Sibilei enquanto piscava rápido demais até para meus próprios olhos, sentindo minhas pálpebras batendo umas nas outras enquanto eu recuava, surpresa
e amedrontada demais.
Isso, por que não havia como não reconhecer aquela voz e aquelas tatuagens. Eron estava parado a alguns metros de mim, e dessa vez, não havia nada de
zombeteiro em sua expressão.
Tentei encontrar minha voz enquanto tentava entender o que estava
acontecendo ali.
— Como assim? O que você está fazendo aqui??? — foi a única coisa que
consegui soltar, considerando o tanto que minhas pernas tremiam. Ele levantou uma sobrancelha.
— Eu acho que perguntei primeiro.
A única coisa que consegui fazer em resposta foi engolir em seco, principalmente quando ele começou a se aproximar.
— Me responda, Eveline. O que está fazendo num lugar como esse a essas horas? Tem ideia do que está fazendo?
Automaticamente passei a recuar, por que havia uma ameaça não declarada por trás de seus olhos verdes, e a forma como ele estava encurtando a distância entre nós já começava a me causar coceiras, me fazendo segurar a lanterna a frente
do corpo, como se ela fosse me proteger.
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Mas então, alguma coisa caiu atrás de mim, e quando girei sobre os calcanhares, meu queixo caiu, e tenho certeza que minha boca se abriu em formato
de O.
Haviam duas garotas paradas atrás de mim, a uma distância segura. Uma era alta, e seus cabelos vermelhos eram tão bagunçados que chegavam a balançar por conta própria enquanto ela me observava, e suas roupas eram escuras, de couro, a camiseta com decote em forma de V deixava ver uma enorme tatuagem de um redemoinho em seu peito, entrelaçado a um raio. A segunda garota era ainda mais impressionante, mesmo que parecesse ser uma versão inversa da primeira. Tudo nela era branco. Desde às roupas, até seu cabelo bem comportado e liso que descia
até quase os quadris. Sua pele também era pálida, e a única cor que havia nela eram
os olhos, azuis acinzentados, que mais pareciam dois blocos de gelo. Seus cílios também eram brancos, e única tatuagem escura em sua pele também se encontrava um pouco a baixo do pescoço, um V virado contornado por espirais.
E havia uma lâmina branca presa a bainha de sua calça, assim como havia uma espécie de lâmina afiada presa numa bainha que devia estar por dentro do cano da bota de salto alto da garota dos cabelos vermelhos.
— Quem é ela? — a primeira garota perguntou, obviamente se referindo a mim.
Ambas eram absurdamente bonitas, e poderiam até ser consideradas
delicadas, se não fosse algo estranho que parecia fluir do corpo de ambas, parecendo se chocar com o ar nosso redor. Era como se elas pudessem por tudo o
que restara do parque a baixo com apenas um sopro.
— Ninguém. — Eron se apressou em responder, parecendo estar odiando a presença das duas. — É apenas uma das alunas da academia.
A segunda garota, dos cabelos brancos, não demonstrava expressão nenhuma, apenas me lançou uma rápida olhada, analisando meu nível de ameaça, talvez, mas obviamente não encontrando nada que a preocupasse.
— E o que ela está fazendo aqui? — ela simplesmente perguntou, e sua voz parecia ser tão gelada quanto seu olhar.
Eron pareceu rosnar por alguns instantes.
— Era o que eu estava tentando descobrir. Obrigado por nos interromper.
Agora, será que já podem ir?
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— Isso não é brincadeira, Eron. — a garota de cabelos brancos falou, no mesmo tom de antes, mas havia algo em sua voz que ainda lhe deixava um tanto sem expressão — Arena não vai gostar nada disso. Pessoas rondando o Parque.
Eron bufou, obviamente irritado.
— E quem é que se importa com o que ela acha ou deixa de achar? — ele
perguntou enquanto fingia pensar por alguns instantes — deixe-me ver... eu com certeza não.
A garota dos cabelos brancos apenas deu um longo suspiro, enquanto chacoalhava a cabeça.
— Eu não espero menos que isso, apenas impeça seus amigos de passearam por aqui como se o Parque fosse uma Casa de Exposições. Já temos problemas o suficientes por enquanto.
Eron rolou os olhos verdes.
— Por que você não vai procurar algo para fazer? Pra variar um pouco?
Mas a garota de cabelos vermelhos não estava tão disposta a sair dali, por que
ainda me olhava com curiosidade.
— Esperem. Talvez devêssemos levá-la para Arena...
— Isso não vai ser necessário — Eron a cortou irritado, com um tom tão cortante quanto lâmina, e agora sim havia uma ameaça especial em seus olhos. — Ninguém vai levá-la a Arena. Venha, Eveline, eu vou te levar para casa. — ele me puxou pelo pulso antes que eu pudesse prever o movimento.
E então a manga de meu moletom subiu, revelando a única cicatriz que eu sempre fazia questão de esconder. Os olhos de Eron logo deslizaram por meu pulso, e por uma fração de segundos, seus olhos pareceram se arregalar, enquanto uma maré de reações se passava por seu rosto.
— Mas que m***a! — ele vociferou largando o meu pulso como se eu tivesse lhe dado um choque, e depois me encarando com seus pavorosos olhos verdes. — Por que você não me contou sobre isso antes?
Eu estava confusa demais para formular as frases que queria.
— O quê? Do que você falando? — eu gaguejei, no mesmo tempo em que a
garota de branco chegou ao meu lado, querendo saber a mesma coisa.
Eron parecia estar surpreso demais, parecendo se decidir se contava ou não
fosse lá o que fosse que ele tinha para contar. — Ela foi marcada.
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Minha testa se enrugou, e quando eu finalmente ia gritar a plenos pulmões, exigindo uma explicação, a garota de branco tocou meu pulso, erguendo a manga
de meu moletom,e algo na forma como Eron dissera “marcada”, sugeria que aquilo
não era nada bom. Mas o que me fez calar a boca enquanto ela analisava minha cicatriz, foi o toque frio de seus dedos brancos. Era como se ela estivesse encostando cubos de gelo em minha pele, completamente diferente da sensação quente do toque de Eron.
— Você tem razão. E não é uma marca nada comum. Ela foi marcada com uma balança.
A garota dos cabelos vermelhos também logo se aproximou, claramente surpresa, tentando ver por cima do ombro da garota de branco.
— n******e ser. Ela é terrena! Isso é simplesmente impossível! Como ela
pode ter resistido a uma marca dessas? — a garota dos cabelos vermelhos me encarou curiosa — Como você conseguiu isso?
Mesmo chocada, percebi que eu não poderia fazer outra coisa se não responder.
— Ah, eu não sei bem... quero dizer, aconteceu depois do acidente. Essa foi a
única cicatriz que n******e se curar... eu acordei no hospital e... não me recordo
como aconteceu... — me perguntei se eu estava falando coisa com coisa,
principalmente quando a garota me olhou como se eu tivesse acabado de cair de b***a do céu.
— Do que ela está falando? — ela se dirigiu a Eron claramente confusa, que custou um pouco a responder, mas acabou cedendo quando percebeu que todas as atenções se voltaram para ele, inclusive a minha.
— Ela estava aqui na noite do desastre. Ela perdeu a consciência. — ele
apenas explicou, e fiquei grata por ele não mencionar a parte de eu ter perdido parte da memória, mesmo sem entender por que ele resolveu omitir parte da história.
O silêncio predominou por alguns instantes, enquanto todos pareciam tentar digerir as informações.
— Bem... seja como for, parece que encontramos algo realmente interessante aqui. — a garota dos cabelos brancos e dedos gelados concluiu enquanto me devolvia meu pulso — talvez fosse realmente inteligente levá-la até Arena e descobrir o que isso tudo significa.
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Mas antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, e me surpreendendo, Eron me puxou para trás dele, e eu cedi como uma bonequinha de pano.
— Vocês não vão levá-la a lugar nenhum. Ela não tem nada ver com isso, é apenas uma terrena.
A garota dos cabelos vermelhos deu um passo a frente. — Mas...