Vicent estava em sua sala, descansou na cadeira, estava cansado, e só conseguiu pensar na sua casa.
Estranhou o seu próprio pensamento, nunca pensou em ir para casa quando estava cansado.
Inacreditavelmente estava pensando em ir para casa, e isso não era algo normal.
Tirou essa possibilidade da sua cabeça, se queria descansar só precisava ir para o seu apartamento.
Antes que pudesse sair da empresa, passou pela sala de designer dos jogos.
Maya estava ali com os outros funcionários, eles analisavam alguma coisa que não sabia o que.
Notou que ela estava apreensiva, como se esperasse por algo decisivo.
Se lembrou que Hiana passou uma tarefa para ela, agora sabia do que se tratava.
Se aproximou um pouco, mas sem ser notado por eles, só queria acompanhar mais de perto.
Hiana olhava cada detalhe atentamente, a única coisa em que ela conseguia pensar era que não havia visto nada mais perfeito.
Os personagens eram únicos, só em olhar para eles já achava o jogo atrativo demais.
Estava impressionada com as habilidades de Maya, não tinha como negar que ela era a melhor.
--- Você já está contratada Maya, acho que nunca vi algo tão único.
--- Sério?
--- Claro, são melhores personagens que já vi, o que acha chefe?
Ela falou isso olhando diretamente para Vicent, ele engoliu a seco, pensou que não tinha sido notado.
Todos voltaram sua atenção para ele, tossiu falsamente, não deveria estar ali naquele momento.
Foi até Hiana, pegou o Iped da mão dela e olhou atentamente cada detalhe.
Pela primeira vez na vida estava vendo esboços de um personagem que não precisaria ser mudado em nada.
Estava perfeito e exatamente como havia imaginado, o jogo com certeza ganharia um público gigantesco.
--- Está ótimo, espero que continue com o bom trabalho e desempenho na empresa.
--- Sim chefe.
Vicent se achou estranho ao ser chamado de chefe por Maya, não entendia por que.
Entendia sim, só não queria admitir a si mesmo que gostava de ser chamado pelo nome por Maya.
Balançou sua cabeça em concordância e saiu da sala, logo atrás de si, Maya o acompanhava.
Por onde passavam os funcionários olhavam, bem atentos, ainda achavam inacreditável aquela cena.
Maya sorria e distribuía bom dia a todos os funcionários, enquanto Vicent continuava com a expressão fechada.
Todos achavam uma combinação e tanto aqueles dois, não combinavam em absolutamente nada.
Ao entrarem no elevador Maya continuou sorridente como sempre, o sorriso era sua marca registrada.
--- Por que veio comigo?
--- Estou indo para casa, preciso preparar o jantar das crianças.
--- Elas estão em casa sozinhas?
--- Lógico que não, eu não as deixaria sozinhas em casa, as duas estão na escola.
--- Escola?
--- Sim, matriculei elas a alguns dias.
--- As duas estão se dando bem?
--- Sim, Audrey tem muitos amigos, segundo ela só que podem lhe acrescentar alguma coisa, e Freya é amiga da escola toda.
Maya não analisou muito bem, mas notou um sorriso bem pequeno nos lábios de Vicent.
Não pôde visualizar melhor porque ele se deu conta daquele sorriso e logo voltou a sua habitual expressão.
Se deu por satisfeita, ao menos agora sabia que ele não era uma pessoa tão r**m, ele só precisava mesmo era de um grande empurrão.
Saíram do elevador, Maya procurou pelo carro do motorista e se lembrou que ele não estava mais ali.
Tinha mandado ele ir para casa assim que entrou na empresa, suspirou, não podia ir embora sozinha.
Se virou para Vicent, sorriu como alguém que não queria absolutamente nada, mas queria algo.
--- Pode me levar em casa?
--- Não pode pegar um táxi?
--- Não confio em táxis.
--- Pode ir com meu carro.
--- Eu não sei dirigir.
Vicent ficou pensativo, não queria ir levar ela em casa, só queria ir para o seu apartamento e descansar.
Queria entender porque ela não queria ir em um táxi, ou porque não sabia dirigir.
--- Tudo bem, vou ligar para Maverick, ele pode me levar.
Maya pegou se celular na bolsa mas Vicent interrompeu quando ela iria discar o número dele.
Pior do que não ir levá-la seria Maverick ir levar ela, não tinha escolha agora.
--- Eu levo você.
--- Tá bom.
Ela saiu saltitante e entrou no carro de Vicent, ele sorriu ao olhar aquela cena.
Maya simplesmente tinha uma alma leve como a de uma criança, o espírito dela parecia o mais puro.
Deu partida no carro e foram em direção a sua casa, fazia tempo que não ia por aquele caminho.
Não sabia se já fazia um mês, ou até mais, talvez fazia mais que cinco meses, não se lembrava bem.
E Maya simplesmente estava em silêncio, queria muito conversar, mas também queria que Vicent iniciasse a conversa.
O que seria quase impossível de acontecer, e realmente não aconteceu.
Ele parou o carro em frente a sua casa, Maya retirou o cinto, olhou para ele e esperou mais uma vez que ele dissesse algo.
Ainda assim, ele simplesmente ficou olhando para o nada, como se não quisesse olhar para ela, sabia o motivo.
--- Não quer nem mesmo olhar para sua casa?
--- Por que eu iria querer olhar pra lá?
--- Vicent, devia vir em casa mais vezes, a sua família está aqui, e não na empresa ou no seu apartamento.
--- Já disse a você Maya, eu não quero esse casamento.
--- Fale para mim, olhando nos meus olhos, talvez assim eu acredite no que está falando.
Vicent olhou para Maya, bem no fundo dos olhos dela, tentou encontrar coragem dentro de si.
Não encontrou um só resquício de coragem, não podia falar aquilo olhando nos olhos dela.
Era impossível, pensou que seria a coisa mais fácil que poderia fazer, mas não era assim.
Quando pediu para Vicent falar ficou apreensiva, pensou que ele realmente o faria.
Não ouvir ele dizer o que disse antes olhando em seus olhos, deixou seu coração aliviado como nunca.
--- Quando estiver pronto para dizer isso olhando nos meus olhos me procure, mas enquanto isso não acontece, eu continuo querendo fazer meu casamento ser o casamento mais feliz do mundo.