Como se tivesse percebido de repente, meu braço se ergueu enquanto eu recuava, e
com uma pontada dolorosa de dor, senti o fio cortando a palma de minha mão, rasgando
minha pele num corte profundo. Eu gritei, me virando e correndo o mais rápido que podia. Eu não sabia por quê ou de quê estava fugindo, apenas sabia que tinha que ganhar o máximo de distância que conseguisse. Havia uma mata densa, porém sem vida circundando toda a estrutura circular do cemitério, e me embrenhei nela desesperada, sentindo gravetos afiados se enroscando em minhas roupas, furando meus braços e tentando me impedir de conseguir. Mas um pavor mudo havia se entalado em meu peito,
me impelindo a correr, como se de repente, eu soubesse do que estava fugindo.
Mas então meus passos vacilaram, quando percebi que o solo abaixo de mim não estava mais grudento, apenas gelado.
Arfei ao olhar ao meu redor e perceber que eu estava em cima de algo branco e úmido, um lago congelado.
Mas já era tarde demais.
Antes mesmo que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo, o gelo se
partiu em um milhão de pedaços, e em seguida, caí em meio à água gelada, sentindo a temperatura fria entrando em meu corpo, como se fossem pequenas agulhas, inseridas em minha pele da maneira mais dolorida possível. Tentei gritar, mas então minha boca se encheu de água, e fumaça tomou conta de todos os meus sentidos.
Oxigênio!
Dessa vez acordei de um salto, sentindo a respiração ainda presa nos
pulmões. Inspirei todo o oxigênio que conseguia, inflando meus pulmões a ponto
de quase estourá-los com a pressão. Algo gelado subia por meus braços, como garras, chegando até meu rosto num espasmo h******l de frio.
Aquilo era o que mais deveria se parecer com uma hipotermia.
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Mas não era isso que estava me preocupando, e sim o líquido quente que parecia estar empapando aos poucos minha coberta.
Levantei da cama aos tombos, enjoada e sentindo que ia despejar a janta a qualquer momento, ignorando o frio que parecia ter congelado todas as minhas células. Me joguei para dentro do banheiro, acendendo as luzes e enfiando minha
mão esquerda em baixo da torneira.
Com os olhos arregalados, percebi que estava ali.
O corte na minha mão estava ali, como se eu tivesse realmente tivesse estado
lá.
Droga. Eu já havia ouvido falar sobre sonhos muito reais, mas aquilo era simplesmente ridículo. Como tia Peg esperava que eu ignorasse uma coisa daquelas? E se eu tivesse um sonho onde eu morria e acordasse... bem, morta? Não fazia sentido.
Como eu podia ter estado lá sem realmente estar lá?
Com a mão direita, lavei o rosto, esperando que aquela sensação h******l
passasse. Mas o fato é que esquisitice não se curava com água no rosto, tão pouco com olhadas assustadas no reflexo pálido no espelho. Eu tinha que resolver aquilo de uma vez por todas, e mesmo que a ideia me apavorasse mais do qualquer coisa, eu precisava fazer o que tinha de ser feito naquele mesmo momento. E infelizmente, eu só tinha uma ideia do que fazer.
Voltar no lugar onde tudo começou.
Já eram quase três horas da madrugada, mas quem é que importava? Quando
você descobre que pode morrer enquanto dorme, você meio que começa a perder o sentido das coisas sensatas. Como agora.
Depois de enrolar a mão em um curativo apertado, voltei para o quarto, trocando o pijama por uma roupa mais quente, e me enfiando dentro de um moletom do time de basquete de Itham que estava na minha casa desde o verão passado, e que eu não tinha planos de devolver. Depois, procurei por uma lanterna
em minha escrivaninha, e abri a janela do quarto, por que não poderia exatamente
sair pela cozinha sem ser notada. Eu já havia pulado aquela janela outras vezes, quando fugia de casa para dormir na casa e Ivi, que ficava bem ao lado da minha.
Lembrar disso me fez observar a janela de seu quarto. As luzes estavam apagadas, sinal de que ela dormia. A ideia de convidá-la chegou até a passar por
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minha cabeça, mas eu sabia que seria i****a. Ivi jamais me acompanharia ou mesmo me permitiria ir para o lugar onde eu estava indo.
E eu já havia tido ideias idiotas demais para apenas uma noite só.
Pulei a janela, caindo de leve no telhado da cozinha, e tomando o cuidado de
andar da maneira mais silenciosa possível. O vento frio acertou meu rosto, me fazendo lembrar da sensação angustiante de cair dentro do lago de gelo. Pensar nisso me fez apressar os passos, até chegar na veirada do telhado. Me dependurei
na calha, tateando com os pés até achar um lugar seguro na grade da janela da cozinha em que me firmar. Quando pulei no jardim, cai de sentada, aguardando alguns segundos em silêncio até ter certeza de que não havia acordado ninguém. Silenciosamente agradecia por Bolota, o cachorro de Ivi, dormir mais que uma pedra.
Passei por entre os arbustos que separavam as laterais do jardim com a frente da casa, caminhando ainda levemente pelos ladrilhos coloridos. Também era muito conveniente que o portão torto não rangesse, exatamente por estar com suas dobradiças frouxas a tanto tempo. Só quando estava o suficientemente longe de casa, pude respirar fundo. Não que eu não estivesse com medo de sair feito uma i****a caminhando sozinha pela cidade àquelas horas da noite, mas eu
simplesmente não podia dormir de novo. Não depois daquilo.
Eu não precisava da lanterna enquanto atravessava os quarteirões que me separavam do Parque, mas a mantinha apertada entre os dedos enquanto me dirigia
a Avenida principal, como se ela fosse uma a**a. Eu não sabia direito o que estava fazendo, só sabia que precisava estar lá, e não me importava que tivesse sido a pior
ideia que eu já tivesse tido na vida. De repente, tateei meus bolsos, entrando em pânico quando não senti o volume reconfortante do celular.
Droga. Apesar de tudo, eu ainda não era tão esperta quando julgava ser. Apertei mais a lanterna entre as mãos enquanto apenas caminhava, engolindo
em seco cada vez que um carro diferente passava por mim. Eu não era a única pessoa na rua aquela hora. O Rio era uma cidade agitada demais para estar deserta
até mesmo de madrugada. De certa forma, isso me confortou um pouco, me fazendo pensar que eu não estava totalmente sozinha.
O ar foi realmente começando a pesar e as ruas foram ficando desertas apenas a medida que eu me aproximava do beco escuro que levava a uma das maiores construções da cidade, mesmo que agora destruída e abandonada. Meu
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coração disparou um pouco enquanto eu sacava a lanterna, atravessando o beco vazio e me aproximando dos enormes portões em forma de V virado do Vienna, o famoso Coisas que Flutuam.
Me agachei para poder passar por baixo da uma das fitas zebradas que cercavam o local. Era como estar invadindo o local de um crime. Não que fosse muito diferente disso.
O enorme portão estava quase tão torto como o portão de casa, o que facilitou minha entrada por dentro das barras de ferro que o sustentavam, sem que surgisse a necessidade de eu precisar pular por cima de algo para conseguir entrar. Foi aí que meu coração realmente disparou.
Ok. Eu estava oficialmente dentro.
Engoli em seco enquanto erguia a lanterna. Não era tão necessário,
considerando que muitas das luzes dos brinquedos continuavam acesas, mesmo que as lâmpadas estivessem em sua maioria quebradas de todas as formas possíveis. Mesmo assim, empunhar a lanterna me dava uma segurança a mais, mesmo que fosse apenas uma sensação claramente falsa.
Passei direto pela bilheteria vazia, pulando a roleta e tentando me manter o
mais atenta possível. Céus... aquilo havia virado um verdadeiro parque do terror. Talvez, a academia devesse organizar o próximo baile de Halowheen ali, sem precisar gastar nada com a decoração.
Meus tênis esmagaram cacos de vidro enquanto eu caminhava, e havia pedaços de brinquedos espalhados pelo chão. Aquilo só podia ter sido causado por
um terremoto. Qual outra explicação para tanta bagunça num único lugar? Também haviam bilhetes rasgados jogados pelo chão, copos plásticos faltando a metade, pedaços de canudos de algodão, chepas de cigarro, caixinhas de chicletes, sacolas plásticas rasgadas, litros de coca cola vazios e até alguns CDs
completamente cobertos de poeira.
O silêncio pairava tão profundamente, que eu podia ouvir a respiração saindo e entrando em meus pulmões. Apenas uma brisa mansa balançava meus cabelos para os lugares errados.
O lugar estava completamente calmo. Então por que eu estava tão apavorada?
Por que foi aqui que eu quase morri.
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Recomecei a andar, tentando me lembrar para que lado exatamente o túnel do terror havia estado uma vez, mas eu não tinha estado ali por tempo suficiente
da última vez para me lembrar tão facilmente.
Tentei usar a roda gigante como um ponto de referência no meio de tantos escombros, mas simplesmente não havia como saber. E quando eu encontrasse os restos do túnel, o que exatamente eu faria? Suspirei derrotada. Eu nem mesmo sabia o que estava fazendo ali as três horas da madrugada, parada ao lado do carrossel e tentando me achar em meio a um parque destruído.
A alguns metros de mim, estava a entrada para o Castelo Encantado da Cinderela.
Um arrepio correu por meus braços quando visualizei a decadência em que
ele se encontrava. A carruagem na frente do castelo estava tombada para o lado, recostada no muro que cercava o pequeno lago em frente ao Castelo, e uma boneca da Cinderela estava com metade do corpo para fora da janela, com a cabeça quase dentro do lago. Ao perceber como tudo aquilo ali era inquietante, rapidamente me lembrei do dia anterior, quando eu e Ivi passemos por ali, e eu pude jurar que havia visto as cortinas do Castelo se mexerem.
Minha boca se secou, e impedi que meu pescoço se inclinasse, me forçando a olhar para cima novamente.
Mas que tipo de m***a eu tinha na cabeça afinal de contas? Vir sozinha a um parque como o Vienna não era exatamente uma coisa que uma pessoa em sã consciência faria.
Um ruído de pedras sendo esmagadas a minha direita me sobressaltou, me fazendo apertar mais a lanterna entre os dedos, e logo, as palavras de Ivi me
acertaram como um soco no estômago. “Você acha que existem fantasmas ai?”.
Pavor frio desceu por minha espinha ao me dar conta do tamanho da idiotice que eu havia feito.
Corra. Apenas corra e não olhe para trás!
Mas meus joelhos haviam travado no lugar, e meus pés pareciam colados ao
chão enquanto o pânico tomava conta de todos os meus sentidos, por que eu já me encontrava em outro estado da realidade do medo, sabendo, com todas as minhas células, que não estava sozinha no Parque.
Quando contei até três para sair correndo, me virei rapidamente, mas parando de repente tão rápido quanto havia me virado, meus tênis derrapando nas
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pedras soltas. Havia uma sombra perto do guichê do carrossel, escondida por uma
das pilastras que sustentavam a construção circular. Meu coração disparou, como
se fosse saltar pela boca, sobretudo quando a sombra saiu da escuridão, se revelando na luz fraca que saia das lâmpadas grudadas nos cavalos.
— O que você está fazendo aqui?