz de dizê-la agora. Mas eu não podia deixar que Havana pensasse coisas assim, por que doía muito mais em mim saber que era isso que ela pensava. Eu me ajeitei na cama, me sentando e recostando minhas costas na cabeceira de madeira polida. Havana ainda estava vestida com suas roupas habituais de trabalho, e seus cabelos castanhos e Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [105] longos escapavam do coque m*l feito, aumentando ainda mais seu ar de cansaço. Era incrível a forma como eu me parecia com ela. E era incrível a forma como seus olhos castanhos ainda brilhavam mesmo depois de um dia pesado de corre-corre. — Não é isso, mãe, é só que... — eu encarei minhas mãos, claramente sem saber direito o que dizer. — É só que... eu tenho me sentido meio... estranha depois do acidente... parece que... as coisas se deslocaram, e eu ainda não estou conseguindo acompanhar as mudanças. Havana avaliou bem minhas palavras enquanto observava minha expressão. — Você está me dizendo que não está se sentindo bem mentalmente? Quero dizer, nós podemos tentar consultar uma psicóloga, ou... — Não, mãe... — eu neguei com a cabeça antes que ela pudesse terminar. — Não é isso... eu acho que só me sinto estranha por que parte das minhas lembranças sumiu. Simplesmente sumiu. E depois, eu... — comecei, mas então minha boca se fechou. O que eu poderia dizer? Que uma garota insuportável na escola agora ficava fazendo piadinhas sobre mim e minha família? Que coisas bizarras estavam acontecendo comigo, como levar choque de papeis de bombom e provavelmente ter desejado de maneira muito forte que algo caísse na cabeça de Hanna? Que desastres pareciam acontecer ao meu redor o tempo todo? Que tia Peg me queria longe de um garoto a quem parecia conhecer, e que ela sabia muito mais do que aparentava. Mas sabia sobre o quê? Como eu poderia explicar algo que nem eu entendia para Havana? Então, tudo que fiz foi permanecer calada enquanto o restante da frase que não terminei pairava ao nosso redor. Havana sorriu de maneira fraca, mas ainda era um sorriso. E sua mão pequena apertou a minha mão entre os lençóis. — Querida, você é tudo que eu tenho. Apenas me prometa que vai fazer algo para melhorar, que vai se esforçar mais, que não vai procurar se autodestruir. O que me mantém aqui, em pé e sempre forte, é você. Eu não teria mais motivos para continuar... não depois que seu pai... As palavras se pareceram se entalar em sua garganta, e eu apertei sua mão novamente. Havana ainda o amava. — Eu sei mãe. Você também é tudo que eu tenho. Ela sorriu novamente, mesmo que parecesse estar segurando as lágrimas que pendiam nos cantos de seus olhos. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [106] — Então não desista, Eve. Ver você dessa forma apenas me deixa ainda mais destruída, a cada dia. Havana me abraçou, me dando um beijo na testa quando a abracei de volta. Não era sempre que Havana me falava coisas assim, por isso, alguma coisa dentro de mim parecia ter se acendido. Eu não desistiria por ela. Talvez eu não devesse seguir procurando as respostas para as perguntas que tinha, mas eu me via obrigada a fazê-lo por nosso próprio bem. Se tia Peg sabia de algo que pudesse nos proteger, eu ia lutar com todas as minhas forças para descobrir o que era. Impelida por Havana, desci junto com ela até a cozinha para comer alguma coisa, mas em nenhum momento me dirigi a tia Peg ou ousei sequer olhar em sua direção. Ela sabia que eu estava fazendo jogo duro, mas eu também sabia que ela não iria ceder. Afinal de contas, ela era tia Peg, aquela que sempre tinha seus truques escondidos na manga. O que me fez pensar em todas as coisas idiotas que Hanna havia mencionado sobre ela na sala de aula. Pelo menos eu podia saber que ela não era macumbeira nem nada parecido, e que não havia nenhuma verdade sobre as galinhas sacrificadas também. Mas o que poderia incitar a família de Hanna a dizer coisas como essas? O que havia sobre tia Peg que eu deixara escapar por tantos anos? Era preciso perder a memória, quase morrer, ou um garoto estranho aparecer me dando carona para que eu finalmente abrisse os olhos? Estava claro que ela não estava nada contente com a atual situação, de eu de repente perceber que havia algo ali que nunca notei antes, mas o que podia ser tão r**m assim? Quando comi o suficiente, pelo menos para satisfazer a preocupação de Havana, já eram quase onze horas da noite, e finalmente pude dar a desculpa de tema de casa para poder subir novamente. A verdade é que eu não queria mais ficar na cozinha. A verdade é que eu queria explodir. De forma que apenas me joguei novamente na cama, me embolando no que encontrava em cima dela, e implorando para que o sono viesse. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [107] O ar estava borrado com alguma coisa salpicada de cinza. Eu não podia saber o que era, por que o vento chicoteava meus cabelos para frente dos olhos. Meus pés estavam soterrados em alguma coisa úmida e gelada, e tive que tirar o cabelo dos olhos antes de olhar para baixo e perceber que eu estava de pé no chão. Uma base também fria de cimento estava enterrada em meio a terra fria e molhada, onde letras se embaraçavam, se enroscando umas nas outras e não me permitindo ver o que estava escrito. Uma névoa grudenta se levantava do chão, se arrastando por entre as lápides enquanto eu recuava zonza, abominando rapidamente o cheiro de flores e velas queimadas. Um cemitério. O que eu estava fazendo descalça em um cemitério? E por que eu estava sem blusa num lugar tão frio? Havia crostas de gelo branco se aderindo em todas as lápides pelas quais meus olhos corriam, o vento uivava em todas as direções, levando pedaços de névoa branca consigo. Folhas secas me acertavam enquanto eram tragadas pelo vento, e eu logo soube que a agitação se devia a alguma coisa brilhante que se movia do outro lado do cemitério. Tochas. Eram como um clarão em meio à noite escura. E o clarão desembocava rapidamente em minha direção. Algo me dizia que aquilo não estava certo. Algo me dizia que aquelas pessoas estavam atrás de mim, e brandiam o que pareciam ser armas afiadas. ”Você deve correr!”, uma voz soou no fundo de minha mente, em forma de sussurro. Eu não sabia como aquilo era possível, mas eu podia saber que aquela voz não era a minha, e também não eram meus pensamentos. “Corra, Eve, antes que eles te peguem! Corra!”. Mas eles já estavam perto demais, e eu estava congelada. Tanto de medo quanto de frio. Enquanto recuava de forma desesperada, eu tentava identificar os rostos que seguravam as tochas, mas era impossível, por que um capuz escuro cobria a cabeça de todas as pessoas que pareciam tão empenhadas em me alcançar, tornando impossível saber o que eram, ou o que poderiam ser. Num único segundo de realidade, a pessoa mais a frente do g***o levantou uma grande lâmina reluzente em minha direção, mas antes que eu pudesse pensar em correr, Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [108] como me mandava a voz, uma pequena ponta do capuz voou, mostrando um brilho prateado no único olho que a luz da lua revelou, e então, a lâmina desceu em minha direção.
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